UOL Notícias Internacional
 

20/11/2008

"A Ucrânia quer garantias internacionais de segurança para não perder novamente sua independência", afirma presidente

El País
Pilar Bonet
Em Kiev
O "golodomor", a fome provocada em 1932-33 pela coletivização agrícola de Stálin, foi um "genocídio" destinado a "eliminar todas as aspirações nacionais" da Ucrânia, afirma o presidente Victor Yushenko, anfitrião nesta semana das comemorações do 75º aniversário daquela tragédia. Em uma entrevista a "El País" e a quatro veículos da mídia européia, Yushenko afirma que o "golodomor" custou a vida de "mais de 10 milhões" de pessoas na Ucrânia. Os números levantados pelos historiadores oscilam entre 1,5 milhão e 5 milhões.

As comemorações da fome, que terminam no sábado em Kiev, terão a presença de representantes de vários países, entre eles a Espanha, mas não a do presidente russo, Dmitri Medvedev, que declinou o convite. Em uma carta aberta a Yushenko, Medvedev discorda da interpretação da fome como um "genocídio" contra a Ucrânia e lembra que a tragédia afetou a Rússia, o Cazaquistão e a Bielorrússia.

O líder do Kremlin qualifica de "cínico e amoral" falar de "diferenças qualitativas" da fome na Ucrânia e em outras regiões da antiga União Soviética.

Yushenko diz não ter "muito desejo de comentar" a carta do colega russo, que mostra "uma atitude inadequada em relação à tragédia do povo ucraniano", atribuindo-a talvez a um "mal-entendido histórico". Depois ataca: "O presidente da Rússia humilha milhões de pessoas que hoje descansam em paz, inocentes assassinados que não deviam nada a ninguém". E acrescenta: "Qualquer presidente tem a obrigação e a honra de se descobrir diante de sua memória. É uma norma ética elementar e indiscutível". "Na Ucrânia morreram até 10 milhões de pessoas", afirma, dando "números baseados em dados estatísticos". "Em 1926, segundo o censo soviético, havia 31 milhões de pessoas.

Em 1937, segundo outro censo, 26 milhões. Considerando o crescimento populacional e a taxa de mortalidade, em 37 deveríamos ter tido 37,5 milhões de pessoas. Não há família na Ucrânia que não tenha perdido um dos seus. Falamos de uma das maiores catástrofes humanitárias do mundo", afirma Yushenko. Ele não aspira à precisão. "Para mim não é primordial encontrar rapidamente o número global de vítimas. Levará tempo. Em 1936-37 poderia ter havido 11 milhões de pessoas a mais das que houve. A perda se explica pela política de russificação, as deportações para a Sibéria e o Extremo Oriente, mas, sobretudo, pela fome".

Para o presidente ucraniano, o "golodomor" tem uma "dimensão política". "Foi uma das páginas da luta por nossa independência, nossa cultura, nossa identidade e nosso anseio de ser um país independente, esses desejos que todos os ucranianos herdavam de uma geração para outra." "Nos anos 20 os camponeses eram a parte mais independente e auto-suficiente da sociedade ucraniana, e falamos em genocídio porque foi um assassinato maciço de pessoas que representavam o povo ucraniano", explica.

O genocídio, além de motivos étnicos, também tem "motivos nacionais", diz. E salienta que emprega o termo "nacional" em um "sentido amplo, como o assassinato maciço de um povo. Morreram ucranianos, judeus, russos, belorussos, gente que vivia no campo ucraniano. Honramos todas as vítimas, independentemente da nacionalidade e do território onde pereceram". "O fim daquela política era castigar o povo portador da eterna idéia de independência e comunidade". "Não culpamos a nação russa por essa tragédia. Só o regime comunista. Para nós é um tema moral e ético", prossegue. "Em nosso país governava um regime desumano. Matar as pessoas de fome foi um dos métodos para sufocar todas as aspirações nacionais, e esta é a particularidade do 'golodomor' na Ucrânia e só na Ucrânia."

