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19/11/2008

Tijuana ou a morte sem fim

El País
Pablo Ordaz
Em Tijuana (México)
Do porta-malas do carro branco pingam lentamente gotas de sangue. Já há uma pequena poça e muitas moscas quando chegam dois carros da polícia. Nem sequer bloqueiam a rua. Seriam precisos muitos metros de fita e muitos policiais para cercar todas as ruas de Tijuana onde aparecem executados, com ou sem cabeça, mergulhados em latões de ácido ou simplesmente crivados de balas de AK-47 ou AR-15, os fuzis preferidos pelos bandidos. Da noite de quinta-feira até a de sexta foram executadas oito pessoas na capital do estado da Baja Califórnia. A última, uma menina de 3 anos.

"O que andam fazendo aqui?" Assim que a polícia vai embora, levando com um guincho o carro branco carregado de mortos, aparece um Ford Focus cinza com as placas cobertas por plástico preto. O co-piloto - um sujeito muito gordo, de cerca de 40 anos - encara os únicos que ainda ficam na Calle Romano, o repórter e dois fotógrafos. Pergunta como se chamam, quem são, o que estão fazendo. Quase sem esperar a resposta, lhes adverte: "Não gosto que fiquem aqui". "Por quê?" "Porque este é meu território." "Seu território?" "Já foram avisados, senhores. Tenham um bom dia..."

O carro cinza se afasta lentamente. O sujeito gordo ainda tem tempo de fazer um gesto de "afastem-se". Os jornalistas ficam perplexos. Talvez seja só um fanfarrão, mas ninguém tem vontade de ficar para comprovar. Também não é factível chamar a polícia. Quase em nenhum lugar do México essa é uma boa opção, mas em Tijuana, ainda menos.

Há alguns dias o exército deteve e transferiu para a capital do país 21 policiais da cidade. Outros 17, vendo o que poderia lhes acontecer, decidiram sumir e hoje são procurados com a ajuda dos EUA. São acusados de servir a um poderoso cartel da região, o da família Arellano Félix, protegendo as rotas da droga, atrapalhando investigações oficiais, assassinando bandidos rivais...

"Sim, conseguimos detê-los graças à confissão do Güero Camarón..." Apesar do apelido engraçado - algo como camarão vermelho -, Luis Ramírez Vázquez foi até alguns meses atrás um dos personagens mais perigosos de Tijuana. Suas mãos se mancharam muitas vezes de sangue e sempre segundo os caprichos da melhor oferta. Durante anos foi um fiel servidor dos Arellano Félix, mas quando o cartel começou a se fragmentar - em boa parte devido aos ataques do exército e dos federais - deixou seus antigos chefes e se alistou em uma das novas facções, sem dúvida a mais criminosa, que é dirigida de algum lugar da fronteira por um dos narcotraficantes mais temidos, Teodoro García Simental, conhecido por El Teo.

A vida de traidor não é fácil em Tijuana. Aqui não se pedem explicações. Desde 26 de setembro passado foram executadas no estado de Baja Califórnia 252 pessoas, 90% delas pequenos traficantes. Os Arellano Félix puseram preço na cabeça do louro, mas a polícia se adiantou.

O Güero Camarón foi detido e não demorou a cantar. Sua informação veio a ser um filão. Um de seus cargos nas organizações a que serviu era encarregar-se da propina. Ele pagava aos policiais corruptos. Conhecia de cor seus nomes, seus rostos, a tarifa para olhar para o outro lado e outra, maior, para utilizar o revólver.

Em meados desta semana 46 policiais de Tijuana foram detidos e interrogados. A metade foi solta por falta de provas. Os demais foram transferidos em um avião do exército para a Cidade do México. O dispositivo de segurança militar que na quarta-feira de manhã os levou do aeroporto Benito Juárez até a sede da polícia foi tão numeroso que até correu o rumor - ampliado pela televisão - de que o exército estava tomando a sede central da Procuradoria Geral da República. Um porta-voz se apressou a desmentir uma notícia que, embora descabelada, não chegou a surpreender em um país curtido de espanto: "Tudo está em ordem. Trata-se apenas da escolta militar dos policiais de Tijuana detidos. É que vieram muito bem acompanhados".

