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18/11/2008

"Se a Europa não se unir agora, acabará sentada em uma esquina", diz Joschka Fischer

El País
Andrea Rizzi
Em Madri
Sem Constituição, sem Tratado de Lisboa, com uma Comissão especialmente fraca e rodeada por potências que surgem e outras que sabem se reinventar, a Europa enfrenta o risco iminente de se transformar em uma realidade marginal e sem capacidade de influência. É a opinião de Joschka Fischer (nascido em Gerabronn, Alemanha, em 1948), que foi ministro das Relações Exteriores alemão de 1998 a 2005.

"O panorama é sombrio. A Europa está em más condições e se não der um empurrão para a frente para uma maior unidade acabará sentada em um canto da mesa. Por isso me preocupa uma Comissão Européia tão frágil quanto esta. Seu presidente é o mais frágil. Infelizmente, sua fragilidade será premiada com outro mandato", disse Fischer, que é presidente do Conselho Europeu de Relações Exteriores, em uma entrevista concedida na segunda-feira em Madri, onde esteve para participar da Conferência Anual Francisco Fernández-Ordóñez.

El País - Nas tempestades se vê a solidez e a coragem de barcos, capitães e marinheiros. Como o senhor vê a União Européia no meio da tormenta financeira? E, especialmente, como vê a Comissão Européia?

Joschka Fischer -
Em primeiro lugar, preciso me referir ao euro. Não entendo por que os líderes europeus não são mais agressivos para salientar diante das opiniões públicas a importância do euro e do Banco Central. Onde estaríamos agora sem eles? Este é o maior ativo que temos e é o momento de convencer os europeus do que é a UE: nossa força, nossa proteção, nosso interesse, nossa voz comum no mundo de amanhã. O que vimos sábado em Washington é algo histórico. O G8 é passado, o G20 será o futuro. O nosso futuro é a Europa, mas a Europa está em más condições. Perdemos a Constituição. O Tratado de Lisboa está no limbo. A América votou pelo futuro, sabe se reinventar em suas piores crises. A Europa está no caminho contrário. Estamos cada vez mais metidos em um pensamento de caráter nacional. E a comissão é muito frágil. Seu presidente é o mais frágil. E sua fragilidade será premiada com outro mandato. É preocupante, porque o mundo está mudando muito depressa. É um momento em que ou a Europa está pronta para jogar ou a velha Europa, dividida e fraca, continuará sendo um lugar agradável para se viver e visitar, mas sem verdadeira influência no mundo de amanhã.

EP - A Europa também parece dividida diante da relação com a Rússia, sobretudo depois da crise da Geórgia. De um lado os defensores de uma atitude dura, de outro os partidários de uma linha mais suave e de diálogo. Alemanha e Itália na frente, talvez por seu interesse no gás.

Fischer -
Sempre teremos interesses diferentes. Nos EUA também há impulsos distintos, mas no final têm uma única voz. Alemanha, Itália, mas também França e Reino Unido, têm interesses fortes na Rússia. Mas é claro que não poderíamos aceitar que a Rússia volte a uma dinâmica imperialista. [O presidente da Geórgia, Mikhail] Saakashvili, deu a Putin uma oportunidade de ouro. Antes, Sarkozy e Merkel fizeram bem em bloquear a adesão da Geórgia à Otan. Não estava madura. Diante do futuro é a melhor resposta ao desafio russo é a formação de um mercado do gás europeu completamente integrado. E o desenvolvimento de um fórum de política energética. Temos interesses comuns. Assim a Rússia não poderá jogar o "dividir para imperar".

EP - Independência de Kosovo. Ampliação da Otan. Escudo antimísseis. O senhor acredita...

Fischer -
(interrompendo a pergunta) Kosovo é diferente. Conheço a posição espanhola. Mas Kosovo é outra coisa, não o misturaria com o escudo, etc.

EP - Todas foram vistas como provocações pela Rússia.

Fischer -
Não, não. Kosovo não foi uma provocação. Kosovo é o resultado do que Milosevic fez.

EP - E o escudo e a ampliação?

Fischer -
Essas são políticas americanas. Mas Kosovo foi um amplo debate internacional, que deu uma resposta realista para o problema. A Rússia interpretou a independência como uma provocação, de uma maneira míope, estúpida. Agora é preciso ser claro: o escudo antimísseis também é uma política míope. Quanto à ampliação da Otan, os europeus vêem claramente os inconvenientes que acarreta. Mas isso não significa que devemos outorgar à Rússia um poder de veto.

EP - As sociedades européias acolheram com entusiasmo a vitória de Barack Obama. É provável que seu governo peça à Europa um maior esforço no Afeganistão. O senhor acredita que governos e sociedades europeus estão prontos para se envolver mais?

Fischer -
Não sei se estão prontos, mas se não o fizerem os europeus seriam taxados de unilaterais. Obama está pronto para uma atitude multilateral. Mas isso significa analisar juntos, debater juntos e lutar juntos. O plano não pode ser: queremos ser consultados, escutados, mas quando a coisa fica feia chamemos os primos americanos, que eles façam o trabalho e depois os criticamos. Os europeus deveriam dizer sim a esse pedido de Obama, envolver-se. Mas precisamos de uma estratégia política para ganhar. Ainda é possível estabilizar o país, desenvolvê-lo, evitar a guerra civil e o terrorismo. Mas antes de falar em aumento de tropas precisamos de um novo processo político.

EP - Romano Prodi disse certa vez que no passado as crises ofereceram empurrões fundamentais para a UE. Será assim desta vez?

Fischer -
Desta vez será o contrário. Tudo está sendo conduzido entre governos. Não há novas idéias européias. A América se move. As novas potências emergentes são cada vez mais chaves, como China ou Brasil. Enquanto isso, os Merkels, Browns, Berlusconis, Zapateros, se vêem nos rincões das cúpulas. Isso diz muito sobre o futuro. Ou a Europa se une mais agora, de verdade, ou nos sentaremos nas esquinas. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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