UOL Notícias Internacional
 

14/11/2008

Sua saúde é uma questão de classe

El País
Mónica L. Ferrado
A saúde não depende só da biologia. Cerca de 80% das mortes prematuras devidas a cardiopatias ou acidentes vasculares cerebrais e mais da metade dos tumores cancerígenos poderiam ser evitados com estilos de vida saudáveis, como uma alimentação sadia, uma atividade física regular e não fumar. Mas para muitos profissionais responsabilizar sempre o indivíduo sobre os estilos de vida significa sobrecarregá-lo com decisões sobre as quais, conforme sua renda, sua educação e o lugar onde mora, nem sempre pode escolher. Os hábitos de vida são sempre uma escolha individual? Todo mundo tem as mesmas oportunidades para decidir sobre eles?

"O lugar que cada um ocupa na hierarquia social afeta suas condições de crescimento, aprendizagem, vida, trabalho e envelhecimento, sua vulnerabilidade diante da má saúde e as conseqüências da enfermidade", afirma o relatório feito pela Comissão de Determinantes Sociais da Saúde da Organização Mundial de Saúde (OMS). Um documento no qual especialistas de todo o mundo estiveram trabalhando durante três anos e com o qual esse organismo espera conseguir que as políticas econômicas e sociais de todos os governos também levem em conta o impacto sobre a saúde gerado pelas desigualdades.

"A nefasta combinação de más políticas e arranjos econômicos deficientes é responsável em grande medida pelo fato de a maioria da população do planeta não ter o grau de saúde que seria biologicamente possível", afirma a comissão. "A injustiça social mata muitas pessoas", conclui. Sobre o mapa-múndi, a má saúde se mistura com a pobreza, diante do que o relatório defende a necessidade de resolver uma demanda histórica: uma distribuição eqüitativa dos recursos. Oitenta por cento das pessoas que morreram no ano passado de doenças cardiovasculares moravam em países de renda média ou baixa; 80% dos diabéticos também habitam países pobres.

Enquanto 90% da população tiver de viver com menos de 2 euros por dia, enquanto as necessidades mínimas penderem de um fio, a capacidade individual para escolher um estilo de vida saudável é nula, afirmam os especialistas.

Em países como Moçambique, onde é preciso caminhar mais de meia hora para obter água, a liberdade para decidir tomar determinada água para evitar infecções não existe. Só se pode beber ou comer o que há, e quando há. "A causa das doenças transmitidas pela água não é só a falta de antibióticos, mas a sujeira; a origem das cardiopatias não é só a falta de unidades de atendimento coronariano, mas o modo de vida da população, que é configurado pelo entorno em que vive; a obesidade não é culpa do vício pessoal, mas da excessiva disponibilidade de alimentos ricos em gorduras e açúcares", indica a comissão. Também constata que os mais pobres consomem mais tabaco e bebem mais.

O relatório da OMS informa que as desigualdades são cada vez maiores. Em 1980, os países mais ricos, que abrigam 10% da população mundial, tinham um Produto Interno Bruto 60 vezes maior que o dos países mais pobres. Depois de 25 anos de globalização, a diferença se multiplicou por 122. O relatório também destaca que a riqueza por si só também não determina a saúde: "Alguns países de baixa renda, como Cuba, Costa Rica, China, o estado indiano de Kerala e o Sri Lanka conseguiram bons níveis de saúde, apesar de as rendas nacionais serem relativamente baixas".

Nos países com economias em transição, preocupa especialmente o aumento desenfreado da obesidade. Entre 1995 e 1999, Índia e China duplicaram seu consumo de "fast food". O México quase triplicou. "Para corrigir as tendências da epidemia mundial de obesidade será necessário superar um importante obstáculo: conseguir a participação de diversos setores alheios à esfera da saúde, tais como o comércio, a agricultura, o emprego e o ensino", afirma o relatório da OMS.

A comissão deixa claro que as desigualdades nas zonas mais prósperas também têm um impacto sobre a saúde. "Nos países ricos, ter poucos ingressos significa menos acesso à educação e ao lazer, o desemprego, a insegurança no trabalho, piores condições de trabalho e morar em bairros menos seguros", diz o relatório. Por exemplo, um menino que nasça no bairro de Calton, subúrbio de Glasgow (Escócia), tem uma expectativa de vida de 54 anos, 28 a menos que outro que nasça em Lenzie, outro bairro situado a apenas 13 quilômetros de distância, onde a vida média é de 82 anos. Outro exemplo: nos EUA teriam sido evitados mais de 800 mil mortes entre 1991 e 2000 se os índices de mortalidade de brancos e negros tivessem sido iguais.

