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28/11/2008

Novos ares, novas caras

El País
Carlos Mendo
Que o novo presidente eleito dos EUA tem um sólido preparo jurídico e intelectual está fora de qualquer dúvida. Columbia e, sobretudo, Harvard não costumam produzir medianias. Mas não creio que seu preparo cultural chegue a estar familiarizado com a figura do pensador catalão Eugeni D'Ors, um dos intelectuais espanhóis mais importantes do século 20, produtor inesgotável de anedotas e comentários ocorrentes.

No entanto, Barack Obama deveria. Porque quando se lê dia após dia a torrente de nomes anunciados ou por anunciar de sua nova equipe, vem imediatamente à memória a contestação de D'Ors ao jovem que quis fazer um experimento com uma garrafa de champanhe antiqüíssima e terminou derramado totalmente seu valioso conteúdo. "Jovem", disse o pensador, "os experimentos com água gasosa."

Apesar de sua constante cantilena ao longo de 21 meses de campanha sobre a mudança necessária em Washington, Obama não quis até agora utilizar a água gasosa e ficou com o champanhe.

Naturalmente, ninguém esperava que se cercasse em seu governo de rostos desconhecidos e sem currículo. Isso só ocorre com os governos, e as oposições, que querem experimentar com água gasosa dispensando a experiência e assim se vão logo. Mas sim, esperavam-se algumas mudanças de personalidades e de idéias. Essa mudança desejada que lhe deu a vitória eleitoral, perfeitamente resumida nos cartazes levados por seus partidários nos comícios de multidões, "Change" [Mudança] e "Yes, we can" [Sim, nós podemos].

Mas uma análise detida de suas primeiras nomeações nos faz recuar, como pouco, aos tempos do governo Clinton e a tempos anteriores. Joe Biden, o novo vice-presidente eleito, está no Senado de Washington há cerca de 30 anos. John Podesta, chefe da equipe de transição de Obama, foi diretor do gabinete da Casa Branca, um dos postos chaves no esquema presidencial americano, durante a presidência Clinton. Para esse cargo o presidente eleito nomeou o influente congressista Rahm Emmanuel, que também foi assessor de Clinton e que não se pode considerar exatamente um novato no complexo esquema político de Washington.

Continuemos. O novo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, até agora presidente do Banco Central em Nova York, também trabalhou para o Departamento do Tesouro no governo democrata. O novo diretor do Conselho Econômico Nacional, Lawrence Summers, foi o último secretário do tesouro de Clinton. E o octogenário Paul Volcker, novo assessor econômico principal do presidente eleito, desempenhou a presidência do Banco Central com dois presidentes, Jimmy Carter e Ronald Reagan.

Que ninguém se confunda. Todos os citados são primeiras figuras em seus respectivos campos. Mas não se pode dizer que representem essa mudança anunciada. Não são exatamente "outsiders". Todos, em maior ou menor medida, pertencem a esse establishment de Washington permanentemente fustigado por Obama (e por McCain) durante a campanha. São todas caras velhas, talvez com idéias novas até agora não natas. Daí a pergunta que na terça-feira um jornalista de Chicago dirigiu a Obama: "Onde está a mudança?" "Eu sou a mudança", foi a resposta direta do que logo se transformará no 44º presidente americano. Hábil resposta que não conseguiu remover as dúvidas que as nomeações começam a provocar.

Um jornal nada duvidoso de hostilidade em relação a Obama, o "New York Times", se pergunta na terça-feira se Geithner e Summers aprenderão com "seus erros passados". "Ambos tiveram (no passado) um papel central nas políticas que ajudaram a provocar a atual crise financeira." Summers, como secretário do Tesouro, defendeu a lei que desregulamentou os chamados "derivados, os instrumentos financeiros que ampliaram os prejuízos financeiros produzidos pelos empréstimos temerários em todo o mundo".

Os analistas lembram que Summers, Geithner e Peter Orzag, novo diretor do Departamento de Orçamento da Casa Branca, eram partidários entusiásticos das teorias econômicas postas em prática por Robert Rubin, outro secretário do Tesouro de Clinton, e que se resumiam em três princípios: orçamentos equilibrados, livre comércio e desregulamentação financeira. Exatamente o contrário do que Obama defendeu. Claro que aqui se pode aplicar perfeitamente a doutrina marxista (de Groucho, e não Karl): esses são meus princípios, mas se não gostarem tenho outros.

Isso para as nomeações anunciadas até ontem. Caso se confirmem as que circulam como certas, a mudança continuará sem aparecer nos postos chaves do novo governo. Hillary Clinton, Robert Gates - atual secretário da Defesa com George Bush -, Tom Daschle, o ex-líder democrata no Senado, e Bill Richardson, ex-embaixador de Clinton na ONU, não são exatamente recém-chegados à capital federal. Tarefa hercúlea para o novo presidente se, como disse na terça-feira em Chicago, pretende ser não só o timoneiro como também a tripulação do barco chamado Mudança. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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