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02/11/2008

Três checos, um espião e uma denúncia

El País
Joseba Elola
Dois jovens de 20 anos se encontram na ponte Manes em Praga, em 14 de março de 1950. Ele é Miroslav Dvoracek, um ex-piloto do exército checoslovaco, do qual havia desertado, e agora é um belo espião que trabalha para os EUA.

Ela, Iva Militka, uma estudante loura, ingênua e pouco politizada. Há mais de um ano que não se vêem; Iva está emocionada, tem na frente seu amigo, que cruzou a fronteira junto com seu ex-namorado. Dvoracek lhe conta que agora trabalha em uma loja de fotografia na Alemanha, que está de passagem e lhe pede um favor.

Esse reencontro marcará para sempre suas vidas e as dos que os rodeiam. A partir desse momento, toda pessoa que souber desse episódio se encontrará em perigo.

A Checoslováquia comunista do início dos anos 50 é uma sociedade atemorizada pela delação, caldo de cultivo para a suspeita. Dvoracek é detido e vai parar nos campos de concentração de Pribram. Trabalha como escravo nas minas de urânio. Sofre durante 14 anos as conseqüências de uma delação. Um documento da polícia checa envolve o escritor Milan Kundera nesse assunto obscuro.

Um velho ditado da época comunista diz que quando três checos se reúnem dois deles são informantes da polícia.

"Estava tão contente por vê-lo, não havia nada de suspeito nele", diz Militka enquanto o chihuahua que descansa em seus braços lambe sua mão. Militka é hoje uma mulher de 79 anos que vive em Bohnice, um bairro modesto de Praga conhecido por seu hospital psiquiátrico. Durante toda a vida sentiu-se culpada pelo que aconteceu com seu amigo Dvoracek quando tinha 21 anos.

Na estante de sua casa está a foto de Miroslav Dlask, o homem ao qual ela fez uma confidência, seu namorado na época e depois seu marido. Um marxista convicto, forte, alto, bem vestido. Ela contou que havia encontrado Dvoracek, que ela chamava de Mirda, e que ele havia pedido que guardasse uma mala na residência de estudantes onde ela dormia. Voltaria à tarde e ficaria para dormir.

Dvoracek tinha, aos 22 anos, uma missão: entrar em contato com Vaclavik, um funcionário da Chemapol, a poderosa empresa química checa. Havia sido recrutado pelos Corpos de Contra-Inteligência (CIC) americanos depois de abandonar o exército checo. O golpe comunista de 1948 o havia feito perder seu posto de piloto. Decidiu fugir.

Iva contou sobre o encontro a seu namorado, Dlask, na hora do almoço. Do que ele fez com essa informação se começa a falar agora, meio século depois.

Milan Kundera era naquele tempo um jovem comunista que acabava de ser expulso do partido. Tudo porque zombou de um alto cargo, episódio que inspirou anos mais tarde seu primeiro romance, "La Broma" [A piada]. O autor de "A Insustentável Leveza do Ser" era então um estudante de cinema de 21 anos. Segundo o historiador Jiri Pernes, era o encarregado da residência.

Segundo o Instituto para o Estudo dos Regimes Totalitários checo (USTRCR), organismo que apóia a investigação que questiona Milan Kundera, está muito claro o que ocorreu naquela tarde às 4 horas: Kundera informou à polícia. É o que diz o documento 624/1950 da polícia checa, um relatório assinado pelo oficial Rosceky: "Hoje, por volta das 16 horas, um estudante, Milan Kundera, nascido em 1-4-1929 em Brno, residente na residência de estudantes da Avenida Jorge VI em Praga 7, se apresentou nestas dependências e informou que uma estudante, Iva Militka, hospedada na residência, disse a um estudante chamado Dlask, também da residência, que havia se encontrado com um certo amigo seu, Miroslav Dvoracek, em Praga nesse mesmo dia. O supradito Dvoracek aparentemente deixou uma mala a seus cuidados [...]".

O relatório destacava a condição de desertor de Dvoracek.

A envelhecida pasta rosa com o expediente de Dvoracek está guardada nos Arquivos do Serviço de Segurança checo. O quinto documento da pasta, um papel de cor amarela e grosso, é o documento da discórdia. "Não o coma, não o destrua", adverte brincando Vojtech Ripka, o diretor do Departamento de Documentação.

Nesse documento se baseia a acusação contra Kundera. Foram muitas as vozes que se levantaram contra sua validade. Em um primeiro momento se disse que não era confiável porque não trazia a assinatura de Kundera. No USTRCR esclarecem que só os interrogatórios exigiam uma assinatura. Os relatórios da polícia, não.

"Os procedimentos da polícia eram bastante estritos na época, e são os mesmos hoje, aqui e na Espanha", explica Ripka. "Kundera foi procurar a polícia. O documento está autenticado pelo Arquivo das Forças de Segurança."

Milan Kundera não faz mais declarações, informa a este jornal seu representante, Jiri Srstka. Foi bastante taxativo quando surgiram as acusações. "Puras mentiras", disse. O tradutor de seus primeiros livros na Espanha, Fernando de Valenzuela, lamenta que se conceda o benefício da dúvida à polícia checa. "Isso é uma montagem e uma infâmia", declara.

A escritora Lenka Prochazkova, em seu luminoso apartamento de frente para o rio Moldava, afirma que se trata de uma campanha contra um dos ícones da Primavera de Praga por parte de uma direita, a que implantou o USTRCR, com desejos de vingança. Até o ex-presidente Vaclav Havel saiu em defesa do escritor.

