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12/11/2008

As contínuas interferências de Néstor prejudicam o governo de Cristina Kirchner

El País
Soledad Gallego-Díaz
Em Buenos Aires
A presidência de Cristina Fernández de Kirchner, que há apenas 11 meses obteve uma rotunda vitória eleitoral, está sendo obscurecida pela freqüente interferência de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, a quem os argentinos atribuem uma boa parte das decisões governamentais.

O marido da presidente conversa habitualmente com alguns ministros e com o chefe de gabinete; recebe e discute, às vezes aos gritos, com os principais empresários e investidores, estrangeiros e locais, e não esconde sua influência determinante nas decisões relacionadas à vida econômica do país. "Kirchner deu a ordem [ao Banco Central] de intervir [para evitar a alta do dólar]", publicou recentemente o jornal "La Nación". "Kirchner resiste a aceitar mudanças na negociação [das administradoras de fundos de aposentadoria e pensões]", afirma o jornal "Clarín". "Kirchner" é sempre o ex-presidente. Sua mulher, a primeira mandatária, é conhecida simplesmente como Cristina.

No ambiente da Casa Rosada mostram-se preocupados com esses comentários constantes e pelo prejuízo que podem causar à imagem da presidente. Os Kirchner, afirmam, sempre foram uma sociedade política, e quando o presidente da República era ele muitos o acusavam de dar atenção demais à esposa, que então era senadora. Hoje os papéis se inverteram, afirmam.

O problema é que Néstor Kirchner não aparece como conselheiro da presidente, mas como fonte direta de poder e que essa imagem desgasta o valor da figura de Cristina Fernández. O destaque do ex-presidente foi tão incômodo durante a longa crise do campo (a tentativa frustrada de aumentar os impostos das exportações agrícolas) que, superada a tempestade, pareceu estar consciente do que ocorria e disposto a ter mais cuidado nas formalidades. Os bons propósitos não duraram muito, porque a crise provocada pela estatização dos fundos de pensão privados voltou a colocar todos os focos nele.

Os Kirchner estão casados há 34 anos, têm dois filhos (praticamente ausentes da vida pública, talvez em contraste com a odiada etapa de Carlos Menem e sua filha Zulemita) e sempre funcionaram como um bloco político. No casal, ele é o homem de poder enquanto ela cultiva uma imagem mais acadêmica e intelectual. Cristina Fernández sempre foi melhor que ele na hora de falar em público sem papéis, de captar a atenção em um palco ou de se comunicar com os eleitores. Durante muito tempo se disse que era ela quem escrevia os discursos de seu marido. Quando Néstor Kirchner ganhou as eleições para a Presidência da República, a senadora Cristina desempenhou uma grande tarefa política. Quando alguém criticou sua enorme influência, resolveu a discussão sem complexos: "Sou a última pessoa que ele vê antes de dormir".

Kirchner renunciou a um segundo mandato em 2007 e deu lugar, de maneira quase imperial, à candidatura presidencial de sua mulher. Seu controle do movimento peronista era tão grande que ninguém levantou a voz. Alguns pensaram inclusive que ele pretendia se perpetuar no poder, substituindo, quando chegasse o momento, Cristina Fernández. Em todo caso, prometeu se manter em segundo plano (brincou com a idéia de dirigir um café literário) e não fazer sombra para a nova presidente do país, para que pudesse afirmar sua autoridade. Cristina Fernández de Kirchner obteve em dezembro de 2007 uma vitória retumbante: 45% dos votos e 22 pontos de diferença sobre o segundo colocado. O "furacão Cristina" não precisou de um segundo turno.

Onze meses depois, as pesquisas indicam que a popularidade da presidente experimentou uma erosão notável. Durante a crise do campo chegou a ser de apenas 20%-25% de aceitação, 30 pontos a menos que em janeiro, segundo dados da consultoria Poliarquía, entre outros.

