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16/11/2008

Nasce a família transoceânica

El País
María Antonia Sánchez-Vallejo
A emigração feminina está se emancipando. Nos últimos anos, a mulher tomou a iniciativa na hora de emigrar. O que ela faz cada vez com mais autonomia, até o ponto de representar quase a metade do total de emigrantes do mundo (100 entre 190 milhões, segundo o Fundo de População das Nações Unidas). Esta feminização não é novidade, mas sim a intensidade do fenômeno. E também o fato de que muitas são chefes de um novo tipo de família.

"As famílias transnacionais são configurações transitórias à espera do retorno ao país de origem ou de uma reunião que nem sempre acontece", explica o professor de Antropologia da UNED Raúl Sánchez Molina.
"Essas famílias sempre existiram, mas as de hoje apresentam uma característica singular: a mulher, sobretudo a latino-americana e filipina, está adquirindo relevância dentro das estruturas patriarcais, e emigrando massivamente".

Sozinhas ou como pioneiras da unidade familiar, seguidas ou não pelo marido e filhos, muitas se transformaram no principal suporte econômico do lar, mas não livres de conflitos. A dinâmica migratória introduz uma série de transformações. Em primeiro plano, aparecem as mudanças nas relações entre gerações - com os filhos - e o impacto nas relações de gênero; essas mulheres enviam parte do dinheiro que ganham a seu país e também decidem como gastá-lo, exigindo autonomia frente à tradicional subordinação ao homem.

O que as motiva a fazer isso? Primeiro, o fato de que sua incorporação ao mercado de trabalho é quase imediata, em ocupações tradicionalmente
femininas: serviço doméstico, cuidado de crianças ou idosos. Em segundo lugar, o apoio de redes informais (amigos ou outros familiares que facilitam a viagem e a recepção no destino). E, finalmente, o desejo de proporcionar maior bem-estar à sua família, que tentarão trazer consigo ou para quem pretendem voltar, ainda que o projeto de retorno seja mais uma hipótese do que um cenário do futuro. Porque a emigração, que é uma dinâmica de mudanças, impõe também suas leis.

Sandra Rocío Ruiz, boliviana de 41 anos, é um exemplo. Mãe de quatro filhos entre 7 e 22 anos, chegou à Espanha há três anos, logo encontrou trabalho e hoje cuida de uma casa e de três crianças. Veio com a intenção de ficar só um ano para pagar as dívidas do marido, que ficou na Bolívia com os filhos. Logo se somaram os gastos dos estudos universitários do mais velho, e agora ela já não pensa em voltar.

"Aqui há mais oportunidades, um futuro melhor, sobretudo para as crianças, mas meu marido não quer ouvir falar disso. Eu queria trazer os pequenos, e meu filho mais velho entende e me apóia. Mas meu marido está preso lá e não tolera a idéia. Eu tenho uma visão diferente, aqui se aprende muita coisa", explica.

A impossibilidade de "fazer o marido entender" é um dos problemas das "famílias transoceânicas", como são chamadas pela Associação de Cooperação Bolívia-Espanha (Acobe), da qual Sandra é voluntária. "O homem está deslocado. Ele se vê em casa, cuidando dos filhos, e não se reconhece", explica Josune Huidobro, responsável pela ação social na associação.

A Acobe tem um sistema pioneiro para facilitar o contato entre as duas metades destas famílias. Por meio de um sistema gratuito de telefonia através da internet e de uma webcam, os emigrantes contatam os seus parentes em uma das sedes da ONG na Bolívia (La Paz, Santa Cruz e Cochabamba). "Não é um contato arbitrário, nem espontâneo", explica Huidobro; "há um cruzamento prévio de informações sociais entre os escritórios da Bolívia e Espanha para determinar o grau de necessidade do contato.

Além disso, um psicólogo e um assistente social ficam presentes durante a conexão, porque é necessária uma contenção. Não é bom que durante uma comunicação de 15 minutos, alguém passe dez minutos chorando". Sandra Rocío contata sua família dia sim, dia não.
"E com o filho mais velho, fala pela internet", conta.

Cerca de 92% dos familiares de emigrantes na Espanha têm telefone celular e 48% têm computador, segundo o relatório Situação das Famílias de Migrantes à Espanha na Bolívia, da Acobe. Esta pesquisa revela também qual é o custo psicossocial e afetivo da separação.