Por volta das 20 horas desse 14 de março, Dvoracek voltou à residência e dois policiais armados o esperavam atrás da porta. Foi o início do calvário.

"Naquele tempo, se um comunista escutava a história de um agente, devia informar. É como se hoje alguém soubesse de um terrorista islâmico e não dissesse nada." É o que explica em seu estudo Ivan Klima, grande escritor checo, contemporâneo de Kundera.

Ele diz que a Checoslováquia do início dos anos 50 foi um Estado "terrorista" até a morte de Stálin, em 1953. "Se você não informasse, podia pegar cinco anos ou ser enforcado", diz, mexendo no cabelo que aos 77 anos ainda corta como Ringo Starr.

Klima foi um comunista convicto, como Kundera. Um promotor da Primavera de Praga, como juiz. Conta que naquele tempo se encontrou em situação semelhante. A informação lhe chegou também por meio de uma garota. Ela lhe falou de um antigo oficial das SS em território checo. Mas ele decidiu não informar. "O que está claro é que naquela época manter-se firme exigia ser muito corajoso."

Seis meses depois do encontro sobre a ponte Manes, Dvoracek foi condenado por deserção, espionagem e traição. Pegou 22 anos e cumpriu 14.

As famílias de Iva Militka e Dvoracek ficaram inimigas. Nunca perdoaram Militka por falar, sempre a culpavam pela sorte do filho. Militka carregou durante toda a sua vida o peso da culpa, sempre se censurou por ter contado a seu marido sobre esse encontro.

Em diversas ocasiões lhe perguntou se tinha sido ele quem informou à polícia. Dlask sempre se calou. Até 1992. Então, diz Militka, contou o envolvimento de Kundera. "Me senti feliz e aliviada", reconhece, embora isso não desculpasse seu marido. "Se ele informou foi para me proteger", declara. "Naquele momento, dar a informação ao Estado não era mau."

O historiador Zdenek Pesat, que era professor da universidade naquela época, declarou na semana passada que Dlask informou à polícia além de informar ao partido. O que não impede que Kundera também o tenha feito, diz Militka. Na semana passada, Pesat estava em grave estado de saúde, segundo contou a El País sua filha em Praga, e não podia dar entrevista.

Dvoracek passou dez anos penando nas minas. Jiri Stransky, conhecido escritor que foi processado pelo regime, esteve lá durante oito anos. De fato, ao ver as fotos de Dvoracek na imprensa, seu rosto lhe pareceu familiar. "Trabalhávamos como escravos, vivíamos em um campo de concentração", diz em seu perfeito e educado inglês. "Nos batiam e mal nos davam de comer."

Depois de 14 anos, Dvoracek obteve a liberdade condicional. Dois meses depois da invasão do Pacto de Varsóvia, em 1968, fugiu para nunca mais regressar ao seu país. Ao chegar ao Canadá, mudou o nome de Miroslav por Mike. Começava uma nova vida.

Instalou-se na Suécia em 1975. Foi para lá para unir seu destino ao de Marketa, uma amiga de seu irmão que o ajudou quando saiu da prisão. Durante anos trabalhou supervisionando a alimentação em um hospital. Em 1993 começaram as seqüelas dos anos em contato com o urânio: anemia hemolítica.

"Ele foi feliz, conseguiu deixar seu passado", diz Marketa por telefone. Ela fala do apartamento perto do mar onde vivem juntos, na costa oeste da Suécia. Dvoracek sofreu em junho um infarto cerebral durante uma viagem aos Açores e perdeu a fala. Está aprendendo a escrever com a mão esquerda.

Neste fim de semana, Mike e Marketa deveriam ter ido a Fuerteventura, já tinham comprado as passagens fazia tempo, adoram a Espanha. Mas foi preciso suspender tudo. O médico diz que nunca teve um paciente tão forte quanto ele.

O infarto cerebral o surpreendeu dois meses depois da ligação de Adam Hradilek, o investigador que publicou na prestigiosa revista "Respekt" que Kundera estava envolvido no assunto. Dvoracek não quis reabrir o passado. Não queria falar.

Sua esposa diz que não importa quem o delatou. O caso é que o delataram.

Durante toda a sua vida Dvoracek pensou que fosse Militka a responsável por seu destino. Quando a polícia checa o deteve e interrogou em 1950, não mencionou Militka. Pôs sua amiga a salvo.

Há um ano Matej Dlask, neto de Militka, perguntou a esta como era possível que tivesse apoiado os comunistas naquela época. A conversa desembocou na confissão daquela história obscura. E saiu o nome de Kundera.

Matej começou a investigar o caso e passou os detalhes para seu primo Adam Hradilek, especializado em entrevistar vítimas do regime comunista. Foi este quem, investigando os Arquivos do Serviço Secreto, encontrou o documento 624/1950.

"Meus avós não foram felizes", diz Matej, 32 anos, na cozinha de sua casa no nordeste da cidade. Sempre estavam apertados de dinheiro. A desconfiança em torno do episódio da delação provavelmente prejudicou sua relação. Dlask trabalhou como professor de filosofia marxista durante toda a vida. Ela desempenhou trabalhos diversos.

Pouco depois de morrer o avô Dlask, a família pediu a Militka que escrevesse suas memórias. "Tinha muito tempo livre", diz Matej, que é informático e tem três filhos. Os protagonistas do "caso Kundera" reconstroem a história para El País Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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