A aposentadoria anunciada de Néstor Kirchner não chegou a ocorrer em nenhum momento. Pelo contrário, desde o primeiro dia o ex-presidente manteve uma presença política muito intensa, que formalizou em parte fazendo-se eleger o dirigente máximo do Partido Justicialista (peronista).

Além disso, o fato de no governo de Cristina Fernández figurarem ministros que já haviam desempenhado funções no do ex-presidente facilitou a confusão e os contatos e despachos diretos, à margem da presidência. É o caso, por exemplo, do ministro do Planejamento, Julio de Vido, do qual depende o importante investimento público, e que ocupou o mesmo posto com Néstor Kirchner.

As dúvidas sobre a "distribuição de competências" entre os Kirchner (ele se reservaria às decisões econômicas, enquanto ela viaja por todo o país e tenta recuperar apoios políticos) não afetam, contudo, a convicção de que os dois mantêm uma absoluta afinidade ideológica. "Não se trata de que o ex-presidente tome decisões que ela não compartilha. O pensamento político dos dois é comum", explica Eduardo Van der Kooy, importante colunista do "Clarín".

A explicação dada pelo entorno do ex-presidente, segundo Van der Kooy, é que a chegada de Cristina Fernández à presidência foi acompanhada de crises muito difíceis: o "valija-gate" ("mala-gate" - investigação judicial sobre fundos venezuelanos empregados ilegalmente na campanha eleitoral de Cristina), a crise do campo, o momentâneo caos financeiro provocado pela decisão de nacionalizar os fundos de pensão privados... Foram crises rápidas e de tal envergadura que Néstor Kirchner acreditou que não poderiam ser resolvidas sem sua participação direta. Muitos acreditam, porém, segundo o comentarista, que o ex-presidente nunca teve realmente vontade de se retirar para um segundo plano. Na sociedade Kirchner, ele sempre foi o chefe político, e Cristina Fernández aceita essa liderança.

Como não poderia ser menos na Argentina, país com forte tradição psicanalítica, muitos comentaristas também buscam explicações das relações pessoais entre os dois políticos em uma possível dependência psicológica dentro do casal. "Nem tudo se explica pela racionalidade. É possível que existam componentes psicológicos", aceita Van der Kooy.

Cristina Fernández de Kirchner nunca se considerou feminista, nem as feministas argentinas a reconhecem como alguém próximo. A presidente nunca se destacou por sua atividade nesse campo e inclusive cultiva voluntariamente uma imagem física muito tradicional, à argentina, com muita maquiagem e com uma esforçada atenção para a imagem estética. "Me pinto como uma porta desde que tenho 14 anos e demoro mais para me maquiar e vestir que na academia", confessou em uma das poucas entrevistas que concedeu.

A falta de militância feminista não impediu que em sua posse Cristina Fernández de Kirchner fizesse várias referências a sua condição de mulher. "Sendo uma dupla responsabilidade, como presidente e pelo gênero", disse, ao mesmo tempo que fazia um apelo convocando "as irmãs" para que se sentissem representadas em sua presidência.

Dora Barrancos, diretora do Instituto Interdisciplinar de Estudos de Gênero, da Universidade de Buenos Aires, reconhece a falta de interesse da presidente por questões relacionadas ao feminismo, e, sobretudo, a falta de políticas de gênero desenvolvidas por seu governo, mas não compartilha as explicações psicológicas que atribuem a ela uma certa relação de dependência. "É verdade que Néstor Kirchner é bastante incontinente e não guarda as formas republicanas com seu excessivo papel protagonista, sobretudo durante a crise do campo, mas uma coisa é que ele ultrapasse continuamente sua atual condição de ex, e outra, que ela não possa tomar decisões sem sua aceitação. Isso não é verdade. O problema não é que ela não possa dar passos sem ele, mas que ele dá muitos passos que não deveria", comenta.

O que ninguém duvida na Argentina é que os Kirchner são dois presidentes e uma única sociedade, uma única marca de poder. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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