"A fome também afetou cazaques e russos, mas em uma escala diferente e sem as características da fome na Ucrânia, o único lugar onde se empregou a prática das 'listas negras' para o extermínio do campesinato." A lista negra equivalia a uma condenação à morte dos povoados que não cumpriam o plano de produção de cereais. Os agricultores eram expropriados de todos os víveres e, confinados à força nos povoados malditos, acabavam morrendo. "Milhões de pessoas queriam ir embora para alimentar suas famílias. Mas era proibido deixar a Ucrânia. E isso não aconteceu em nenhum outro lugar."

Yushenko, 54, conta que a fome pairou sobre sua infância em Joruchevka (povoado no leste da Ucrânia). Sua avó tinha três sacos de pão seco no sótão e se negava a explicar por quê. Também não queria explicar por que era ondulada a campina onde pastavam as vacas. Mais tarde soube que aquela terra estava cheia de cadáveres. "Há três anos minha idéia era honrar a memória das vítimas da grande fome conjuntamente com a Rússia e com os dirigentes russos, e tive a impressão de que tinham me entendido, mas depois essa questão adquiriu traços inesperados, que considero humilhantes para nossas relações", explica.

À crise política dos líderes da Revolução Laranja somou-se a econômica, que açoita duramente a indústria, especialmente a metalúrgica. "A Ucrânia produz 41 milhões de toneladas de aço, das quais exporta dois terços." Dos centros industriais chegam notícias sobre o fechamento de empresas e férias sem salário. Os analistas prevêem protestos sociais.

Yushenko não esconde a deterioração de sua relação com a primeira-ministra Yulia Timoshenko, com a qual já "no primeiro governo depois da Revolução Laranja" encontrou "dificuldades internas colossais em vez de harmonia". "A revolução dá uma oportunidade, mas por si só não produz mudanças. O mais doloroso é não ter utilizado essa oportunidade na economia." "O rumo social-populista de esquerda se infiltrou na política."

O PIB, que crescia 7% ao ano, se contraiu para 1,3% em setembro. Os gastos sociais do orçamento foram aumentando e "a inflação na Ucrânia é a mais alta da Europa", com uma previsão de 24% para 2008. A balança comercial terá um superávit de US$ 2 bilhões em 2008, mas "em 2009 haverá um saldo negativo de US$ 16 bilhões, devido à redução de investimentos, depósitos e créditos em divisas e à crise externa", diz Yushenko. O Banco Central tem reservas de US$ 32 bilhões e Kiev obteve um crédito de US$ 16.400 bilhões do FMI, o que, segundo o presidente, é suficiente para enfrentar 2009.

Os problemas do Parlamento ucraniano são "um fator negativo que dá argumentos às estruturas euroatlânticas para rejeitar nossa integração", opina Yushenko, segundo o qual "um terço da sociedade apóia o anseio euroatlântico, contra 17% há três anos. Kiev receberá em dezembro o Plano de Ação para o Ingresso na Otan? "A bola não está em nosso campo. Tudo depende do desejo político dos representantes da Otan", afirma.

Kiev quer garantias coletivas para sua soberania e integridade territorial, diz Yushenko. "A partir de 1918, a Ucrânia declarou sua independência seis vezes e em cinco delas a perdeu, sobretudo porque não tínhamos parceiros estrangeiros que reconhecessem nossa integridade territorial e também a inviolabilidade de nossas fronteiras e nossa soberania". "Estamos dispostos a aceitar a obrigação de que nosso território não será utilizado para enfraquecer nenhuma defesa ou política de segurança. Para os países da Europa, a ampliação do espaço de estabilidade e paz para o leste é especialmente atual sobre o pano de fundo dos acontecimentos no Cáucaso."

Yushenko apresenta a si mesmo como um político com sentido de missão, dedicado a temas pouco inclinados a "ganhar pontos", mas de importância estratégica para a nação. O "golodomor", diz, é um deles. Muitos têm dificuldade para entender que o presidente esteja tão envolvido na história, com tantos problemas econômicos para resolver. "Fome é o que vamos passar no futuro", afirma uma seguidora de Timoshenko. A fome provocada pela coletivização agrícola de Stálin teria custado a vida de 10 milhões de pessoas no país. Yushenko critica o presidente russo por não participar em Kiev da comemoração desse genocídio pela fome Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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