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19/11/2008

Uma ponte para lugar nenhum

El País
Soledad Gallego-Díaz
Em Buenos Aires
A ponte Libertador General San Martín é uma ponte longa e magnífica sobre o rio que faz fronteira entre a Argentina e o Uruguai. Há exatamente dois anos é uma ponte que não leva a lugar nenhum. Sira, uma mulher muito agradável e educada, tem a chave do cadeado que tranca a barreira que impede a passagem a todo tipo de trânsito. Se alguém insistir em atravessar, ela chamará outros moradores do povoado próximo, Gualeguaychú, e se armará uma confusão. O que Sira permite é que turistas perdidos cheguem até a metade da ponte para ver a causa de tantos problemas: uma imponente fábrica de papel que a empresa finlandesa Botnia construiu do outro lado, em terra uruguaia, e que incomoda Gualeguaychú, na Argentina.

O confronto foi se envenenando e se transformou na origem de diversos gestos hostis entre os dois governos, protagonistas de um dos conflitos mais insólitos da América Latina. O presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, que protesta porque os policiais argentinos não fazem nada para liberar a passagem, vetou há uma semana Néstor Kirchner como secretário-geral da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), um cargo que o argentino ambiciona. E o Executivo argentino, em resposta, demora para dragar o canal de San Martín, compartilhado com o Uruguai. A Espanha, que Kirchner já quis envolver como mediadora, aceitou "facilitar" o diálogo, mas ao fracassar na primeira reunião optou por uma retirada diplomática, rápida e prudente.

Em Gualeguaychú ninguém se perturba. O bloqueio começou quando a fábrica ia ser construída. A fábrica foi construída, já está há um ano produzindo e as coisas continuam como eram. A ponte de San Martín, a mais próxima de Buenos Aires, continua fechada e é preciso desviar 80 km, até Colón, para cruzar a fronteira. Sira compreende que as coisas não deveriam ser assim. Antes passavam por aqui mais de 120 caminhões e centenas de carros por dia. Agora ninguém se incomoda em pegar a estrada 136 para chegar ao Uruguai ou ao Brasil.

Os piqueteiros de Gualeguaychú construíram um casebre em que Sira e os que se revezam com ela passam as horas mortas de vigilância e tédio. E os três policiais que se protegem do sol em outro casebre a menos de 100 metros? "Ah, eles estão aqui para nos proteger", diz Sira, que não estranha o fato de os policiais "protegerem" quem está bloqueando uma rota internacional. Há alguns dias, ela conta, um advogado de Buenos Aires anunciou que viria com uma caravana para cruzar à força. "O governo teve de mandar 300 policiais para o caso de acontecer algo, e depois o senhor advogado veio sozinho, acompanhado de sua mulher. E, claro, o governo teve de pagar todo esse gasto. Isso não está certo", raciocina Sira.

Quando o advogado, Salvador Rossetti Serra, chegou de carro à passagem de fronteira, era esperado pelos representantes da Assembléia Ambiental de Gualeguaychú, responsável direta pelo bloqueio. Com um fio de voz, Rossetti perguntou: "Mas quem são vocês, quem é o senhor para impedir a passagem de um cidadão argentino por uma estrada argentina?" "Seu direito ao trânsito cede diante do nosso direito a proteger o rio", lhe responderam. Os 300 policiais observaram o diálogo. Quando Rossetti deu meia-volta no carro e se foi, eles deram meia-volta em seus ônibus e se foram.

Fabián Magnotta, diretor jornalístico da Rádio Máxima de Gualeguaychú, está escrevendo um livro sobre a batalha de sua cidade contra a fábrica de papel. Não acredita que o governo seja aliado da causa ambientalista. "O que pode acontecer é que agora já teme a reação das pessoas." Mas por acaso acreditam que podem manter fechada por toda a vida uma passagem internacional e uma ponte de 3.000 metros? "Sim." Magnotta reflete um pouco: "O bloqueio não deu resultado, está claro que a papeleira funciona. Mas o que foi uma vitória é a mobilização das pessoas, dos moradores de Gualeguaychú. Esse é um sucesso que ninguém no poder aceitará".

O jornalista está admirado com a força do movimento comunitário que gira em torno do bloqueio de trânsito. "O senhor precisa compreender que as pessoas daqui consideram a papeleira uma agressão ao rio." Uma saída possível? Magnotta não confia muito no recurso interposto pela Argentina diante do Tribunal Internacional de Haia, cuja decisão só será conhecida em 2010. "O governo argentino nem mesmo alegou problemas ambientais. Só protesta porque Montevidéu violou o tratado do rio Uruguai, que estabelece uma gestão compartilhada entre os dois países."

A Botnia afirma que sua fábrica de alta tecnologia não contamina o rio. A assembléia tem provas para ajudar na denúncia? Magnotta balança a cabeça: "No rio aparecem às vezes manchas coloridas, mas quando os técnicos do governo chegam, sempre tarde, não há mais nada".

Alguns membros da assembléia pensam em outra possibilidade. Talvez pudessem convencer o governo a aprovar um código aduaneiro para Gualeguaychú. "A idéia é que as pessoas possam passar, mas que se proíba o cruzamento de caminhões com materiais para a fábrica", explica Magnotta.

A proposta talvez permitisse que todos salvassem a cara, mas exige uma iniciativa do governo argentino. E se não conseguirem? O governo acredita que poderá consentir que isto continue assim por muito tempo? A ponte continuará fechada, afirma. "Gualeguaychú sempre se sentiu uma ilha, uma comunidade que confia só em si mesma para solucionar seus problemas. Vivemos sem ponte até 1976 e podemos voltar a viver sem ponte." A passagem sobre o rio que separa a Argentina do Uruguai está fechada há dois anos pelo conflito entre os dois países por causa de uma fábrica de papel Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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