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17/11/2008

É o seu sonho, Ann Nixon Cooper

El País
Juan Jesús Aznárez
Em Atlanta (EUA)
Sobre o túmulo de Martin Luther King, na Avenida Auburn, na cidade sulista de Atlanta, a vigília piedosa de uma família negra honra a memória do líder anti-racista assassinado em 1968. "Sem a luta do doutor King, nunca poderíamos ter um presidente negro", disse Ida Woodson, em vigília desde a gloriosa terça feira de ressurreição.

São nove da manhã na capital negra dos EUA, e a mãe de Ida permanece ensimesmada em frente à sepultura de mármore de Coretta Scott e de seu marido Luther King, cujo tenaz ativismo abriu caminho para o triunfo de Barack Obama. A mulher move os lábios. Talvez esteja rezando pelo corajoso homem ou lendo o epitáfio esculpido em seu túmulo:

"Finalmente livre, finalmente livre, graças a Deus. Por fim sou livre".

A vitória épica do senador de Illinois foi uma festa nos bairros da capital da Geórgia, onde vive uma maioria afro-americana e seu novo
ícone: Ann Nixon Cooper, de 106 anos, citada pelo presidente eleito no discurso de agradecimento em Chicago. Na época da segregação racial e das cusparadas, ela era proibida de votar por ser negra e mulher.

"Negro!", diziam para mim, "sai pela porta detrás" [do ônibus]. Luther King denunciou a discriminação desde a prisão e do altar batista da Igreja Ebenezer, fechada para obras. Sem poder entrar no santuário, um casal beija a velha foto do pai do líder dos direitos civis, também pastor, colada na porta do templo. Nela, ele aparece junto aos fiéis do início do século 20. "Nunca imaginei um presidente que não fosse branco, mas vejo que as coisas podem mudar", repete Ann Nixon Cooper, viciada em ovos com bacon no café da manhã, aos jornalistas que vão até sua casa para saber mais sobre os anos da supremacia branca.

A histórica aflição dos negros, a magnitude das barbaridades e afrontas sofridas por seus ancestrais, a escravidão indelével, explicam a apoteose de 30 milhões de norte-americanos de pele escura, o jeito ensimesmado da mãe de Ida, o enlevo da centenária e o transbordamento de lágrimas nos bairros afro-americanos de Nova York, Washington D.C., Alabama, Louisiana y Mississipi. A industrializada Atlanta da Coca-Cola e da CNN, a cidade dos salões de cabeleireiro para negros, com seus autênticos centros sociais, também participa do festivo alvoroço nacional.

"Quando meus filhos forem maiores contarei a eles o quanto seus antepassados sofreram para que Obama fosse possível", diz Cindy Murphy, jornalista do diário The Atlanta Journal Constitution.

Ela contará que milhões de africanos foram enviados até a América nos navios negreiros pelas potências coloniais européias. Sob golpes de chicote, colheram algodão ou cana até a abolição da escravatura, no ano de 1865. Mas a liberdade das pessoas transformadas em burros de carga foi roubada, porque os sulistas ditaram leis de submissão, e o racismo cultural do norte ignorou a lei vigente. Até a legislação de 1964, os negros não podiam entrar nos mesmos cinemas, restaurantes, banheiros públicos, elevadores e consultórios médicos que os brancos.

"Só para brancos" ou "Negros não", diziam os cartazes. A escolarização conjunta foi uma ilusão.

"Aquilo era uma guerra e a eleição de Obama foi o maior acontecimento na história da civilização cristã ocidental", disse em Mississipi James Meredith, de 75 anos, o primeiro estudante universitário negro, cuja matrícula os racistas tentaram impedir a pauladas no ano de 1962.