Às 9 da noite de sexta-feira, das janelas do décimo andar do hotel Marriott, se tem uma vista magnífica da cidade. Um rio de carros se encaminha lentamente para a fronteira com os EUA. Outro rio, não menos caudaloso, vem na direção contrária para o show dos Fabulosos Cadillacs, um grupo argentino em turnê pelo México. A cidade, como o resto do país, resiste a ceder diante do terror. As ruas estão mais vazias que antes, as mães não soltam a mão de seus filhos em nenhum momento, os moradores do norte cada vez cruzam menos a fronteira para se embebedar ou fazer sexo em algum das centenas de bordéis que deram fama à cidade. Deste lado da fronteira, dezenas de táxis amarelos esperam sem sucesso que ocorra um milagre, que os vizinhos ricos percam o medo e voltem com seus dólares e sua vontade de farrear.

Rommel Moreno observa o espetáculo. Mais de 20 homens fortemente armados vigiam dia e noite que ninguém se aproxime sem autorização. Ele é o procurador-geral da Baja Califórnia, uma peça fundamental na dupla luta em que está envolvido o governo de Felipe Calderón. Uma batalha para fora - contra o narcotráfico - e outra mais difícil ainda, para dentro - contra os policiais e os políticos corruptos. Rommel Moreno quase nunca perde o sorriso: "Tenho uma missão e vou cumpri-la. Sou um homem crente, e agora o que é preciso fazer é limpar o país de tanta criminalidade. Temos de voltar a sentir orgulho do México".

Os dados que vão surgindo na conversa com o procurador não são muito animadores. Sua missão é mudar a realidade, e não maquiá-la. Por isso confirma com provas que a situação de violência extrema - mais de 4.200 assassinatos por encomenda no país somente este ano - ainda vai demorar para recuar. Só em Rosarito, uma das cinco cidades da Baja Califórnia, há 500 "narcomenudistas", como são chamados aqui os pequenos traficantes. Em Tijuana o número chega a 1.500.

Se levarmos em conta que os diversos cartéis estão em plena disputa de território, que 90% das armas que utilizam são novas - recém-compradas em alguma das diversas feiras no lado norte da fronteira - e que os constantes golpes da polícia e do exército só fazem abrir buracos de poder que logo tendem a ser ocupados... não há muitos motivos para esperar que o pesadelo que vive o México - especialmente nestas áreas quentes da fronteira norte - possa melhorar em curto prazo.

Toca o celular. É um dos fotógrafos que cobrem para jornais de todo o mundo a guerra que se trava em Tijuana. É a quarta vez que chama hoje. A primeira foi muito cedo, para informar sobre o carro branco que pingava sangue. A segunda foi para avisar de um tiroteio entre bandidos e policiais com o resultado de uma vítima inocente, o dono de uma loja que teve a má sorte de cruzar a trajetória das balas. As ligações seguintes - envolvidas pelo som das sirenes - pioraram a situação.

A noite de sexta-feira foi se fundindo em drama até se tornar insuportável. A imagem estava no sábado na capa dos jornais locais. Uma menina de 3 anos - calça jeans, camisa branca - inerte sobre o asfalto em meio de um charco de sangue. Sobre a foto, o título: "A incontível onda de tiroteios e mortes".

Embaixo, a história, uma a mais, a de um policial, Fredy Fernando Matunaga, crivado de balas quando circulava de carro com sua família. Os disparos em rajada dos fuzis AR-15 dos bandidos não duvidaram diante da presença da menina Jessy.