Apesar de os entrevistados confirmarem que sua economia real melhorou depois da emigração de seus familiares, 62% falam de traumas emocionais. As crianças e adolescentes apresentam as porcentagens mais altas e, ainda que a educação seja um dos contextos que mais se beneficiam com o envio de remessas pelo imigrante (melhorou em 53% dos casos), 67% dos filhos apresentam problemas de conduta, e 48% mostram uma diminuição no rendimento escolar. O abandono da escola acontece em 10% dos casos.

Educar é uma função que as mães não abandonam nem à distância. Mas quando as emoções se acumulam, é difícil encontrar uma estratégia adequada. "Em uma conversa de dez minutos, a mãe não pode dedicar nove a dar ordens, tampouco a chorar ou a lamentar a ausência", diz Huidobro.

Falar no presente, sem instalar-se no passado nem tampouco num futuro remoto, é indispensável. Assim como tomar a lição do filho, perguntar como foi o dia na escola ou engajá-lo em algum projeto comum. É o que acredita a pedagoga e imigrante argentina Nora Rodríguez, autora de "Educar desde el locutorio" [algo como "Educar à Distância"] (Plataforma Editorial), o único guia para mães à distância disponível na Espanha. "Estas mulheres têm uma sobrecarga de funções.

Não só deixam para trás seus filhos para cuidar de outros, como também se vêem privadas de ferramentas para desenvolver uma atitude educativa normal com seus próprios filhos: podem cair no erro de transmitir a eles sua ansiedade, dar consentimentos em excesso ou sobrecarregá-los de presentes que geram fantasias. São mulheres que trabalham 14 ou 16 horas por dia por seus filhos e para eles.

É preciso levar em conta que essas famílias não se rompem, apenas entram numa fase diferente. O projeto comum continua existindo, por isso é vital alimentar uma sensação de apego. Também é fundamental não instalar-se no passado, nem supervalorizar um futuro distante", diz Rodríguez.

Fazer com que os filhos participem desse projeto de futuro é difícil quando se interpõem os quilômetros, e às vezes os anos. A reunião tão desejada depende muito da legislação do país de destino, mas seu êxito se baseia também na duração da separação e na faixa etária dos filhos.

"A maior parte das mulheres tentam trazer seus filhos antes que entrem na adolescência, antes que as diferenças entre gerações se tornem mais agudas. O cenário mais dramático possível é quando se trata de vários irmãos que se reagrupam em turnos. Temos um caso de seis irmãos, em que um deles se viu obrigado a ficar no país", conta Nora Rodríguez.

Sandra Rocío Ruiz quer trazer seus dois filhos menores. Porque a adolescência pode se transformar numa barreira ainda mais intransponível quando se acrescentam as mudanças de país, de costumes e às vezes também de língua. A romena Estrella Duica, de 39 anos, acaba de reunir-se com seus dois filhos, de 22 e 16 anos, na Espanha.

Mãe solteira, experimenta o abismo de divergências criado por uma separação de três anos nos quais se encontrou com eles apenas uma vez.
Seus filhos não se adaptaram à Espanha, a mais velha, formada em Psicologia, quer voltar, e o mais novo se recusa a ir à escola. Tudo fica mais difícil. "Ele pergunta por que eu tenho que morar aqui, não gosta de nada, está custando muito a adaptar-se", explica Estrella. O sentimento de culpa se multiplica.

A experiência de cuidar dos filhos dos outros enquanto sentem falta dos seus próprios filhos também é uma situação difícil. Sandra Rocío
reconhece: "Chegamos a nos apegar às crianças, é um pouco como se fossem nossos filhos". Estrella Duica, ao contrário, precisou tirar forças da fraqueza para encarregar-se do bem-estar e da satisfação dos filhos dos outros.

Um dia, o pai de um deles chamou sua atenção: "Não gosto da sua cara, está sempre triste". "Se estou triste é porque me sinto assim. Não consegue entender isso?", respondeu. A resignação, a acomodação ou até mesmo a entrega são sentimentos resultantes de um denominador comum: a expectativa de serem boas mães.

