UOL Notícias Internacional
 

03/12/2008

Opinião: a retirada do Iraque

El País
M. A. Bastenier
O acordo para a retirada das forças norte-americanas do Iraque, que muitos acreditavam que serviria para garantir a permanência de um exército de ocupação no país, parece, ao contrário, um triunfo do nacionalismo árabe. O primeiro-ministro xiita Nuri al Maliki, considerado uma marionete por grande parte da esquerda mundial, surpreendeu. Ainda permanecem, entretanto, alguns pontos em aberto no caminho para um Iraque verdadeiramente independente.

Os pontos importantes do acordo: 1. Até o final de 2011, todas as tropas, todas, deverão ter retornado aos EUA. O presidente eleito Barack Obama previa isso para 2010, mas com certeza poderá conviver com essa data, ainda que houvesse preferido deixar um contingente para treinamento do exército iraquiano. 2. Até final de junho de 2009, as tropas de primeira linha terão que abandonar os núcleos urbanos, e permanecer nas 200 bases ou acampamentos norte-americanos espalhados pelo território. 3. Os mercenários ou auxiliares contratados estarão sob jurisdição iraquiana e não dos Estados Unidos. 4. Da mesma forma, os delitos "graves" cometidos pelas tropas norte-americanas serão julgados em tribunais locais, ainda que não esteja definido o que é um delito "grave". 5. As operações militares do ocupante deverão ser autorizadas por Bagdá. 6. O Iraque não poderá ser utilizado como base para lançar operações contra outros países; Washington não poderá atacar a Síria - como já fez - nem o Irã - como era provável que fizesse.

Essas limitações, tão distantes dos planos do presidente Bush, que defendia um Iraque fortemente ligado à política dos Estados Unidos, foram aceitas por Washington por uma série de razões. 1. A maioria em peso da opinião pública iraquiana é a favor da política "yankee, go home" ["americanos, vão para casa"]. 2. A queda radical no número de baixas americanas - apesar somarem 4.300 mortos e mais de 40 mil feridos - e uma queda menos acentuada nas baixas entre os iraquianos, o que se deve, apesar de todas as notícias sobre a nova estratégia de combate norte-americana, ao recrutamento de um exército de 100 mil sunitas, que cobram entre 300 e 500 dólares mensais para combater a Al Qaeda; operação e gasto que Washington poderia, entretanto, ter evitado se o primeiro pré-consul, Paul Bremer, não tivesse desmantelado o exército de Sadam Husseim, ao qual pertencia a maioria dos que hoje são chamados "Filhos do Iraque". 3. Iraque, Afeganistão e Paquistão funcionam hoje como vasos comunicantes da insurreição terrorista, e parte dos efetivos da Al Qaeda escolheu pastos mais verdes para sua luta. 4. A bancarrota geral da política norte-americana, arrematada pela derrota de John McCain nas eleições presidenciais, permitiu a consolidação de um governo com excelentes relações em Bagdá, ainda que não submetido ao Irã, o demônio de Washington no Oriente Médio.

Os pontos em aberto. 1. Uma força residual norte-americana poderá permanecer se o governo iraquiano achar necessário "por razões estratégicas"; ou seja, dependendo de como estará a guerra; assim como está prevista uma cooperação futura para combater a "ameaça terrorista", o que poderia servir ao mesmo fim. O Pentágono esperava, entretanto, fazer sua própria interpretação de ambas as situações. 3.
Um referendo deverá aprovar o acordo em julho de 2009 para que ele possa entrar plenamente em vigor, isso exige que em junho as tropas norte-americanas já estejam fora da vista da população, de acordo com o que foi determinado agora. Mas também é possível que Al Maliki aplique essas previsões em favor de algum tipo de permanência norte-americana, sobretudo se sentir-se fortalecido diante do nacionalismo iraquiano mais intransigente das milícias xiitas de Muktada al Sadr, que querem todos fora o quanto antes.

O que os Estados Unidos farão com uma embaixada tão grande quanto o Vaticano, com capacidade para mil funcionários, com restaurantes, cinemas, "shoppings", campos de esportes, toda uma "Disneylândia"
militar do "way of life" ["estilo de vida"] americano? Ou com suas 14 mega-bases, das quais duas se encontram entre as maiores de Washington no mundo inteiro?

Os britânicos receberam da Liga das Nações o mandato sobre o Iraque em 1922; em 1930, concederam ao país uma independência que lhes permitia tudo o que Bush queria manter e mais; naquela época a força colonial teve que reprimir dezenas de insurreições, e não foi totalmente repatriada até a derrubada e o assassinato em massa da família real em julho de 1958. O domínio britânico durou quase 40 anos. Se as decisões que o parlamento iraquiano ratificou se mantiverem, os herdeiros da Pax Britannica terão agüentado muito menos. Eloise De Vylder

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