A debandada já chegou. Mais de 400 empresários tiraram suas famílias da cidade para o outro lado da fronteira. Eles vão e voltam todos os dias e ocupam alguns apartamentos de segurança máxima que já começam a ser construídos para adaptar-se à nova realidade. O perfil de uma cidade jovem - apenas 140 anos de história - e tradicionalmente alegre está mudando. Há agências que ajudam as famílias ricas a passar despercebidas. Fora a vida social, os luxos, os carros caros, a vida na vitrine. Há empresas de veículos blindados que se anunciam nos jornais locais exibindo sua máxima qualidade: não se nota a blindagem...

"Mas nem isso adianta mais", diz um agente da polícia federal. Não seqüestram mais os ricos. Será porque foram embora ou porque têm uma escolta difícil de vencer, o certo é que agora qualquer um pode ser seqüestrado. Os narcotraficantes precisam de dinheiro urgente para pagar as drogas e as armas.

Durante anos a guerra da droga no México - também aqui em Tijuana - foi a guerra dos outros. Havia mortes, muito menos, e eram entre os bandos. Havia seqüestros, muito menos, e as vítimas estavam entre o pequeno círculo dos que podiam pagar um resgate muito alto. Hoje é diferente. A onda incontível de tiroteios e mortos já arrasta pela frente pessoas inocentes, a guerra não se trava mais nas periferias conflituosas, mas já está nos bairros mais tranqüilos. Entre os seqüestrados há médicos, arquitetos, donos de lojas de comestíveis...

"Estavam sentados ali, diante da banda." O Negro Durazo é um restaurante muito popular em Tijuana. Seus donos, procedentes de Sinaloa, estão aqui há dez anos e conquistaram uma clientela amante de seus tacos de camarão e do ruído sonoro do tambor. Há poucos dias havia 15 mesas ocupadas, a orquestra tocava e as crianças, como hoje, se divertiam com um palhaço que lhes dava bolas.

"Foi questão de segundos. Chegaram dois ou três, foram para a mesa onde estavam dois jovens comendo e ratatatá, os deixaram fritos. Traziam fuzis AK-47, e quando o fotógrafo do restaurante olhou para eles também o mataram. As pessoas se esconderam embaixo das mesas, no banheiro, houve gente que quebrou os vidros e se atirou pela janela...

Passaram alguns dias e o restaurante está novamente cheio. Inclusive o garçom do Negro Durazo, que confessa não ter dormido desde então, ensaia um sorriso e uma brincadeira para amainar a realidade. "O restaurante ficou vazio em segundos, e ninguém voltou para pagar."

Compra-se casa de seqüestrado com seu dinheiro
Já houve três casos. Exceto por alguns detalhes, a história dos três é muito parecida. Uma família abastada que, por medo da crescente insegurança, decide abandonar Tijuana e transferir sua residência para os EUA. Depois põe a casa à venda, em geral por alto preço, em alguma das zonas residenciais diante da costa do Pacífico. Aparece um comprador de aspecto imaculado e com dinheiro vivo. A operação é fechada e dias depois o antigo dono da casa ou um de seus familiares sofre um seqüestro no México ou mesmo em território americano (no último ano foram contabilizados 32 seqüestros na Califórnia).

O bando de seqüestradores informa à família que não vai admitir mentiras. "Sabemos que têm meio milhão de dólares em dinheiro, precisam nos entregar se quiserem voltar a ver seu marido com vida", foi uma das mensagens. Caso seja feita, a denúncia à polícia - a que polícia? - nunca conclui com resultados positivos.

Não se deve esquecer que no México 98% dos delitos ficam impunes. Jamais se demonstra que o comprador da casa e os seqüestradores fazem parte de uma mesma e sinistra engrenagem para conseguir o dinheiro do vendedor. O resultado: as famílias ficaram sem casa e sem dinheiro e com um medo insuperável de voltar ao México. As autoridades mexicanas constataram que há alguns meses o estado da Califórnia está sofrendo um aumento considerável da criminalidade. E esperam que isso leve os EUA a estabelecer mecanismos conjuntos de combate ao crime, como um maior controle da venda de armas. 250 pessoas foram assassinadas em dois meses na guerra entre traficantes; 400 empresários transferiram suas famílias para os EUA Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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