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04/11/2008

A refundação do império

El País
Juan Jesús Aznárez
Como será o mundo depois de George W. Bush? O próximo presidente dos EUA assumirá a tarefa titânica de refundar o império desfalecido que seu antecessor lhe deixa. Uma herança carregada pela terrível guerra do Iraque, a maior crise econômica desde 1929 e uma imensa perda de credibilidade internacional.

Há pouco mais de cinco anos, quando os falcões da Casa Branca preparavam a invasão do Iraque, Barack Obama participou de um comício contra a guerra. Suas palavras diante de duas mil pessoas reunidas na Federal Plaza de Chicago foram proféticas. Depois de invocar o alistamento militar de seu avô no dia seguinte ao bombardeio de Pearl Harbor (1941) e o seu próprio se assim evitasse um atentado como o que destruiu as Torres Gêmeas de Nova York, o candidato democrata denunciou diante do público reunido que a intervenção americana no Iraque foi apaixonada e apressada, apegada à política e não aos princípios.

Inclusive se os EUA tiverem êxito, será necessária uma longa ocupação, com um custo e conseqüências imprevisíveis, disse na época. "Sei que uma invasão sem motivos claros e sem um apoio internacional vai piorar o conflito no Oriente Médio, provocar no mundo seus piores instintos e reforçar a capacidade da Al Qaeda de convocar recrutas."

Ninguém lhe deu atenção. E um ano depois o candidato favorito em todas as pesquisas, o novo presidente dos EUA se elas estiverem certas, viajou ao Iraque acompanhado por dois senadores e seu assessor de política externa, Mark Lippert. Reuniu-se com os comandos das tropas mobilizadas no país árabe, conversou com os correspondentes entrincheirados na Zona Verde e escutou as explosões dos morteiros enquanto acompanhava por satélite a partida dos Redskins, o clube de Washington na liga de futebol americano. Na véspera, cinco fuzileiros navais morreram em uma emboscada e um general confessou ao curioso senador de Illinois que por US$ 3 um menino podia colocar uma bomba.

Em sua reunião posterior com membros do governo provisório iraquiano, observou que sorriam muito, mas os olhos dos políticos às ordens de Washington não transmitiam emoção. Tudo era lúgubre e sombrio. Pouco antes de voltar aos EUA, Lippert perguntou a um oficial veterano o que os EUA deveriam fazer para melhorar a situação no Iraque. "Ir embora", foi a resposta, segundo revela o próprio Obama em seu livro "A Audácia da Esperança".

Os fuzileiros navais continuam no Iraque e o candidato democrata deseja sua rápida saída. Para isso, deverá ganhar as históricas eleições desta terça-feira e levantar a imagem deteriorada de seu país no mundo.

Durante os oito anos de administração Bush ocorreram muitas coisas, mas poucas boas. Satélites americanos orbitam o planeta, 761 bases do Pentágono em 151 países o rodeiam, o hambúrguer é imbatível na Papua Nova Guiné e ninguém pode se aproximar do poderio de uma economia com trilhões suficientes para curar a Aids, travar várias guerras ao mesmo tempo e aterrissar em Marte. Mas o império acusa cansaço e descrédito: perdeu aliados durante sua cruzada contra o terrorismo; gastará US$ 700 bilhões contra a recessão, o mesmo volume na manutenção de suas legiões no Iraque e no Afeganistão; e a fatura anual de sua dependência energética beira os US$ 450 bilhões.

A potência desperdiçou boa parte de sua reputação ao lutar sozinha em várias frentes, porque sozinha se meteu nelas, e experimenta uma certa sensação de orfandade. Bush inaugurou sua presidência com o pior atentado da história e a termina com o descalabro econômico mais grave desde a Grande Depressão de 1929. O fazendeiro do Texas sai pulverizado pela crise econômica e o desejo de mudança, rejeitado por 73% de seus compatriotas, segundo a firma de pesquisas Gallup, e sem ter sabido adaptar-se a um mundo progressivamente refratário à unilateralidade, globalizado, impossível de entender em branco e preto. Embora a força dos EUA continue sendo descomunal, não pode enfrentar sozinha os complexos desafios deste século.

"O mundo foi desenhado pelos EUA desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas entra em um período de mudança multipolar", explica o jornalista especializado em relações internacionais Fareed Zakaria em seu livro "The Post American World" [O mundo pós-americano]. O poder de ditar e ser obedecido declinou, e se fosse preciso datar o começo da inflexão descendente 11 de setembro de 2001 seria uma boa data. Quando o terrorismo acabou com as Torres Gêmeas de Nova York, o arsenal do império se pôs em marcha com a delicadeza de um elefante em uma vidraçaria. Ao grito de democracia e liberdade, chutou portas e instituições, ignorou as recomendações da ONU e marchou arrasando a verdade e as consciências. Saddam Hussein foi enforcado e a missão libertadora parecia factível, mas não o foi.