Na Espanha, também se encontram desigualdades em nível nacional e local. No sudoeste espanhol, a pobreza, os riscos no trabalho e a presença de certas indústrias fazem que os números globais sobre saúde sejam piores do que no resto do país, segundo explica Joan Benach, co-diretor da Rede de Condições de Emprego e Desigualdade em Saúde, que faz parte da Comissão de Determinantes Sociais de Saúde da OMS. Um estudo publicado por Benach no "Journal of Epidemiology and Community" chegou à conclusão de que se toda a Espanha tivesse o índice de mortalidade registrado por 20% das áreas mais ricas, todo ano haveria 35.090 mortes a menos.

As diferenças também se encontram localmente, entre bairros de uma mesma cidade. Por exemplo, em Barcelona um menino nascido em Ciutat Vella, bairro com a renda mais baixa e a maior concentração de população imigrante da cidade, tem uma esperança de vida média de 73 anos. Para outro menino nascido no abastado Eixample, a esperança de vida é cinco anos mais, 78. Se fosse menina, a diferença entre bairros seria menor, de dois anos. Entre bairros de Madri existem diferenças semelhantes. A expectativa de vida média no bairro de Vallecas, o distrito com pior indicador de renda da cidade (9.800 euros por ano em média), é de 79 anos, enquanto no bairro de Salamanca (renda média de 17.800 euros por ano) é de 83 anos.

Os dados constatam a necessidade de um novo enfoque sobre a saúde: "Quando se pensa em saúde, se faz só do ponto de vista do atendimento, mas é importante distinguir entre as razões pelas quais as pessoas adoecem e o que acontece quando adoecem", afirma Michael Marmot, diretor do projeto da OMS. "Há muito poucos problemas que sejam puramente genéticos ou biológicos. É preciso incluir os processos sociais na biologia humana", diz Benach.

A conjuntura laboral é uma das determinantes sociais melhor estudadas. "A saúde deve impregnar todas as decisões políticas e econômicas", afirma Carme Borrell, diretora do Observatório de Saúde da Agência de Saúde Pública de Barcelona (ASPB), que, junto com Benach, Inma Cortés e Lucía Artazcoz, realizou diversos estudos sobre como os trabalhadores com menor renda e maior precariedade laboral têm pior saúde.

Um quarto dos trabalhadores não-qualificados tem contratos temporários e cerca de 8% nem sequer têm contrato: o resultado é que 12% apresentam problemas psíquicos. "A incerteza e a falta de controle produzem níveis de estresse que acabam prejudicando a saúde mental", afirma Inma Cortés. Entre os trabalhadores desqualificados, a incidência de patologias dolorosas também é maior: 15% sofrem dor crônica cervical, 22,7% lombar e 10% enxaquecas freqüentes. Entre as mulheres essas porcentagens duplicam em todas as doenças; em dor de cabeça triplica.

Em Barcelona, as mulheres menos favorecidas também sofrem mais excesso de peso, de 34,6% contra 20,1%. "A falta de tempo e de recursos se traduz em uma dieta pior", explica. Segundo outro estudo da ASPB, menos de 20% das mulheres com baixa renda fazem exercício físico durante o tempo livre, contra 40% entre as classes acomodadas. Entre os homens, 39% dos que ganham menos fumam, contra 24% entre os de maior renda.

Diante da desigualdade, Joan Benach relata uma lista alternativa de estilos de vida, idealizada por um especialista em hábitos saudáveis da Universidade de Bristol, David Gordon: não seja pobre e, se for, deixe de sê-lo o quanto antes; não se submeta a um trabalho precário e mal pago; não viva em um bairro pobre e contaminado. "Com isso se salienta que os determinantes sociais na saúde pública estão muito acima dos mal chamados estilos de vida. Porque não se trata de estilos de vida pessoais, mas de condutas influenciadas por fatores sociais", conclui Benach. A desigualdade também mata em países do Ocidente. Os estudos revelam graves contrastes em expectativa de vida em uma mesma cidade Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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