Na época, Ann Nixon Cooper tinha 60 anos: ela nasceu em 1902, meio século antes que a Corte Suprema proibisse a segregação escolar, e o racismo burlou a resolução abrindo escolas particulares para crianças brancas. A anciã viveu aquilo e a desforra atual. Casou-se aos 20 anos com um dentista, falecido em 1967, com quem teve quatro filhos, dos quais só um sobreviveu. Só aos 63 anos pôde inscrever-se para votar.
Voluntária em trabalhos comunitários durante muitos anos, alfabetizadora e sensível, assistiu à vitória cultural de terça-feira e disse "agora já posso morrer".

Milhões de escravos negros, entre eles o tataravô de Michelle Robinson Obama, morreram sem ter exercido o direito de voto, estabelecido na 15ª Emenda Constitucional de 1870, porque os Estados escravocratas cobraram impostos sobre o sufrágio, exigiram um exame de matemática quântica dos negros que quisessem participar ou simplesmente os dissuadiram com ameaças. Seus descendentes tiveram que esperar até 1965.

Obama citou a avó Cooper no discurso da vitória como testemunha de um século de glórias e calamidades. O jovem Andrew conheceu essa história nesta sexta-feira, boquiaberto, no museu Martin Luther King. "É impressionante", comentava ao ver as mordidas dos cachorros da polícia de Birmingham contra os manifestantes, ou um branco estúpido que tirou os óculos de um negro míope e apagou um cigarro em suas lentes.

Os filmes mostram as cruzes ardentes da Ku Klux Klan, os enforcados, as surras, os incêndios, os pontapés, as humilhações. Entre 1882 e 1962, foram linchados 10 mil negros, segundo alguns historiadores. Inúmeros visitantes escreveram seus comentários nos livros dispostos nas salas que guardam os discursos de Luther King, as cartas de crianças que choraram sua morte, a carreta que levou seu caixão, tudo isso ao som da voz tronante do líder. "Obrigada, doutor King, pela semente". "Se visse o que está acontecendo em nosso país, ficaria muito contente.
Sua luta não foi inútil". "Nós conseguimos. Não deixamos seus sonhos morrerem!".

O otimismo generalizado permitiu a dois terços dos norte-americanos crerem numa solução para as diferenças raciais, segundo uma pesquisa do Gallup para o jornal USA Today. "Barack não elegeu a si mesmo. Ele foi eleito por todos os americanos. Tenho certeza de que muitos estão dizendo a si mesmos agora: "Afinal de contas não somos tão racistas como pensávamos", enfatizou o analista Roger Wilkins. A vitória eletrizou Joseph Lowery, de 87 anos, companheiro de igreja e de ativismo de Luther King. "Aleluia, aleluia!", gritou no meio da rua.

"E a praça inteira me respondeu: Aleluia, aleluia!". O rapper Bow Wow repetiu até 30 vezes: "Um negro é presidente, um negro é presidente!".

Apenas o talento e o sedutor discurso de mudança e de igualdade deixaram o rapper estupefato e levaram Ora William, de 93 anos, às urnas pela primeira vez: "Eu vi ele falando na televisão e insistiram tanto comigo...". Nascida no extremo sul do país, Ora se cansou de trabalhar nos campos até virar cabeleireira. "E no ônibus, estava sempre atrás". Sempre atrás, até que Rosa Park negou seu assento a um homem branco em 1955, foi detida e detonou o movimento pró-direitos civis.

Meio século depois, os negros ocupam a maioria das escolas e transportes públicos, a prefeitura e a polícia de Atlanta; também seus bairros pobres, mas uma burguesia endinheirada afro-americana amontoa cada vez mais poder e milhões. A centenária Cooper não sai do seu
assombro: "Não é pouco o que estou vendo". É muito, mas ainda falta.
Um jornal da capital da Geórgia publicou no sábado os comentários de uma mulher branca: "Vou ter que agüentar a feia cara desse negro por quatro anos?". Os afro-americanos estão tomados pela euforia em Atlanta, reduto anti-racista de Martin Luther King onde um novo ícone ainda luta aos 106 anos Eloise De Vylder

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