UOL Notícias Internacional
 

26/11/2008

Opinião: Tão vencedores quanto vencidos

El País
M. Á. Bastenier
É possível realizar eleições que a América Latina considerou cruciais, depois das quais todos possam afirmar que ganharam e não estejam mentindo? A Venezuela elegeu no último domingo 22 governadores de Estados, mais de 300 prefeitos e um número semelhante de legisladores regionais. Mas os mais significativos foram os governos e os municípios de cerca de 12 cidades.

Por que Chávez pode dizer que ganhou? O presidente venezuelano tem o poder em 18 dos 23 Estados da nação, um a mais dos 17 que já controlava. Mas a aritmética pormenorizada estabelece que perdeu três e recuperou quatro, exatamente os que eram detidos pelo chavismo dissidente, a cujos votos se atribui a derrota do líder bolivariano no referendo constitucional de dezembro passado; e além disso obteve mais de 70% dos votos, somadas todas as categorias. De qualquer ponto de vista não-sectário, depois de nove anos no poder, com a maior inflação da América Latina, que as estatísticas oficiais caridosas cifram em 27%, quando os alimentos encareceram mais de 50% em 12 meses; uma insegurança cidadã que chega a 60 mortes violentas por 100 mil pessoas por ano - na Espanha são cerca de duas - e um formidável surto de corrupção pública, esse resultado é um sucesso.

O já histórico comentário do marginalizado de toda a vida, com toda a certeza negro, que diz que vota em Chávez porque "não quer voltar a ser invisível", continua correspondendo à realidade, depois de umas eleições com um grau de irregularidade não maior que na maioria dos países latino-americanos. Mas ocorre também que Chávez é seu pior inimigo. Ele fez da palavra uma forma de governo, e quase sempre em detrimento de seus interesses. Na campanha eleitoral ameaçou a oposição com todo tipo de violência se ousasse ganhar, porque assim acreditava que estava construindo um clima no qual a vitória não poderia lhe escapar; e igualmente advertiu que perder três governos seria uma derrota. O messianismo tem esses artifícios, que o homem supostamente providencial acredita que não pode perder se puser sua pessoa em jogo a cada sorteio eleitoral. Mas a Venezuela hoje não é uma ditadura e o povo também não vota hipnotizado.

Por que a oposição pode dizer que ganhou? Acontece que, como no advento da II República espanhola em 14 de abril de 1931, há votos que não são contados, mas pesados. O líder intelectual da oposição, Teodoro Petkoff, disse prudentemente que já seria um êxito se ganhassem em dois Estados a mais dos que tinham, Zulia, o centro nacional do petróleo, e Nueva Esparta; e além disso venceram em Miranda, Carabobo e Táchira. O primeiro é o mais populoso, com mais de 6,5 milhões dos 28 milhões de habitantes do país; o segundo é o mais industrializado; e Táchira é estratégico por fazer fronteira com a Colômbia.

A oposição também alcançou a prefeitura maior de Caracas, até agora nas mãos do governismo. E arrebatou ao poder a segunda prefeitura do país, Maracaibo, capital de Zulia. Nas áreas urbanas de maior desenvolvimento, onde a digestão política é mais elaborada, a oposição progride em bom ritmo, ao ponto de que governará nesses cinco Estados quase 45% da população.

Portanto, há uma Venezuela com uma massa crítica adepta da oposição; e outra, majoritária, muito mais das planícies, a ruralidade ainda por decolar economicamente, que continua crescendo no "socialismo do século 21".

E a grande pergunta é: como Chávez regurgitará sua vitória-derrota? O presidente pode esperar até o fim de seu mandato em 2012 para realizar um segundo referendo, que lhe conceda um poder virtualmente absoluto e facilmente prorrogável, como ele disse, até 2023, aniversário da vitória de Carabobo contra os espanhóis. A evolução do chavismo dissidente, que deixou claro nestas eleições que como força independente pode causar danos mas não ser decisivo, deveria contar para frustrar esse projeto.

Amalgamado à oposição como terceira força, pode chegar a ser imponente, mas como bandeira provincial não tem futuro. Mas quem sabe se esta é a oportunidade para que o presidente se acalme e deixe de odiar o silêncio, enfrentando Barack Obama e não mais seu boneco particular de pim-pam-pum, o presidente americano George W. Bush. Uma eleição em que todos foram vencedores e também derrotados pode ser o momento para a reflexão. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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