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05/12/2008

Boliviano atravessa as Américas para se alistar no exército norte-americano

El País
Ramón Lobo
Em Bagdá
A vida de Víctor Hugo Rodríguez Guarache é uma história de esperança.
Nasceu há 31 anos em La Paz, mas agora luta no Iraque sob uma bandeira que ainda não é a sua; mas será em fevereiro, quando voltar para casa. Fugiu da pobreza aos 19 anos com 20 dólares no bolso, cruzou dez países numa viagem de cinco meses na qual atravessou a região de Darien, área selvagem entre a Colômbia e o Panamá, infestada de armas e narcotraficantes. Descarregou caminhões em troca de transporte, lavou pratos por comida e caminhou até chegar, sem papéis, no Texas em outubro de 1997. Todos os dias, ele sai para patrulhar Ahdamiya. "Há algumas semanas morreram dois rapazes da nossa base. Isso impressiona muito. Em pensar que todas as armas e proteção que temos não servem para nada. Aqui, o perigo são os franco-atiradores".

A vida de Rodríguez sofreu uma reviravolta aos 11 anos, quando sua mãe morreu. A família (o pai, que começou a beber, e quatro filhos) passou da pobreza à miséria. "Trabalhei engraxando sapatos e anunciando itinerários de ônibus. Tirava o equivalente a um dólar por dia para comprar arroz e milho. Fiquei assim até os 15".

Ele se lembra de sua primeira namorada, que o incentivou a fugir. "Um dia, quando ela passeava com seus pais, eles me surpreenderam engraxando sapatos. O pai ficou decepcionado com o fato de que o namorado da filha era pobre. Isso me pareceu ruim, porque meus irmãos dependiam de mim. Os pais a enviaram para a Espanha para que ela me tirasse da cabeça. Ela se chamava Noelia Sánchez. Gostaria de saber o que aconteceu com ela". O empurrão definitivo foi dado por um programa de televisão dois anos depois. "Apareceu um mexicano que ganhava 14 dólares por hora em um rancho nos EUA. Eu, que ganhava 20 por mês, disse a mim mesmo: "tenho de chegar ali, seja como for".

Aproveitou uma viagem do pai, deixou 20 dólares para seus irmãos e levou outros 20, mochila e passaporte com a idéia de alcançar o México em três semanas. "O sistema era simples: oferecia aos caminhoneiros ajuda para carregar em troca de transporte. Foi assim que cruzei o Peru e cheguei ao Equador. Trabalhava para comer e viajar. Entrei na Colômbia pela cidade de Pasto dizendo que ia tentar uma vaga na universidade. Cheguei a Cali. Perguntei pelos ônibus para o Panamá.
Explicaram que não havia estradas na região de Darien e me recomendaram ir para Medellín. Já estava viajando há três semanas, só tinha mais cinco dólares e ainda estava muito longe do México".

Uma mulher lhe falou sobre Turbo, de onde partiam barcos para o Panamá. Ele se ofereceu para descarregar caminhões em troca de passagem, mas ninguém quis arriscar a licença para levar um imigrante ilegal. Conheceu também duas pessoas, o colombiano Víctor Andrés, que havia fracassado em seus negócios, e o brasileiro Adriano, que sonhava em chegar aos Estados Unidos.

"A única opção era uma trilha", diz Rodríguez. "Que depois de sete dias levava aos indígenas que ajudavam a cruzar a fronteira. Já havia passado mais de um mês. Víctor Andrés me dizia que eu estava lutando pelo meu futuro: "Nunca desista sem ter tentado". Saíram da aldeia da Festa da Tartaruga e partiram para a selva. "A princípio havia uma pequena trilha. Depois de quatro dias, ela desapareceu. Tivemos que abrir caminho com as mãos. Ainda tenho cicatrizes nos braços".

No sétimo dia descobriram um rio. "Seguimos o rio porque onde existem rios, há pessoas morando e é possível chegar ao mar". Organizaram-se: Rodríguez, o mais jovem, ia à frente, inspecionando as curvas do rio, com água pela cintura. "Nessa tarde, quando andava pelas curvas, escutei disparos. Escondi-me debaixo de uns galhos e vi as mochilas de meus amigos passarem flutuando. Houve mais disparos e gritos. Não me mexi até de noite. Não sei o que aconteceu com eles. Deus queira queestejam vivos".

Ao final de dois dias, Rodríguez encontrou outra trilha que o levou aos índios. Deram-lhe comida e abrigo por uma noite. No dia seguinte, cruzou outro rio. "Tinha feridas nos pés e cabelo comprido. Um policial panamenho pediu meus papéis e respondi com um grito, Ahhhh!, imitando os índios. O policial falou: 'Não sei pra que esses índios de merda querem ir para a cidade', e me deixou em paz. Trabalhei distribuindo suco de laranja e chicheme [bebida panamenha à base de milho]". Sem o passaporte, que deixou na Colômbia, cruzou a América Central até Cidade Hidalgo, no México. Cansado de andar, comprou uma passagem de ônibus com destino ao Distrito Federal. Pediu para sentar-se na janela e ao lado de uma mulher. "Eu tinha cadernos nos quais eu escrevia sobre a viagem. Sentei-me, rezei para a minha mãe e fingi que dormia. Policiais subiram três vezes no ônibus e fizeram duas pessoas descer. Mas não me acordaram. Foi milagroso". Trabalhou num mercado e se mudou para Monterrey onde conseguiu um emprego de vendedor de panelas e outro de torneiro e conseguiu juntar 400 dólares.

"Já estava me acostumando ao dinheiro, mas meu objetivo não era o México. Fui para Tamaulipas onde encontrei um homem que cobrou 200 dólares para me ajudar a cruzar a fronteira. Ele me deixou no rio, de cuecas, e foi embora com minha roupa. Do outro lado, estava a polícia americana. Deram-me uma roupa e me devolveram, mas eu havia aprendido o caminho, já não precisava do homem. Cruzei sozinho. Havia saído da Bolívia em junho de 1997 e cheguei a Benito, Texas, no final de outubro. Eu me conformava em juntar 5 mil dólares, voltar, comprar um carro e trabalhar de taxista".

Em Nova York, encontrou emprego na construção. Pagavam a ele 29 dólares por hora. Conheceu Elena, boliviana que tinha visto de residência. Casaram-se em 2000. Eles têm duas filhas, Emely de cinco anos, e Mariel de três. "Meu sonho era ir para a universidade e ser jornalista, por isso estou no Exército, mas não podia me inscrever sem ter a residência. Quando a consegui em 2006, passei três meses na Bolívia e depois me alistei. Depois do treinamento, fui enviado ao Iraque. Em fevereiro voltaremos para o Colorado. Morarei na base. Para mim, os EUA têm sido a terra da oportunidade. Algum dia gostaria de fazer o caminho de volta e agradecer a todos os que me ajudaram e dizer que estou vivo". O soldado Rodríguez Guarache cruzou dez países numa viagem de cinco meses para entrar ilegalmente nos Estados Unidos e agora serve o exército americano no Iraque para conseguir a nacionalidade Eloise De Vylder

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