Uma rotação de 895 mil soldados não aplastrou a insurgência nem garantiu uma normalização improvável em curto prazo. A emaranhada situação geopolítica do país e o sectarismo se misturam à desunião associada a dezenas de milhares de civis mortos, 3,5 milhões de refugiados ou deslocados, a diáspora de médicos, professores, advogados e profissionais. A partir do Iraque e do engano das armas de destruição em massa, tudo foram tropeços na guerra global contra o terror: o esfriamento das relações com importantes parceiros da Otan, a enxurrada de mortos na antiga Mesopotâmia, a rebelião taleban em um Paquistão híbrido, as presunções nucleares do Irã, as tensões com a Rússia e a Síria ou a urticária venezuelana.

As barbaridades cometidas em Guantánamo e Abu Ghraib minaram a autoridade moral dos EUA e uma calamidade sobrevoou o resto: o progressivo isolamento do César. "Definitivamente, os americanos não estamos contentes com nossa má reputação. Sofremos um espasmo doentio de unilateralidade e soberba. Guantánamo e as alegações de tortura têm parte da culpa", afirma Robert Kagan, assessor do Partido Republicano para política externa.

O vencedor desta terça-feira - Barack Obama ou John McCain - enfrentará enormes desafios em seu tortuoso caminho para a recuperação do crédito: primeiro deverá fechar Guantánamo e proibir a tortura e depois, reconduzir as alianças e prioridades de um país cheio de idéias e de recursos, capaz de integrar em casa culturas e raças diversas, mas atacado por inimigos jurados e um terrorismo escorregadio e potencialmente devastador. Iraque, Irã, Afeganistão e Paquistão são um quebra-cabeça e também podem sê-lo a Somália, Sudão, Zimbábue e Congo.

Paralelamente, poderes emergentes, embora comparativamente pequenos - China ou Índia entre eles - disputam seus mercados, chancelarias e influência política. Os impérios nunca enfrentam problemas menores.
Um intenso dinamismo mundial aguarda o novo inquilino da Casa Branca.

Embora Pequim colabore com Washington na desnuclearização da Coréia do Norte, rivaliza em outros âmbitos; a Rússia deseja antigos esplendores; a Bolívia é um barril de pólvora e em Cuba pode haver mudanças. Algumas transformações detonadas pela desordenada irrupção no Iraque são perigosas: os novos cismas islâmicos alimentam a guerra santa de Bin Laden, que sonha com megatons e o extermínio do infiel, e a submissão do oficialismo sunita facilitou a mobilização xiita pelo golfo Pérsico; também se ativaram as esperanças do independentismo curdo, com milhões de nacionalistas na Turquia, Síria, Irã e Iraque.

"Não posso imaginar o que deve ser chegar e ter de lidar com tudo isso", comentou Bush referindo-se ao legado que deixa para seu sucessor, segundo um vazamento publicado por "The New York Times". McCain, companheiro de partido, o imagina bem porque o governo que sai "perdeu o controle das coisas". A complexidade da agenda do próximo presidente só é comparável à assumida pelo democrata Franklin Delano Roosevelt (1933-1945) em 1933, com o New Deal (novo acordo) como eixo. Seus primeiros cem dias se desenrolaram com o país mergulhado em um abismo econômico. Prometeu a prosperidade doméstica e a supremacia americana no mundo, e foi atrás delas. Para conseguir, combateu na Europa e na Ásia contra o fascismo, Hitler e o expansionismo japonês. Mais de meio século depois é lembrado na margem dos próceres nacionais.

O estropiado crédito americano continua à espera do desenlace da disputa eleitoral entre dois candidatos muito diferentes em seu enfoque da diplomacia: o republicano McCain, de 72 anos, membro de uma dinastia militar, às vezes pomba e às vezes falcão em sua longa trajetória política, sugeriu atacar a Coréia do Norte mesmo com a oposição da Coréia do Sul. Recentemente, no entanto, retomou o valor da diplomacia e pede para "escutar nossos aliados. Não podemos fazer tudo o que quisermos". O ex-piloto da guerra do Vietnã não traz grandes novidades em política externa, a não ser sua convocação de uma Liga de Democracias, quase rivalizando com a ONU, e portanto de improvável aceitação internacional.

