UOL Notícias Internacional
 

30/11/2008

O luxo terá de esperar

El País
Elisa Silió
"É claro que a moda é um capricho efêmero e egoísta, mas em uma era tão sombria como a nossa o luxo deveria ser defendido palmo a palmo", declarou em 1957 à revista "Time" o estilista Christian Dior. Um título que hoje, com a queda da economia mundial, não seria bem recebido. A desvergonha com que se comportaram os que fizeram naufragar as Bolsas - depois de se garantir uma indenização mais que substanciosa, os chamados "pára-quedas de ouro" - causou um grande alvoroço público.

Escandaliza que Stanley O'Neal, presidente da arruinada Merrill Lynch, tenha cobrado da empresa US$ 357 mil em 2007 em gastos de avião e carro para uso particular, antes de abandonar o barco em outubro passado com US$ 161 milhões a mais em sua vultosa carteira. Ou que os diretores máximos da AIG tenham comemorado em um luxuoso hotel da Califórnia o resgate do Tesouro americano com uma sessão de tratamentos e massagens de 400 mil euros às custas dos contribuintes. Para não falar nas críticas que despertaram os executivos da General Motors, Ford e Chrysler, à beira da bancarrota, que foram à reunião no Capitólio solicitar ajudas em avião particular, e não em linhas comerciais.

A uma fábrica em risco de quebrar, o dono não pode chegar na última Maseratti. Não é o momento de fazer ostentação quando milhões têm de fazer grandes esforços para chegar ao fim do mês. Por isso os gestos se encadeiam. O estilista Marc Jacobs, acostumado a dar uma festa todos os anos para 800 pessoas no Rockefeller Center, cancelou a de 2008 "devido ao clima financeiro". Ou, em Barcelona, no baile beneficente Gala Austria - a 180 euros o convite -, as mulheres, mais discretas, decidiram não usar suas melhores jóias. Não procede.

Os ricos de sempre consomem o luxo com prudência, conscientes de que é politicamente incorreto; para as fortunas surgidas do boom imobiliário ou da especulação na Bolsa, faz meses que as contas não fecham, e não compram impulsivamente; e a classe média-alta, que se permitia algum capricho, hoje decide poupar um pouco. Assim, no Ocidente e no Japão, o luxo extremo parece ser o único que não se abala.

Este ano o consumo de luxo aumentará 3% - contra 9% em 2006 e 6,5% em 2007 - e entrará em recessão em 2009, segundo o sétimo Estudo de Mercado de Bens de Luxo, realizado pela Bain & Company. No próximo ano as vendas globais desses bens baixarão 7% a uma taxa de câmbio constante e 2% a uma taxa de câmbio corrente. Entre as marcas mais afetadas estarão Ralph Lauren e Coach, enquanto Gucci ou Louis Vuitton se manterão estáveis, segundo o relatório.

Há um ano o mercado de luxo na Espanha experimentava um crescimento entre 15% e 20%. Atraídas pelos cantos de sereia. muitas grandes firmas - Tiffany, Marc Jacobs ou Óscar de la Renta em Madri e Bulgari ou Hermès em Barcelona - planejaram inaugurar sucursais no país. Sua abertura coincide hoje com o cataclismo das Bolsas no mundo, e reina o desconcerto. "Os planos de abrir uma loja são feitos com cinco anos, aluga-se com tempo o local e se adquirem compromissos. Não se pode adiar", explica Susana Campuzano, diretora do Programa Superior de Gestão de Empresas de Luxo do IE Business School. "Estudos internacionais indicam que a Espanha gosta de luxo - não como os nórdicos, que o rejeitam -, mas nos parece que é para os outros. Não houve uma cultura do perfume ou de investir em cremes", continua.

Mas sem dúvida o setor mais abalado está sendo o automobilístico. De janeiro a maio, vendeu cerca de 30% menos Porsches ou Lexus e nenhum Lamborghini, diante dos cinco no mesmo período de 2007, segundo a Associação Espanhola de Fabricantes de Automóveis e Caminhões. Enquanto a apresentação mundial de novos modelos de Volvo ou Chrysler está sendo adiada, a frota de autos de luxo de segunda-mão não pára de crescer. Os donos dos todo-terrenos - muitos nas mãos de reis do cimento - têm dificuldades para enfrentar seu alto consumo de gasolina ou pagar seu seguro. "Os gastos mensais de um carro de luxo são entre 20% e 30% maiores que os de um de linha média", contabiliza o diretor-geral da Auto Scout24, Gerardo Cabañas.

"Havia gente de classe média-alta que deixava meio salário em minha loja de roupa. Hoje há dias em que não entram mais que cinco pessoas. Se continuar assim, e altos como estão os aluguéis nos bairros de luxo, teremos de fechar", conta o dono de uma butique de Madri que vende várias marcas exclusivas. No entanto, paralelamente entraram no mercado espanhol várias revistas sofisticadas (Robb Report, Per se, Revista GP Millionaire, Special Class BCN), constituiu-se o primeiro holding de empresas de luxo - o grupo AB Diseño y Moda - e uma iniciativa de capital de risco na medida do mundo da moda espanhola, Brand Capital Made in Spain.

