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06/11/2008

"Penso em ritmo, melodia e poesia", diz Adriana Calcanhotto

El País
Carlos Galilea
Em Madri
As letras de seu último disco, "Maré", são de poetas brasileiros como Antonio Cícero, Arnaldo Antunes, Waly Salomão, Augusto de Campos ou Ferreira Gullar, que costuma dizer que há poesia porque a vida não basta. "Totalmente de acordo. Também diz, bem, disse Elliot, que o poeta escreve para se livrar das emoções. Aí o problema começa a ser do outro", comenta, rindo. Adriana Calcanhotto (nascida em Porto Alegre em 1965) gosta muito de Joan Brossa. "Há muitos poemas sem poesia, e ele por sua vez tem muita poesia em coisas que se chamam poemas visuais só porque é preciso chamá-los de alguma coisa. Sua obra é violenta, delicada, com muito humor."

Na terça-feira inaugurou em Madri o festival Únicas, ontem à noite cantou em Tenerife, hoje se apresenta em Girona (Auditori) e amanhã em Barcelona (Palau de la Música). "Maré", co-produzido por Arto Lindsay, tem a ver com o mar. "O mar me fascina, esse mar da literatura e das canções, o mar como metáfora da condição humana", explica. Há dez anos, quando gravou "Maritmo", não pensava em termos de trilogia. "O fiz e pronto. Ao me dar conta de que as canções que eu gostava continuavam sendo marítimas, decidi assumir a idéia da trilogia. Mas não necessariamente haverá um terceiro."

Adriana Calcanhotto busca a simplicidade. "Minha meta é chegar ao essencial. Ir eliminando os excessos. Refinando até ficar só com o que é essencial leva tempo e dá muito trabalho. Mas é divertido porque é um processo, e os processos sempre me interessam", confessa. Diz que foi influenciada pelo punk. A idéia de "não sei fazer música, mas faço". Também se identifica com John Cage: "Porque não pensamos em termos de harmonia. Também me identifico com o humor e com o trabalho com o acaso, a pausa, o silêncio. Eu penso em ritmo, melodia e poesia. Assim construo meu trabalho. Por isso gostei do rap quando ouvi pela primeira vez".

Na música brasileira está ocorrendo um trânsito livre entre estilos, e não há mais movimentos como a bossa nova ou o tropicalismo. "Me parece muito bom que seja assim. Pelos meios de produção, ao poder fazer seu disco em seu computador portátil em casa, as pessoas trabalham mais isoladas", diz. "Há alguns anos eu recebia material de compositores e cantores nos quais se via muito nitidamente as influências. Hoje não. Os músicos jovens querem ser eles mesmos. Creio que essa mudança tão rápida tem muito a ver com a Internet. Hoje as pessoas escutam o que querem."

Ela acaba de publicar no Brasil "Saga Lusa", um livro em que narra uma viagem ruim provocada pela ingestão de medicamentos. "Eu estava em turnê em Portugal e no segundo concerto me senti muito mal, com muita febre. Um médico disse uma coisa, outro outra, e na confusão tomei tudo o que me receitaram. Passei cinco ou seis noites sem dormir, com alucinações e delírios. Estive escrevendo no laptop para sobreviver. Foi o que me salvou. Tinha o violão ao meu lado o tempo todo e não o toquei. Compreendo que alguém nessa situação se desespere e se atire pela janela, porque você já não controla a mente."

Com o heterônimo Adriana Partimpin, ela gravou em 2004 um belo disco de canções para crianças. Quando menina escutava com seus pais Chet Baker, Miles Davis, Piazzolla e tinha horror das canções infantis. "Não entendo por que tratam as crianças como se fossem burras. Nos espetáculos de Partimpin era maravilhoso que os adultos não se aborreciam. As crianças são transparentes, dizem o que pensam. Não têm as coisas tão estabelecidas. Tudo pode ser. E isso não é pouco." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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