UOL Notícias Internacional
 

07/11/2008

A arquitetura a serviço do paciente

El País
Rafael Pérez Ybarra
Mais humanos e mais próximos. As últimas tendências no projeto de centros hospitalares evoluíram. Agora se pretende que os novos edifícios contribuam para facilitar o tratamento do paciente e que, de alguma maneira, intervenham em sua cura. É que, segundo Luis González Sterling, arquiteto que participou do projeto de alguns dos novos hospitais da Comunidade de Madri, existe a certeza de que "o entorno é um elemento que influi na cura do paciente".

Os novos hospitais - e na Espanha estão sendo construídos muitos - tentam aplicar a máxima da humanização. E não é só na questão do tamanho; no projeto agora "mandam os pacientes e não os médicos", explica o arquiteto Alfonso Casares, especialista em projetos de hospitais. Com isso ele não quer dizer que os hospitais sejam projetados sem levar em consideração os profissionais de saúde; é mais que "há uma tendência a que no processo de criação de novos hospitais intervenham tanto o arquiteto como os profissionais de saúde, mas ambos devem intervir sem perder de vista a perspectiva do paciente".

Segundo Casares, as áreas médicas são projetadas de acordo com as necessidades do paciente e se dá prioridade à humanização do entorno porque se demonstrou que, assim como o tratamento médico, o ambiente também pode ser terapêutico.

No projeto dos novos hospitais da Comunidade de Madri, explica González Sterling, houve a intervenção de uma equipe de profissionais formada por médicos, engenheiros e enfermeiros. E essa maneira de fazer os hospitais está se estendendo também aos macro-hospitais como o de Oviedo ou o de Burgos, que são conseqüência de uma reforma de outros mais antigos ou mais especializados, como os que foram construídos ou estão sendo para os pacientes de Alzheimer ou as residências para idosos.

Assim, no processo de projeto dos novos hospitais de Madri, articulado em quatro fases levou-se em conta, através de uma exposição pública dos projetos, "as considerações das prefeituras, de moradores, usuários e profissionais", diz González Sterling, com a finalidade de adaptar o hospital às necessidades reais dos pacientes.

A saúde, afirma o arquiteto Carlos Lamela, se transformou em uma das principais preocupações da sociedade atual, e a arquitetura não é alheia à necessidade de humanizar os edifícios dedicados aos tratamentos de saúde. Há alguns anos "a nova arquitetura hospitalar tenta mostrar seu lado mais humano através de hospitais, ambulatórios ou residências para idosos". Rafael Moneo e José María de la Mata, arquitetos do Hospital Materno Infantil Gregorio Marañón em Madri, explicam em um memorando do citado centro que um hospital deve "ter a lógica que se espera da ciência a que se recorre na enfermidade". Nesse sentido, os novos centros "não querem intimidar" e devem "dar aos pacientes e suas famílias todo tipo de facilidade".

Essa idéia está por trás de muitos dos novos edifícios hospitalares. O escritório dirigido por Carlos Lamela é o autor do Centro de Tratamento para Doentes de Alzheimer da Fundação Rainha Sofia em Madri. Para seu projeto contaram tanto com profissionais de saúde como com as famílias dos pacientes. A Associação de Doentes de Alzheimer AFALcontigo assessorou os arquitetos no projeto da estrutura de uma das unidades do centro e do sistema de "domótica". Trata-se de um verdadeiro sistema de inteligência ambiental, segundo Blanca Clavijo, presidente da AFALcontigo, que "melhora a atenção e o entorno do paciente".

Participação dos médicos
A participação dos médicos também é um elemento essencial. Alguns chefes de serviço, diz González Sterling, intervêm muito ativamente no projeto de suas unidades e inclusive "apresentaram planos". A colaboração dos médicos "é um luxo", segundo Pablo Martínez, do Instituto de Saúde Carlos III em Madri. Sua equipe participou do projeto da Unidade de Pesquisa do Centro Rainha Sofia, algo que em sua opinião ainda não é muito freqüente na Espanha. "Foi projetado em função de nossas necessidades clínicas", diz.

Esse é, de alguma maneira, o ponto de partida da arquitetura terapêutica, um conceito em que se trata de envolver todos os sujeitos relacionados ao cuidado dos doentes: médicos, pesquisadores, enfermaria, pacientes, curadores e familiares. E cada um contribui com seu olhar particular: "Enquanto os médicos têm uma visão mais global, de grandes áreas, a enfermaria se fixa mais nos detalhes", comenta González Sterling.

A arquitetura terapêutica está concebida como a união entre a arte e a técnica, e deve ser capaz de provocar no paciente uma sensação de bem-estar através de recursos estéticos, mas sem esquecer algo tão importante para um hospital como a funcionalidade. Antes, lembra Alfonso Casares, os hospitais eram projetados de uma perspectiva "mais acadêmica e intelectual". O hospital, afirma, é um edifício em que o "paciente ia para sofrer. E isso mudou". Hoje a arquitetura deve contemplar também a melhor forma de criar sinergias e aproveitar ao máximo os recursos técnicos.

Segundo Casares, isso também se reflete nas palavras: muitas vezes não se usa mais a palavra "paciente" - o que sofre e espera -, mas "cliente". O paciente deve ser o centro do hospital e deve sentir-se cômodo, algo especialmente importante quando os "hospitais públicos competem entre si nos serviços".

A esse respeito, acrescenta, uma das novidades mais importantes é que na grande maioria dos novos hospitais construídos na Espanha os quartos são individuais. Ficou demonstrado que a recuperação do paciente é mais rápida, "além de que se respeita mais sua intimidade". Dessa forma, o projeto influi "na estadia hospitalar". Nos projetos também se leva em conta a eficiência, racionalizando a distribuição das áreas e estabelecendo "relações de proximidade". As unidades de emergência, as UTIs e salas de cirurgia, por exemplo, não devem estar a mais de 4-5 minutos de distância, afirma González Sterling.

O que está ocorrendo, esclarece o arquiteto, é uma mudança no conceito dos hospitais. Já não importa tanto o "número de leitos" como "a especialização, o que vai se realizar em seu interior". Na opinião dele, "o leito não é uma medida lógica". Mesmo assim, a crescente demanda de leitos devido ao envelhecimento da população e a deterioração de alguns dos maiores hospitais obrigará a construir edifícios de grandes dimensões capazes de abrigar todas as especialidades de terceiro nível.

Casares acredita que nessa situação é difícil justificar a construção de hospitais menores, nos quais se façam "menos coisas". Portanto, no processo de renovação "tende-se a construir hospitais grandes", mesmo tentando integrar o conceito de arquitetura terapêutica. Parece cada vez mais claro que a humanização da arquitetura é um elemento que também influi na evolução do paciente. É o que poderia se denominar arquitetura terapêutica Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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