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01/12/2008

"Meu passado me dá medo"

El País
G. Altares/C. Geli, Frankfurt
"Uns nove ou dez por ano". Esses números são, é claro, as vendas em milhões de exemplares, diz Mónica Antunes, a Bruxa de Barcelona, como é conhecida por metade do mundo editorial aterrorizado que precisa tratar com ela.

Ela é a dura agente do escritor Paulo Coelho (Rio de Janeiro, 1947), estrela literária da Feira de Frankfurt que aconteceu no mês passado.

A festa literária convidou-o a dar uma palestra inaugural, onde ele recebeu a homenagem de meia centena de editores (numa festa muito comentada, com 400 convidados e o autor cantando junto com Gilberto Gil) depois de alcançar os 100 milhões de livros vendidos.

"Bom, isso foi em outubro passado: agora já são quase 110", diz sem nenhuma pretensão Mónica Antunes, responsável pela agência San Jordi Associados, que trabalha exclusivamente para o universo de Coelho.

Coelho cumpre com o ritual: apareceu vestido rigorosamente de preto de cima a baixo, o que levaria a pensar num uniforme de sacerdócio, se não fosse por sua gesticulação e um brilho de diabrete nos olhos.

Ele transmite uma grande tranqüilidade ou confiança em si mesmo. Coisa que ele deve ter, porque se não fosse assim não teria dado a chave do baú de sua vida ao jornalista brasileiro Fernando Morais para que ele tirasse de lá 170 cadernos manuscritos e 94 CDs em que o escritor notoriamente relatou sua vida desde que tinha 12 anos até 1995.

O fruto disso foi a volumosa biografia (com mais de 600 páginas) "O Mago", vendido já para 21 idiomas e que a editora Planeta distribui esses dias nas livrarias espanholas.

O livro é uma bomba. A vida de Coelho foi um branco e preto, um yin e yang constante: nasceu quase morto por causa de problemas com o líquido amniótico e suas fezes; desde pequeno organizou seitas secretas; foi um desastre total como estudante; quase matou um jovem atropelando-o ao dirigir sem carteira e depois fugir; esse episódio acabou deteriorando ainda mais as relações com seus pais, que o levaram a um manicômio em que ele esteve três vezes durante a juventude e onde foi tratado com eletrochoque. Antes disso, tentou suicidar-se com gás.

E para acalmar o que ele chamava de "anjo da morte", por não ter conseguido se matar, degolou uma cabra de um vizinho num ritual particular.

A descida ao inferno foi vertiginosa: apagou um cigarro na perna de uma de suas múltiplas, simultâneas e belas namoradas para ter certeza de que ela gostava dele; outra, seguindo a teoria da "cura pelo desespero", incentivou-o a se suicidar porque, afinal, disse que sabia que ele não o faria...

Teve sua época de teatrólogo mal sucedido, de hippie, de usuário de todas as drogas possíveis e de praticante homossexual para descartar a inclinação.

E em seu enésimo episódio de desespero voltou-se para a magia e se converteu em fiel seguidor dos ensinamentos de Aleister Crowley e do satanismo, até chegar ao extremo de ter um jovem escravo.

Detido por supostas atividades políticas extremistas, e depois de alcançar uma certa estabilidade compondo canções para artistas, fez o famoso Caminho de Santiago aos 39 anos, onde, numa epifania, decidiu fazer o que almejava desde os 13 anos:

ser escritor. Desde então, veio fama sem fim e uma vida bem diferente.

"Li o original em maio passado e minha mulher chorou até o fim. 'Você sofreu muito', ela disse; eu, na verdade, não lembrava de muitas coisas, mas não acredito que sofri: quando alguém está lutando, não sofre". Hoje, ele admite que aquela etapa de sua vida foi excessiva:

"Sim, meu passado me dá medo: cheguei muito perto do limite de muitas coisas e ainda arrastava outras pessoas comigo". Por que deixar vir à luz esse passado obscuro de um escritor que hoje é adorado? "Teriam acabado sabendo da mesma forma. Não tinha sentido esconder: é a minha vida. No fim das contas, eu saí disso, portanto venci".

Também se cumpriu uma de suas premissas: todo dia, na vida de uma pessoa, existe um momento para mudar: "Não há outra virtude na vida a não ser a coragem. Não há ninguém que não veja sua oportunidade na vida; a mudança está aí. O que acontece é que entre esse momento e a capacidade de mudar há uma separação de 200 oceanos", diz.

Ele também usa o número 200 para tentar quantificar as razões que explicam seu sucesso, mas seriam todas falsas. "Não sei, de verdade, acredita?"

Talvez a perda dos valores da sociedade tenha facilitado seu discurso? "Não escrevo sobre espiritualidade; em todo caso, a tempestade vem chegando, desde pouco antes da 1ª Guerra Mundial; a desorientação da sociedade hoje é total. Onde está a alegria de viver?

Estamos numa época em que as pessoas estão totalmente controladas, vigiadas e entediadas". A crise que estamos vivendo será capaz de purificar? "A sociedade não vai aprender nada com essa crise econômica porque as autoridades intervieram muito rapidamente, a Bolsa teria que cair mais ainda para encontrarmos outra saída, dessa forma, apenas voltaremos a cair mais cedo do que tarde".

A intransigência reinante é conseqüência desse estado, segundo Coelho:
'Estamos cercados por todo tipo de fundamentalismo. Atenção ao que pode ocorrer nos EUA agora que Obama ganhou, porque boa parte de seu país não o quer por ele ser negro: a violência física pode reaparecer".

Ele também critica o papa atual: "Sou católico, praticante e pecador, mas esse papa é um desastre: está sempre com seus dogmas religiosos e se intrometendo em temas políticos; é bastante culpado do fundamentalismo católico reinante", diz.

Com 18 livros publicados, traduzidos em 67 línguas em 160 países, o autor de "O Alquimista" pode se permitir quase tudo no mundo do livro.
Como por exemplo dizer "sou um pirata de mim mesmo" e defender, com um discurso que deixou estupefatos os responsáveis pela feira, a liberdade de direitos autorais que ele pratica: em seu site é possível baixar alguns de seus títulos.

Em seu caso, como em sua vida, deve haver magia: cada livro oferecido assim acaba logo sendo dez vezes mais vendido no papel. Ou cem, ou mil. "Não sabemos o que acontece além da curva do rio da vida; essa é a beleza do nosso mundo; é possível que ele vá com uma corrente que hoje o setor editorial não saiba ou não queira saber que existe, mas o leitor não é mais passivo e não podemos continuar agindo da mesma forma agora que existe a internet, a menos que queiramos que aconteça com o livro o mesmo que aconteceu com a música ou o cinema", argumenta Coelho, que dedica três horas diárias para navegar pela rede.

E os editores entendem a jogada? "Não pergunto aos editores, não costumo fazê-lo".

Um dos maiores sonhos de Coelho agora é retirar-se três meses num monastério ("mas com internet") ou voar em um avião supersônico ("a aeronáutica canadense e espanhola já me ofereceram a possibilidade").

De novo, a dicotomia de Coelho. "Sou contraditório, mas isso deveria ser inerente ao ser humano; sem confronto não há evolução; a chave nesta vida está em desejar muito alguma coisa, mas cuidado, porque o universo é amoral; funciona com você ou com a sua deserção".

Para o ano que vem Coelho prepara "O vencedor está só", e será lançada a versão cinematográfica de "Verônica quer morrer". Coelho é feliz?
"Depende, há momentos, mas talvez esteja mais contente que feliz; isso sim, eu durmo bem".
Eloise De Vylder

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