Barack Obama, 47, o carismático senador que encantou o mundo prometendo escutar, convencer e entender a diferença, representa a mudança. Caso seja verdadeiro e factível o prometido, o mundo assistirá ao nascimento de uma nova e esperançosa maneira de fazer política e resolver crises internacionais. Formado em direito por Harvard, lamenta os erros em que a política externa americana freqüentemente incorreu por ter-se fundamentado em supostos erros: ignorou as aspirações legítimas de outros povos, minou a credibilidade americana e fez do mundo um lugar mais perigoso. O democrata oferece emendar o rumo de Bush e seu vice Cheney, que ressuscitaram políticas não vistas desde a Guerra Fria.

O novo governo vai herdar em 20 de janeiro de 2009 um exército com mais poder de fogo que a soma dos oito próximos, mas também um país sacudido por fortíssimas turbulências: uma crise financeira que pode precipitá-lo na recessão com perdas de milhões de empregos; a necessidade de importar 60% do petróleo que consome; e conflitos de formato complexo: difusos e bíblicos no Oriente Médio, em ponto de ebulição em países institucionalmente frágeis e religiosos ou étnicos na África, Europa e Ásia. Poucas dessas crises são solucionáveis a tiro de canhão. Na semana passada o Parlamento paquistanês alertou para a futilidade dos bombardeios americanos nas áreas tribais com refúgios taleban se a diplomacia não cerrar fileiras com o islamismo moderado na luta para pacificar o vespeiro afegão-paquistanês.

Os EUA têm de recuperar habilidade e influência se quiser voltar a ser um líder respeitado e um catalisador de valores, segundo um relatório do Instituto de Estudos Diplomáticos da Universidade Georgetown. Para consegui-lo, dependerá de três fatores: o impacto das forças desencadeadas pela globalização sobre a economia e as políticas americanas, a redistribuição do poder global entre os novos poderes, estatais ou não, e os custos ambientais da prosperidade econômica e suas conseqüências para a saúde. O segundo fator, diz o relatório, depende das lições que as elites dos EUA puderem tirar dos complexos conflitos no Iraque e no Oriente Médio; e o terceiro, da habilidade de seu sistema político para construir um centro de decisão bipartidário, neutralizador das guerras entre republicanos e democratas nas tomadas de decisão em política externa.

A rediscussão é imprescindível porque as mutações internacionais são profundas. A capacidade dos EUA para influir nas decisões da Rússia, China, Índia, Japão e Coréia do Sul ou Turquia diminuiu porque os países buscam seu próprio rumo, segundo o grupo que redigiu o relatório, composto por acadêmicos e políticos. "A política externa americana será progressivamente difícil em uma era em que os poderes principais (Europa entre eles) estão conosco em alguns assuntos é contra nós em outros." Contra Washington estão os governos e as sociedades convencidos de que a subordinação da força política à militar na luta contra o terrorismo, em vez de enfraquecê-lo, o expandiu através de animosidades e grupos relativamente pequenos, de funcionamento autônomo. "O mundo contemporâneo é mais complexo que o da Guerra Fria", afirma o relatório da Georgetown.

Para administrá-lo com eqüidade, o ex-chanceler nicaragüense Miguel d'Escoto, presidente da Assembléia Geral da ONU, invoca ao diálogo e à moral, embora não creia que a nova administração americana vá aplicá-las. "O homem é um animal de costumes, e quando se acostumou à mentalidade do dono (EUA) é muito difícil fazê-lo mudar, mas tem de mudar. O mundo não agüenta mais esse comportamento", diz em seu escritório em Nova York. A crise não é tanto econômica ou política como é ética, segundo d'Escoto. "E aqui, se você fala em justiça social e em normas ético-morais no comércio mundial, a resposta tradicional é 'business is business', ou seja, o lucro, sem normas morais."

Mas assim como a salvação dos negócios aconselhou Bush a aceitar, a contragosto, a convocação de uma conferência mundial sobre a regulamentação dos sistemas financeiros globais, no próximo dia 15 em Washington, alguns analistas propõem outra conferência sobre a nova orientação da liderança americana para a solução de conflitos internacionais. "O que aconselharia o próximo presidente dos EUA?", perguntaram a Zbigniew Brzezinski (1928), ex-assessor de Segurança Nacional de Jimmy Carter (presidente de 1977 a 1981) e a analista do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais. "Eu lhe diria que ataque a crise de credibilidade que observamos no mundo sobre nossa liderança. Ele deve consultar os aliados, e não agir unilateralmente." O mundo precisa de um EUA em forma, porque os fracassos da locomotiva mundial beneficiam a poucos.

