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04/11/2008

"É possível falar do Brasil sem falar de violência", diz diretor de cinema Marcos Jorge

El País
Gregorio Belinchón
Em Valladolid (Espanha)
Na sexta-feira à noite o brasileiro Marcos Jorge foi dormir em sua casa em São Paulo como o grande favorito para ganhar a Semana Internacional de Cinema de Valladolid (Seminci) com seu primeiro filme, "Estômago", e no sábado se levantou com a Espiga de Ouro, o troféu de melhor novo diretor, e cumprimentando seu protagonista, João Miguel, eleito melhor ator - empatado com o espanhol Unax Ugalde. "Estou muito, muito contente. Pelos prêmios, porque as pessoas entenderam meu filme e souberam apreciar que, embora meu protagonista às vezes pareça lento de cabeça, inclusive ridículo, na realidade esconde algo mais", afirma por telefone, exultante, o diretor que estréia em um longa-metragem aos 40 anos.

"Para fazer cinema maduro é preciso ser maduro. Eu cheguei até aqui depois de estudar jornalismo, dirigir vários documentários e curtas-metragens, experimentar com todo tipo de linguagem visual para realizar minhas videoinstalações e ganhar dinheiro com publicidade."

Seu "Estômago", o grande vencedor da Seminci, fala de gente que come e é comida, e assim joga com duas histórias paralelas, ambas protagonizadas por Raimundo, um cozinheiro que vemos trabalhando em um restaurante italiano, sofrendo de amores, e ao mesmo tempo na prisão, onde de simples amigo do fanfarrão da cadeia vai escalando posições na pirâmide de comando graças a sua situação privilegiada perto do chefe... e a seu talento culinário. "O homem é o único animal que cozinha. Por isso essa ação revela a alma humana. Quando nos sentamos para comer, mostramos nosso melhor e nosso pior aspectos. E não me refiro só aos modos, mas também ao que gostamos de comer, a nossa conversa, nossa atitude..."

Em "Estômago", cada personagem tem um comportamento diferente diante dos pratos. E esse caráter se reflete na ânsia - diferente, segundo a pessoa - pelo poder, pela capacidade de subjugar o outro, uma ação descrita nas duas histórias. "Não duvide. Os homens usam seus talentos na luta para conseguir o poder, seja onde for. E se essa habilidade é a criação culinária, seu possuidor - meu protagonista - utilizará essa arma." E o que se perde nessa ascensão? "Depende do que se usar como moeda de troca."

Marcos Jorge fala um bom castelhano, e quando trava recorre ao português salpicado de palavras em italiano - estudou cinema em Roma - ou em inglês. Insiste muito em seu interesse pelas cozinhas. "É a parte quente da casa." Quer dizer, defende que o fogão - mesmo que seja elétrico - é o coração do lar. "Claro, e o que eu gosto em 'Estômago' é que o espectador entra pela porta da cozinha no filme, seja a cozinha da prisão, seja a do restaurante." Por outro lado, embora tenha sua dose de violência, "Estômago" não segue a linha de grandes êxitos da cinematografia brasileira, como "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles e Kátia Lund, ou "Tropa de Elite", de José Padilha.

"Podemos parar um momento nesse aspecto? Nos últimos anos o cinema brasileiro cresceu e se popularizou, especialmente na Europa, com títulos que mostravam a violência e sua repercussão nas questões sociais. Isso existe. Mas ocorrem mais coisas em meu país, e estão fazendo um monte de filmes centrados em outras idéias. Não renego essa geração de cineastas: faço parte dela por idade e por gostos. Mas é possível falar do Brasil sem falar de violência. Espero que minha vitória em Valladolid ajude nesse sentido. Suspeito que a exploração cinematográfica no campo da violência não irá mais longe."

Provavelmente nessa vitória no gosto do júri da Seminci - que escolheu "Estômago" contra trabalhos de diretores consagrados como Atom Egoyan e Carlos Sorín, que concorriam com os excelentes "Adoration" e "La Ventana", respectivamente - e do público também esteja o tom de fábula que Jorge imprimiu ao seu filme. "O roteiro se baseia em um conto de Lusa Silvestre. Eu o li antes que fosse publicado e convenci Silvestre a me ajudar a escrever o roteiro. Me interessava muito a descrição que se fazia do poder. Embora se concentrasse na prisão, e decidimos criar a história paralela da relação sentimental."

Volta à fábula. "Como no conto, eu quis transmitir um tom de fábula não-infantil. Quer dizer, mostra uma história surrealista com ares realistas. Rodamos em cozinhas de verdade, em restaurantes reais, em uma prisão autêntica. Senão o público não o engoliria. Em Valladolid, o chefe do restaurante La Criolla disse que o ambiente das cozinhas e a realização dos pratos sejam perfeitamente verossímeis. Para mim é um elogio."

Marcos Jorge quer falar mais, mas em São Paulo se aproxima a hora do jantar e o diretor tem de se dedicar a isso. Seu filme já tem distribuição na Espanha, e o cineasta promete voltar para continuar com suas rotas gastronômicas; um bom motivo para que ele goste dos festivais: ampliam seus conhecimentos culinários. "Nos últimos anos a humanidade se tornou mais obsessiva com a gastronomia, não?" E diz isso rindo, sabendo que ganhou na Espanha, paraíso de grandes cozinheiros e terra de ferozes confrontos entre os reis dos fogões. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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