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15/11/2008

"O sucesso me condenou à morte", diz autor de 'Gomorra'

El País
Borja Hermoso
Em Sevilha
Mais de 2 milhões de livros vendidos por uma reportagem sobre os labirintos da Camorra napolitana têm um preço: uma vida em estado de sítio, vigiada e ameaçada. O escritor Roberto Saviano esteve na sexta-feira da semana passada na estréia em Sevilha do filme sobre seu livro "Gomorra". Ele tem 29 anos e quase toda a tristeza do mundo nos olhos. Dá a mão com um gesto entre mecânico e desconfiado, sorri levemente e senta-se no pátio de um hotel em Sevilha. Refugia-se nos parapeitos do incerto, do temeroso e do furtivo. Não usa colete à prova de balas, só lhe faltaria isso, mas quatro escoltas rodeiam seu campo de ação, olham embaixo das mesas, olham para o jornalista, olham para a sacadas. São quatro agentes do Ministério do Interior que substituíram, desde que Saviano chegou a Sevilha na quinta-feira da semana passada, os quatro "carabinieri" habitualmente encarregados de cuidar de sua segurança.

Pouco depois, cães policiais adestrados na busca de explosivos farejam as instalações do Teatro Lope de Vega em Sevilha, sede do Festival de Cinema Europeu, porque o autor de "Gomorra" (ed. Debate) - denúncia asfixiante e às vezes lírica do terror instaurado pela Camorra napolitana - está quase chegando.

A Camorra condenou Saviano à morte não pelo que escreveu, mas pelo impacto do que escreveu, um impacto cifrado em quase 2 milhões de livros vendidos. "O que mais incomoda a Camorra não é exatamente a palavra, mas a palavra quando gera tensão... A palavra como tal, assim a seco, não causa cuidados; o que não suportam é que essa denúncia tenha tantos leitores, essa é a diferença entre Rushdie e eu. Rushdie foi condenado com uma 'fatwa' pelo mero fato de ter escrito 'Os Versos Satânicos'; eu fui condenado porque o livro foi muito lido; é o sucesso que me condenou à morte", explica.

O caso é que a condenação existe. É o que demonstram os policiais, os cães e o olhar de Saviano, que se projeta no chão com demasiada freqüência. O caso é também que, segundo o jornal italiano "La Repubblica", a polícia de Nápoles detectou a chegada à cidade de um carregamento de 50 kg de trinitotolueno que já está em poder do clã dos Casalesi, cujo chefe absoluto, Francesco Schiavone, aliás Sandokan, jurou matar o escritor por se atrever a revelar os negócios sujos da Camorra.

A presença de Roberto Saviano em Sevilha foi um enigma quase até o final (também esta conversa), mas ele decidiu passar quatro dias na cidade por causa da estréia de "Gomorra", a adaptação cinematográfica feita de seu livro pelo diretor Matteo Garrone. "Gosto de Sevilha; é uma cidade com uma luz que me lembra o sul da Itália. Fui passear ontem com meus seguranças e foi maravilhoso; fazia muito tempo que não passeava assim pelas ruas de uma cidade", comenta Saviano com voz tênue. Um passeio em que, é claro, encontrou um compatriota: um mímico ítalo-sevilhano que desceu de seu tamborete para gritar "Força, Roberto!" Também durante esta entrevista, um turista norueguês interrompe a conversa para lhe dizer que teve de esfregar os olhos quando o viu, e que telefonou às pressas para sua mulher que está em Oslo para contar-lhe.

É normal. Saviano recebe centenas de cartas e mensagens eletrônicas; e também cuecas e suportes, porque na Itália não faltam os que pensam que finalmente há um homem como Deus e San Gennaro (patrono de Nápoles) mandam, um homem que enfrenta a Camorra. "Eu voltaria a escrever o livro. Não me arrependo de tê-lo feito, mas ao mesmo tempo não posso dizer que o ame. Sou um prisioneiro do meu livro. Vivo uma situação que me esgota; é um gasto de energia brutal, uma energia gasta não em escrever, mas em estar alerta, em estar fechado em lugares horríveis, em perder tempo inutilmente... e tudo isso me deixa louco".

Para Saviano, jornalista e romancista, a diferença entre gêneros se baseia na capacidade do autor na hora de escolher o essencial, e fazê-lo de uma forma tão subjetiva quanto eficaz: "Orhan Pamuk foi ameaçado por relatar o genocídio armênio... mas isso todo mundo sabia! O que acontece é que ele escreveu sobre isso de uma forma que deixou em apuros o Estado turco, e então se transformou em um símbolo. Comigo aconteceu a mesma coisa: todo mundo sabia que existia a Camorra napolitana. E Anna Politkovskaya? Muitos cronistas tinham escrito antes sobre a Chechênia, mas ela o fez de tal modo que a questão chechena chegou a todo o mundo, se transformou em um problema mundial, e não mais local".

Como não poderia ser diferente, Saviano admite que as histórias reais da máfia em geral e da Camorra em particular - as que transcorrem nas ruas de Scampia ou Casale del Principe - constituem um material literário de primeira ordem: "A Camorra é um material narrativo excelente, porque no meio está a épica. São histórias de poder, de vida e morte, isto é, os temas que todo escritor deve enfrentar, sobre personagens que decidem - sem justificativas nem máscaras - sobre a vida e a morte, sobre a riqueza e a pobreza, sobre a construção e a destruição".

Quanto ao resultado do filme de Matteo Garrone sobre seu livro (ele participou do roteiro), Saviano confessa: "Eu gostei. Creio que Garrone não traiu o espírito do livro, embora sejam obviamente diferentes: eu estava obcecado pela parte dos negócios, e ele pela da antropologia". E falando em cinema mostra-se bastante cético diante dos excessos mitificadores que filmes como "O Chefão" ou séries de televisão como "Os Sopranos" fizeram sobre o mundo mafioso: "Os criminosos prestam atenção no cinema para ver como podem divulgar seu poder, porque o vêem como uma vitrine, como um amplificador... Os chefes mafiosos adoram o cinema; se vendem melhor e se apresentam como um herói do cinema, claro. Mas em todo caso o modelo das organizações criminosas mafiosas não é "O Chefão" de Coppola, mas o "Scarface" de Brian de Palma, porque seu personagem Tony Montana é alguém que se faz sozinho, sem dar importância às regras, embora com suas próprias regras".

Enquanto apertamos o botão para desligar o gravador, Roberto Saviano ainda tem tempo para explicar o que para ele é uma das maiores anomalias do mundo mafioso: "Para eles nem existe uma sacralização da vida, nem a morte é um conceito negativo. Para a Camorra, a morte não é um risco, mas uma parte do ofício". Do ofício de assassino, entenda-se. Não do de escritor. Embora, infelizmente, tenham aplicado a regra a Roberto Saviano. Mas ele continuará escrevendo. Porque "escrever é resistir". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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