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22/11/2008

Piratas: Obama pode sofrer uma primeira grande crise no Índico

El País
Francisco G. Basterra
Na Antigüidade a pirataria foi um negócio de Estado. As patentes de corsário eram expedidas pelos monarcas. Elizabeth I da Inglaterra contratou sir Francis Drake, que em 1584 saqueou Cádiz em nome da coroa. Ou em 1671 Henry Morgan tomava o Panamá para ficar com a prata e o ouro do império espanhol. Cinco séculos depois, piratas procedentes de um país falido ameaçam as águas do Índico e do golfo de Áden, na boca do mar Vermelho e passagem para o Canal de Suez, por onde circula a metade do petróleo mundial. É a rota mais rápida da Ásia à Europa e depois para as Américas.

Que melhor símbolo da grande mudança que está sofrendo o mundo do que o espetáculo de bandos de piratas de um não-Estado atuando à vontade contra a liberdade de navegação em lanchas de borracha? A fragata indiana Tabar pôs a pique na noite de terça-feira, a 350 milhas a sudoeste de Omã, um dos navios corsários. Outro capítulo dessa nova distribuição da ordem mundial que já se esboça: uma nação emergente, que junto com a China representa o desvio do poder para a Ásia, intervém contundentemente onde os EUA e a Otan não conseguem se impor.

A marinha americana tem como objetivo estratégico manter abertas para o comércio mundial as vias de comunicação marítima: 90% do comércio global se realizam por mar. Os piratas do Chifre da África têm hoje em seu poder 17 presas e mais de 200 reféns enquanto esperam, em uma terra sem lei nem ordem, controlada por islâmicos radicais, o pagamento dos resgates.

A maior autoridade militar dos EUA, o almirante Michael Mullen, admite a impotência do poderio naval de seu país para impedir o seqüestro de superpetroleiros carregados com milhões de barris como é o caso do saudita Sirius Star. Os piratas somalis já operam a 400 milhas da costa da África oriental, em uma área de 3 milhões de quilômetros quadrados, seis vezes a superfície da Espanha. Uma frota de sete fragatas e destróieres da Otan, à qual se reunirá uma espanhola, já patrulham essas águas sem ter uma missão clara, por enquanto de dissuasão, nem as regras de confronto.

Seu objetivo é manter aberta e protegida uma estreita rota marítima de 1 mil quilômetros de comprimento e 10 de largura. A Rússia também enviou unidades navais. Os navios de guerra não costumam dispor de mais de 15 minutos desde que recebem o SOS da abordagem. Se intervierem e capturarem piratas, onde e quem os julgaria? Por enquanto, parece que os bucaneiros, ainda autônomos, só querem cobrar resgates substanciosos: US$ 25 milhões este ano. Mas a ausência de um Estado merecedor de tal nome na Somália e a presença de grupos jihadistas próximos à Al Qaeda fazem temer uma possível transformação desses piratas em terroristas. Já estão provavelmente pagando ao jihadismo pelo uso dos mais de 3 mil km da costa somali.

Obama poderia sofrer uma primeira crise internacional no Índico? Clinton teve na Somália um de seus primeiros fracassos internacionais, com cadáveres de fuzileiros navais arrastados pelas ruas de Mogadiscio. Se a pirataria não for atacada, os fretes e os seguros poderão aumentar. As companhias de navegação teriam de mudar as rotas da Ásia para a Europa por não poder atravessar o Canal de Suez.

Estão ocorrendo tantas coisas e em tamanha velocidade que somos incapazes de digeri-las. "Nos encontramos diante de uma transformação do mundo sem precedentes", disse na segunda-feira em Madri o ex-ministro das Relações Exteriores da Alemanha Joschka Fischer. A leitura atenta dos jornais nos enterra como uma avalanche de neve e aumenta a dose de incerteza e medo que estão atazanando os cidadãos. Perdemos a perspectiva e nossos cérebros não acompanham essa roda louca. Não sabemos mais, apesar de nunca termos estado mais bem informados.

Não podemos entender o que está nos acontecendo porque nunca aconteceu. E as receitas que estão sendo aplicadas pertencem a uma época e a um mundo já inexistentes. Fica a sensação de que pela primeira vez em duas gerações talvez nossos filhos vivam pior que seus pais. Clinton teve na Somália seu primeiro fracasso Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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