"Quando nos velhos tempos as marcas de artigos de luxo eram empresas de propriedade privada, os proprietários se preocupavam em obter benefícios, mas o objetivo principal da casa era produzir os melhores artigos possíveis", lembra a correspondente da revista "Newsweek" Dana Thomas, em seu livro "Deluxe - Cuando el lujo perdió su esplendor" (Ediciones Urano, 2008). "Hoje se colecionam como cromos, são exibidos como objetos de arte e são empunhados como ícones. Se desviou o foco do que é o produto que ele representa."

"As marcas mais internacionais e diversificadas serão as mais resistentes", aponta Claudia D'Arpizio, autora do estudo da Bain & Company. O Japão (12% do mercado) já entrou em recessão e perderá este ano 7% das vendas; a Europa (38% do mercado) avança 5% em 2008 empurrada pelos países do leste, e os EUA estagnaram, como após o 11 de Setembro, pelo alto valor do euro e as "subprime". A previsível alta do dólar e do iene favoreceria o mercado desses países em 2009.

"É impossível prever o que acontecerá", diz Pedro Nueno, professor do IESE. "Rússia e China podem compensar as perdas em outros mercados. Os dois estão se abrindo a um ritmo brutal e têm sociedades tremendamente consumistas." Sofrerão, ele diz, "as empresas muito locais, e não as casas de moda com muitas licenças. E aquelas marcas que ainda não são conhecidas nos países emergentes e que querem se estabelecer".

"O luxo cresce o quanto quiser servindo-se da imagem, mas quando vem uma crise o atordoa no que não lhe corresponde. Por isso na Hermès ou na alta relojoaria suíça, que têm fila porque há mais demanda que oferta, não notam a crise", raciocina Campuzano, também diretora da empresa Luxury Advice. "Cinqüenta por cento dos compradores são o que se chama de excursionistas - consomem entre um e três produtos por ano - e esses desaparecem em momentos como este."

Em tempos revoltos também há quem, desconfiando dos bancos, afirme que é preciso esvaziar as contas e esbanjar. "Muitos decepcionados com seus assessores financeiros que viram desaparecer parte de seus fundos decidiram gastar mais que nunca", declarou Klaas Simon Obma, um dos responsáveis pela Feira para Milionários de Munique, que foi visitada em outubro passado por 20 mil pessoas. Mais exclusivo foi em maio (antes do colapso) o primeiro Luxury Market realizado na Espanha, com o castelo de Peralada como cenário, do qual participaram 40 expositores e 1.800 clientes. "Não queremos fazer um show, mas um evento exclusivo e cumprimos as expectativas. Até se vendeu maquinário de ginástica de ouro. De fato, vamos crescer. O rico de sempre não é afetado pela crise e inclusive está reativando dinheiro que estava nos bancos", afirma Juan Maiz, sócio da feira. Na Iberjoya, pelo contrário, os expositores reconheceram ter reduzido os custos ao incluir menos pedras preciosas e de menor tamanho.

"Quando se percebe um risco social, físico ou econômico sempre afeta o consumo. Não sei se é uma estratégia de marketing ou uma realidade quando as marcas dizem que não se ressentem da crise", diz María Justina March, professora de psicossociologia do consumo na Universidade de Elche. "Há 50 anos na Espanha as pessoas lutavam para sobreviver. Hoje se orientam para o desejo. Se alguém não pode comprar a bolsa cara, compra a imitação", diz sua colega Ana Martínez, da Universidade Rey Juan Carlos I de Madri.

A empresa Look and Stop aluga hoje 38% mais bolsas exclusivas do que em janeiro, e as vendas diminuíram um pouco. Além disso, há seis meses implementou a compra desses acessórios de suas clientes está sendo um sucesso. "Não é um 'quero e não posso'. São mulheres que estão preocupadas com o dinheiro e que preferem alugar uma bolsa da moda de 1.500 euros por um mês a 150 euros. Elas sabem que vão se cansar." O aluguel de jóias também subiu, como o depósito de penhores na Caja España, que aumentou 17% em 2008.

Os que nunca empenharão suas jóias são os clientes da catalã Alberta La Grup. "São gente com casas por meio mundo que foram afetadas pela crise na Bolsa mas não em seu modo de vida", conta Lourdes Carbó. Sua agência organiza para essas famílias mudanças, presentes de Natal ou a busca de um mordomo por honorários que vão de 1.200 a 3.500 euros mensais. Carbó só lembra como excepcional de uns pais que pediram presentes menos espetaculares para o aniversário de seu filho, com o objetivo de que ele tome consciência da crise. "O que baixou em 20% ou 30% foram os serviços para empresas. Se cortam orçamentos, todos notamos", acrescenta.

O aluguel de aviões particulares também está em baixa. Quando se impõem diretas aos empregados, a diretoria deve dar o exemplo e viajar em vôos comerciais. Por isso na Taxijet, companhia mais barata e menos luxuosa, que começará a operar em março, estão surpresos com a resposta positiva. Nas limusines se dá a tendência contrária, mas são contratadas por menos tempo.

O estilista Tom Ford prevê maus tempos: "Aqui no Ocidente estamos acabados, nosso momento chegou e passou... É o início do renascimento de culturas que historicamente adoraram o luxo e não puderam mantê-lo por muito tempo". É questão de confiança. Uma executiva de Hong Kong é capaz de gastar quase todo o salário em uma bolsa, convencida de que não vão lhe faltar oportunidades. Quem faria isso em Nova York ou Madri? A crise afeta produtos suntuosos e obriga os ricos a esconder o exibicionismo Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,84
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,35
    68.594,30
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host