UOL Notícias Internacional
 

27/11/2008

O grau zero do "bushismo"

El País
Lluís Bassets
Não há dois presidentes dos EUA ao mesmo tempo, é verdade. É o que dizem os manuais sobre a transição presidencial e repete, de vez em quando, o presidente eleito, Barack Obama. O que ele não diz é que o titular em exercício está se desvanecendo da paisagem e que ele é o único que conta, embora ainda não tenha jurado a Constituição nem possa assinar ordens executivas. No papel, nada pode fazer o presidente eleito até 20 de janeiro, e a responsabilidade de tudo o que acontecer ainda é de George W. Bush. Mas as urgências da crise financeira, agora transformada em recessão, não permitem esperar. Menos ainda para um governo exausto, desautorizado diante da opinião pública pelos resultados eleitorais, lastreado por um balanço que não tem salvação alguma, por mais que se esforcem os escassos amigos que pretendem salvá-lo, como José María Aznar, e amarrado de pés e mãos durante seus últimos dias na Casa Branca.

Muito duras serão as oito semanas que restam para a posse solene do dia 20 de janeiro em Washington. O que está acontecendo nestes dias para Bush se parece mais com uma sessão de tortura refinada do que a tranqüilidade que corresponde a um final digno. Pode fazer muito pouco ou nada, mas ainda serão suas as culpas de tudo o que acontecer. Por enquanto, a atenção que recebe da mídia é decrescente em relação inversa à poderosa atração de Obama. Suas declarações e intervenções diante da mídia para ver se sossegam as turbulências na Bolsa produzem efeito contrário, enquanto as nomeações e pronunciamentos do presidente eleito são os únicos que produzem algum fator de tranqüilidade. A própria formação do gabinete de Obama é orientada para produzir uma função balsâmica em uma opinião pública alarmada até o pânico.

É uma equipe muito experiente, forte, na qual estarão juntos até quatro candidatos à presidência pelos democratas (Hillary Clinton, Bill Richardson, o vice-presidente Joe Biden e o próprio Barack Obama).

Muitos deles rodados na administração democrata anterior de Bill Clinton e todos mais que preparados para pôr mãos à obra quando entrarem em seus escritórios. Dois dos novos secretários, com pastas cruciais, já estão trabalhando no governo Bush, mas não cabe identificá-los com sua ideologia nem com a coalizão conservadora. O primeiro é Timothy Geithner, secretário do Tesouro já nomeado e atual presidente do Federal Reserve (Banco Central) de Nova York, que esteve trabalhando lado a lado com o atual secretário do Tesouro, Henry Paulson, e o presidente do Fed, Fred Bernanke, nos planos de salvamento financeiro das entidades em dificuldades e na injeção de liquidez na economia real. O outro é Robert Gates, secretário da Defesa com Bush que continuará sendo com Obama - foi quem substituiu há dois anos Donald Rumsfeld e introduziu o realismo e a sensatez na política militar, depois de participar da elaboração de um relatório do Congresso sobre a guerra do Iraque com fortes críticas ao atual presidente.

A partir de 20 de janeiro podem-se esperar novos pacotes de investimentos e anúncios em política de segurança e defesa (sobre Guantánamo, Iraque e Afeganistão), mas é claro que Obama já tem seus cordões presidenciais estendidos dentro do atual governo. Com a formação da nova equipe, ele não prepara somente sua posse a partir de 20 de janeiro, como está enchendo o éter de mensagens políticas. Primeira de todos: haverá um governo forte, preparado para governar e fazer sentir sua mão na economia e na sociedade. Assim desmente trinta 30 anos de dogma reaganiano: o governo não é o problema, é a solução.

Segunda mensagem: a economia é a prioridade absoluta. Desde 11 de novembro Obama deu quatro entrevistas coletivas pela televisão e uma mensagem radiofônica que foi publicada no YouTube. A economia ocupou o lugar central, muito à frente da quase esquecida guerra do Iraque, questão que agora provoca um novo e estranho consenso, facilitado por um governo em Bagdá que decididamente quer recuperar a plena soberania.

Terceira mensagem, também sutil, através de meios indiretos, mas compreendida por seus receptores como se houvesse cartazes nas ruas: com Obama os lobbies estarão sob vigilância. Todos os candidatos a entrar na faixa mais alta da administração têm de responder a um questionário muito rígido, no qual se exige o cumprimento de 63 requisitos que ninguém na Espanha poderia cumprir.

Quarta e última mensagem: que o Congresso se prepare, com dupla maioria democrata, porque a Casa Branca está se blindando para evitar que a lei do pêndulo transforme Obama em refém dos congressistas, o contrário do que Bush perseguiu e obteve até 2006. A presidência de George W. Bush chegou ao grau zero. A de Barack H. Obama ainda não começou, mas seu titular já está no comando da nave. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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