Dois exemplos: o fiasco iraquiano complicou as relações dos EUA com os vizinhos do país ocupado, Turquia entre eles; e as hipotecas-lixo de Wall Street sangraram os mercados globais. Se a Bolsa de Nova York acumulou perdas de 25% em três meses, na alemã alcançaram 28%, na chinesa 30%, na japonesa 37%, na brasileira 41% e na russa 61%.
Barack Obama vai propor um novo consenso internacional contra as redes terroristas, às vezes apoiadas por Estados cúmplices, e previsivelmente conversas diretas entre Washington e seus inimigos. Mas ninguém deve esperar sob seu eventual mandato movimentos radicais ou uma renúncia dos EUA ao emprego de seu arsenal isoladamente.

A guerra preventiva de Bush careceu de uma estratégia que o mundo pudesse entender, e lembrou os erros do Vietnã, segundo Obama. Nasceu sem a legitimidade exigida pela empreitada e perdeu adeptos inclusive entre os governos que contribuíram com tropas, que não puderam sustentar diante de suas sociedades uma campanha de objetivos pouco claros e empapada em sangue e destruição - como ocorreu no caso da Espanha, que retirou suas tropas. "A Casa Branca se sentiu enganada quando Bono [José Bono, ex-ministro da Defesa] prometeu que tudo se faria de maneira coordenada, e também lhe pareceu intolerável que o primeiro-ministro espanhol [Rodríguez Zapatero] pedisse a outros países da coalizão que a abandonassem. Isso não agradou nem aos democratas", lembra um observador europeu.

Barack Obama apóia coalizões como a promovida por George H. W. Bush em 1991 para expulsar o Iraque do Kuwait. A argamassa daquela foi a manutenção da ordem mundial, enquanto a espoleta da forçada na recente invasão do Iraque foi a segurança nacional, o temor de novos ataques terroristas. O candidato democrata é um rupturista "made Índia USA", nada aventureiro em suas propostas: defende a progressiva retirada das tropas de combate do Iraque, deixando um governo amigo, ou pelo menos não-inimigo, e batalhões de segurança e adestramento. "Estamos decididos a usar a força sempre que um regime despótico aterrorizar sua população? E, se for assim, quanto tempo ficaremos lá para que a democracia deite raízes?", pergunta-se.

Pouco amigo de soluções militares, se pronunciou contra as armas nucleares e a favor de um "mano-a-mano" com Hugo Chávez, Kim Jong Il ou Mahmud Ahmadinejad sobre distensão e reatores nucleares, ou sobre o enriquecimento de urânio de Teerã e seu apoio ao Hamas e ao Hizbollah. Nicholas Burns, subsecretário de Estado para assuntos estrangeiros até sua aposentadoria em abril, compara na revista "Newsweek" as diferenças desse novo método com as diretrizes aplicadas até agora. "Nunca me permitiram me reunir com um iraniano", explica, referindo-se a seus três anos de destino diplomático no Irã sob Bush.

O poder de negociação seduz Obama, um homem disposto a discutir a fundo e rediscutir velhos conflitos, entre eles o que opõe Israel à Autoridade Palestina, cuja negociação contaria supostamente com o acompanhamento diplomático dos EUA, Líbano, Síria e Arábia Saudita. O perfil de Obama, um ingênuo e perigoso sonhador, segundo seus críticos, preencheu as expectativas dos que pediam um "mea culpa" do império. Ele o emitiu ao denunciar a tendência dos EUA a ver os conflitos e as nações sob o prisma da Guerra Fria, a tolerar ou apoiar tiranias amigas e a fomentar a corrupção e a degradação ambiental quando servem aos interesses nacionais. Os promotores desse comportamento tinham a convicção, segundo Obama, de que "os Big Mac e a Internet representariam o fim dos conflitos históricos".

O pensamento do candidato democrata sintoniza com a análise de Joseph S. Nye, professor em Harvard, para quem a estratégia do próximo presidente deve combinar a força militar com o poder de captação da política, da ajuda social, os intercâmbios de programas ou os contatos entre militares. "Na luta contra o terrorismo devemos usar a força contra seu núcleo, mas nunca poderemos ganhar se não conquistarmos o coração e a mente dos moderados", afirma Nye. Por exemplo, a coerção em Abu Ghraib serviu aos interesses da Al Qaeda.

Desde o trauma do 11 de Setembro, os EUA "foram exportadores de medo e raiva mais que promotores de nossos tradicionais valores de esperança e otimismo. Guantánamo é um ícone mais poderoso que a Estátua da Liberdade", afirma o professor. Obama vem em resgate do simbolismo da escultura presenteada pela França em 1886, abraçando o multilateralismo como receita para a solução das crises e o redesenho das instituições internacionais. Fará isso, segundo sua própria confissão, para garantir a liderança de seu país e reforçar a legalidade internacional. Uma de suas reflexões resume as intenções do homem aparentemente destinado a fazer história: "Não podemos impor a democracia a ponta de pistola". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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