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26/11/2008

O paraíso pede socorro

El País
Joseba Elola
O cume das ilhas Maldivas é um pouco mais alto que o jogador de basquete Pau Gasol: 2,3 metros de altura, 15 centímetros a mais que o superpivô espanhol da NBA. Um dado que faz dela um paraíso ímpar: planícies de areia e nácar e cristalinas águas turquesa, mas que está prestes a se transformar em sua mais terrível condenação: a meca do turismo de luxo poderá ser engolida pelo mar no final do século se as previsões da ONU estiverem corretas.

Diante de tal panorama, o paraíso pede socorro. E o faz pela boca de seu flamejante novo presidente da República, Mohamed Nasheed, um homem que acaba de terminar com 30 anos de ditadura. Aproveitando seu grande momento histórico e de mídia, em sua primeira entrevista como presidente Nasheed fez na semana passada seu anúncio à imprensa mundial: as Maldivas vão constituir um fundo com as suculentas receitas do turismo para comprar território. Buscará terra mais firme. Sri Lanka, Índia e Austrália são os candidatos. O paraíso se vê obrigado a prever uma mudança.

Nasheed tem 41 anos e muita vontade de mudar as coisas. Seu lema não foi o "Sim, nós podemos" de Obama, mas em seu pequeno país de 309.575 habitantes ele protagonizou uma virada histórica. Nas primeiras eleições multipartidárias da história da república, conseguiu derrotar Maumoon Abdul Gayoom, o ditador que em 23 ocasiões mandou prendê-lo, que o deteve durante um ano e meio em atóis remotos. É o momento mais apaixonante da história desse arquipélago formado por 1.192 ilhotas, na maioria desabitadas.

"Se o mundo ignorar as conseqüências da mudança climática, não poderemos continuar sendo uma nação nestas ilhas." É o que diz em conversa telefônica o ministro da Habitação, Transporte e Meio Ambiente, Mohamed Aslam, correligionário de Nasheed e especialista do Partido Democrático das Maldivas na questão climática. "Esperamos que o mundo nos ajude para que continuemos sendo uma nação, esperamos que diminuam as emissões de gases do efeito estufa, que o aquecimento global seja detido." O pedido de socorro se baseia nas previsões da ONU e nas seqüelas deixadas pelo tsunâmi de dezembro de 2004: 82 mortos e 12 mil desalojados diante de ondas que se elevaram apenas 1 metro. "Foi então que percebemos que as Maldivas são muito vulneráveis", confessa Mohamed Imad, diretor do Departamento de Planejamento Regional.

As ilhas já sofrem uma lenta perda de terras. Em 113 delas, a erosão se situa em níveis muito graves. Amjad Abdulla, representante das Maldivas há dez anos na Convenção sobre Mudança Climática, é taxativo: "É nossa maior preocupação, está em jogo nossa sobrevivência, precisamos existir".

Depois do tsunami, foi implementado um plano para determinar quais são as áreas mais seguras do país. E mãos à obra. Mudaram-se os requerimentos para toda nova construção. Foram projetados edifícios com plataformas no teto - "80% da ilha estão a 1 metro de altura", lembra Imad. Começou-se a redistribuir a população: antes do final do ano, 6 mil pessoas evacuarão um dos atóis com maior erosão, Raa, e se mudarão para Bhuvafaru, uma ilhota que tem maior altitude.

A construção de ilhas artificiais não é contemplada como alternativa real à compra de territórios, diz o ministro Aslam. O impacto em termos ambientais é forte. É o que ocorre em Hulu Male, a ilha que foi criada para solucionar os problemas de superpopulação na capital, Malé - onde vivem 100 mil pessoas em apenas 2 quilômetros quadrados -, conquistando terreno ao mar.

São 43 as pequenas ilhas do mundo que se aliaram para ter uma só voz. Além das Maldivas, Tuvalu, Kiribati e as ilhas Marshall também lutam na ONU para que o aquecimento global não aumente, para não ficarem sem terra.

Gareth Price, analista do Instituto Real de Assuntos Internacionais da Grã-Bretanha, afirma que o anúncio de uma possível compra de territórios é um fenômeno novo: "É a primeira vez que um país o faz em conseqüência da mudança climática", afirma, de Londres. Consultado por este jornal, o catedrático de relações internacionais Antonio Remiro Brotons afirma que a compra de territórios é factível. "Poderia ser feita mediante tratados internacionais. Seria mais simples se for feita com território inabitado."

O pedido de socorro de Nasheed deu a volta ao mundo. O Partido Dhivehi Rayyithunge, do ex-ditador Gayoom - que não teve outro remédio senão convocar eleições diante da pressão social -, não demorou a recriminar Nasheed, porque espanta os turistas: o turismo é o motor das Maldivas, traz 33% do PIB e 80% das reservas em divisas. O novo ministro das Relações Exteriores, Ahmed Shaheed, se apressa a esclarecer que as palavras do presidente podem ter sido mal interpretadas. "O presidente quis chamar a atenção para o problema, dizer que é necessária uma solução", explica de seu escritório em Malé. "Devemos criar um fundo para a compra de territórios, mas ainda não há um plano de operações. Estamos diante de uma ameaça em longo prazo."

Enquanto isso, na meca das férias com os pés sempre descalços e em bangalôs sobre a água continuam-se construindo hotéis. Há cerca de 20 projetos para os próximos dez anos, segundo John Philipson, dos hotéis de luxo Six Senses. Talvez o paraíso corra o perigo de afundar, mas ainda não. A República das Maldivas quer comprar outras terras, caso afunde com a mudança climática Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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