Em muitos casos, as emigrantes sustentam suas famílias e contribuem com o PIB de seus países de origem assim como os homens. "As remessas que enviam são menores em quantidade do que as que os homens mandam, porque ganham menos, mas em média elas destinam uma porção maior de seus rendimentos para suprir as necessidades cotidianas e serviços de saúde ou educação", afirma a psicóloga Ana Bellocchio, diretora da Área de Imigração da Federação de Mulheres Progressistas (FMP), que dá apoio legal, laboral e psicossocial a mulheres imigrantes.

Economicamente, a emigração não é um impulso isolado; obedece mais a um projeto conjunto. "A decisão de migrar nunca é tomada individualmente, há negociações prévias nas famílias para decidir quem vai emigrar e quem vai ficar cuidando dos filhos de quem vai embora", explica o antropólogo Sánchez Medina. No caso de Estrella, foram seus pais e uma irmã que ficaram. No de Fátima Ahmadi, marroquina de 37 anos, divorciada e com três filhos, de 17, 12 e 10, é sua mãe que cuida deles.

Ela está há um ano e meio sem vê-los, desde que chegou à Espanha; só fala com eles por telefone "para dizer que se comportem bem, que tirem boas notas e se dêem bem uns com os outros", conta através de sua compatriota Houda Hdaidane, mediadora intercultural da FMP. Mas Fátima passará inevitavelmente pelo mesmo processo que Estrella: uma dinâmica de mudanças geracionais que pode estilhaçar a imagem idealizada que uns fazem dos outros à distância.

Psicologicamente, as mães que emigram devem "viver o luto" antes de continuar a reconstruir a unidade familiar por telefone ou e-mail, e isso implica um grande desgaste psicológico. Além da sensação abismal de culpa que tanto Estrella como Fátima reconhecem sentir, quando não a censura que fazem em relação à sua decisão, a saúde mental e física das mães migrantes acusa uma série de transtornos: "Ansiedade, perda de auto-estima, insônia, casos de anorexia e falta de vitaminas, sem contar dores de estômago, indisposições musculares, alergias e todo tipo de problemas dermatológicos...", enumera Ana Bellocchio.

E depressão. Como a de Estrella Duica, que se aferra às sessões que a FMP organiza semanalmente para se encontrar com outras mulheres como ela. "O preço tem sido muito alto. Pagamos com nossa saúde mental. A experiência me tocou muito e deixou um peso de amargura. Penso se vale à pena e realmente não sei o que responder", diz. E sussurra: "Acho que não".

"É fundamental não ficar isolada nem sozinha, criar redes sociais de apoio", indica Bellocchio. "A auto-estima é o calcanhar de Aquiles, o que inclui a auto-estima no trabalho: mulheres com diploma são empregadas aqui no serviço doméstico. Sempre chegam vários graus abaixo de sua classe", diz a responsável de Imigração da FMP. Para completar, "o instrumento de trabalho do imigrante é seu corpo, e porque eles só desempenham trabalhos físicos, o medo da doença se soma a suas preocupações", diz a especialista.

A experiência de emigrar transforma também a sociedade emissora. A influência que a mulher emigrante exerce na transmissão de conhecimentos e valores contribui em grande medida para melhorar o estado de saúde e reduzir as taxas de mortalidade infantil graças à educação em saúde que recebem nos países de destino, segundo um relatório do Banco Mudial.

Essa transmissão entra no que os especialistas denominam "remessas sociais": intercâmbios de idéias, recursos práticos, conselhos, atitudes e aptidões que as famílias transnacionais incorporam à sua bagagem comum. A consideração social em relação ao esforço dessas mulheres que emigram também é um valor agregado. "O papel que a mulher tem no contexto social se fortalece", aponta Ana Bellocchio. Fátima Ahmadi corrobora: "No meu país, o que eu estou fazendo é muito valorizado, tanto do ponto de vista familiar quanto socialmente".

Na Espanha, as mulheres representam hoje 46% dos trabalhadores estrangeiros documentados, que somavam 3.536.347 segundo a Pesquisa de População Ativa do 2º trimestre de 2007. Protagonistas de um fenômeno irreversível, o da feminização da emigração, essas mães-provedoras, chefes de um novo modelo de família, a família transnacional de "tetos abertos" - na definição de Nora Rodríguez -, contribuem sobremaneira para que a roda implacável da globalização continue girando.

(Tradução: Eloise De Vylder)
As mulheres imigrantes revolucionam o modelo patriarcal ao proverem o sustento de sua família. As mães assumem, à distância, a dolorosa relação com seus filhos em outro continente

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