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12/11/2008

Infiltrado no islamismo mais radical

El País
Ignacio Cembrero
Mohammed al Maghaoui é um dos pregadores mais radicais do Marrocos, embora não defenda a violência. Formado na Universidade Saudita de Medina, há 32 anos propaga suas idéias salafistas em livros e palestras, e poderia ter continuado se não fosse porque em 3 de setembro cometeu um deslize. Em resposta a uma consulta particular, emitiu em seu site uma "fatwa" (édito islâmico) na qual "legalizava" os casamentos de meninas a partir dos 9 anos com homens adultos.

Nessa idade, escreveu Maghaoui, as meninas "dão com freqüência melhor resultado na cama que uma jovem de 20". Suas palavras escandalizaram a sociedade civil. O código de família vigente desde 2004 proíbe o casamento de menores, a menos que um juiz o permita. No ano passado os magistrados concederam 33.560 autorizações para meninas menores de 18 anos, 87% das solicitadas; 159 corresponderam a meninas de 14 anos.

As autoridades apoiaram a sociedade civil. A promotoria abriu uma investigação ao mesmo tempo que o Conselho Supremo dos Ulemás, a mais alta instância religiosa, rejeitou a fatwa de Maghaoui. A polícia também fechou a sede central de sua associação, Pregação e Sunna no coração, em Marrakech, e 33 escolas religiosas freqüentadas por 2.800 fiéis. O fechamento foi decidido para "proteger a segurança espiritual" da cidade, segundo explicou o ministro do Interior, Chakib Benmoussa. Subvenções sauditas custearam toda essa infra-estrutura.

Abdelhakim Aboullouz, 35 anos, é um investigador de Marrakech autor de uma tese sobre os movimentos salafistas no Marrocos. Para prepará-la, Aboullouz penetrou a partir de 2002 na associação chefiada por Maghaoui.

Abaixo, o relato de uma experiência que durou seis anos:

"O xeque Maghaoui descreve com crueza as posições sexuais. Dá uma aula na qual ensina seus discípulos a arte de gozar e de fazer gozar. Explica como as mulheres devem se preparar para que o homem se deleite. Me surpreende que os salafistas falem de sexo. Também me incomoda porque meu pai me acompanha nesse primeiro encontro com Maghaoui e seus fiéis. Ele é distribuidor de azeite de oliva e por motivo das festas religiosas presenteia ao xeque algumas garrafas. Deve ter agradado, porque se deixou convencer por meu pai e permitiu minha entrada para suas fileiras sob a condição 'de que o trabalho dê uma imagem positiva da associação'.

De repente um aluno interrompe a aula. 'Xeque, por favor, pare um pouco porque não agüentamos mais', afirma, descrevendo seu grau de excitação. Maghaoui responde com um sorriso: 'Filho, faça o que considere oportuno, case-se... eu só faço meu trabalho, que consiste em dispensar um ensino religioso digno'.

Ao terminar a aula, meu pai cumprimenta Maghaoui. 'Aboullouz, há quanto tempo!', exclamou o xeque antes de fazê-lo observar que continua sem deixar crescer a barba, algo indispensável no mundinho salafista. 'Isso é um problema porque no dia em que o enterrarem não saberão por onde segurá-lo', diz, sorridente. Apesar do aspecto monástico da sede da associação, apesar de seu semblante rigoroso, o xeque tem senso de humor.

Para ser mais um, deixo crescer a barba e vou a um alfaiate salafista do bairro de Boukar que me confeccionar uma gandura, a vestimenta imprescindível. Mas as aparências externas não bastam. Minha tradição religiosa é sufista, como a grande maioria dos marroquinos, e há ritos salafistas que desconheço. Não sei como colocar meus braços durante a oração. Seguirei o exemplo dos demais fiéis, os cruzarei diante do peito. Até a linguagem é salpicada de expressões religiosas que são estranhas para mim.

O xeque é consultado com freqüência sobre todo tipo de questão. Para fazê-lo é preciso entregar uma pergunta por escrito, que ele aceitará ou não responder. Há temas que rejeita porque lhe parecem incômodos ou não tem opinião a respeito. Em suas aulas ataca o Ocidente, 'do qual é preciso se afastar porque seus valores são corruptos'.

Lembrei-lhe em uma pergunta um 'hadith' [preceito enunciado pelo profeta Maomé, mas que não figura no Corão] no qual ele manda ser tolerante com o próximo e tirar o melhor partido dele. 'Falaremos disso quando você tiver concluído seu aprendizado', respondeu Maghaoui. 'Por enquanto conforme-se em escutar', acrescentou. Ele não pode ser contrariado. Isso pode levar à expulsão. Ser um aluno modelo pode facilitar uma bolsa de estudos na Arábia Saudita.

O xeque e seus fiéis mais próximos dedicam de quatro a cinco horas diárias à leitura do Corão e à oração, às quais se acrescentam os cursos que ele e outros professores ministram. Como bom salafista, sua doutrina é ultraconservadora. Até as cafeterias que não servem álcool são lugares licenciosos. Seus discípulos não bebem, não fumam. Só são permitidos dois tipos de lazer: o primeiro é o esporte. Depois de rezar de madrugada na mesquita, os devotos vestem uma calça e jogam futebol, mas sua preferência são as artes marciais, que praticam ao ar livre; a segunda modalidade de lazer é o 'hammam', ou banho turco, ao qual vão às sextas-feiras para relaxar e se impregnar de 'aitar', um enjoado perfume oriental.

As festas não existem nem mesmo nos casamentos. Nada de gritos, alegria ou danças. A que assisti consistiu em um jantar entre homens regado com muito chá e que terminou com a leitura do Corão. Não vi a esposa nem qualquer outra mulher.

O puritanismo dos fiéis de Maghaoui provoca atritos com outros muçulmanos. O mais contundente a que assisti ocorreu no cemitério, quando enterramos um irmão em silêncio, como exige a tradição salafista. Não muito longe, um grupo de pessoas enterrava um parente entoando versículos do Corão. 'Calem-se, por favor, respeitem nossos mortos', espetou um salafista. 'Vocês não vão nos impor seu islamismo', respondeu alguém do grupo. Acabamos às pedradas.

Voltei ao cemitério para participar, junto com cerca de 10 mil homens vestidos de branco, do enterro de um 'mártir' caído no Iraque. Maghaoui estava lá, mas reprovou a atuação do defunto. 'Eu o adverti de que equivalia a um suicídio, mas ele fez o que lhe deu vontade', comentou. Maghaoui rejeita o salafismo jihadista (combatente), porque praticá-lo poria em risco sua rede de escolas.

Depois das explosões de 16 de maio de 2003 [que deixaram 45 mortos em Casablanca], o xeque estava tranqüilo. 'Não tenho nada que me censurar', disse. 'Ao contrário, quando observo que alguém se afasta de nossas fileiras para aderir à jihad armada, não duvido em comunicar à polícia.' 'Por isso não terei problemas', previu. Teve alguns naquela época, mas foram menores.' Um pesquisador marroquino seguiu o xeque Maghaoui, que defende o casamento de meninas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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