UOL Notícias Internacional
 

09/12/2008

Taleban reconquistam o Afeganistão

El País
Walter Oppenheimer
Em Londres
A crescente influência do movimento taleban faz temer que eles possam voltar a conquistar o poder no Afeganistão, do qual foram expulsos em 2001 depois de uma invasão liderada pelos EUA. Segundo um relatório que será divulgado hoje pelo Conselho Internacional de Segurança e Desenvolvimento (Icos na sigla em inglês), os taleban aumentaram seu poder consideravelmente no último ano e já têm "presença permanente" em 72% do Afeganistão, contra 54% em novembro do ano passado.

"A conclusão deprimente é que, apesar das enormes injeções de capital internacional que fluem para esse país e apesar do enorme desejo de ter êxito no Afeganistão, o Estado está novamente em sério perigo de cair nas mãos dos taleban", salienta o relatório. O Icos, antes conhecido como The Senlis Council, é um centro de estudos especializado em programas de segurança global, com escritórios em Londres, Paris, Bruxelas e Rio de Janeiro e plataformas de pesquisa no Afeganistão, Iraque e Somália. No passado se destacou por sua agressiva campanha em defesa de canalizar a produção de ópio afegão para a medicina e contra a erradicação forçosa desses cultivos.

Seu último relatório sobre a situação no Afeganistão destaca que os esforços para a reconstrução econômica do país "não conseguiram ter impacto nas condições de vida das comunidades locais" e que "a atual insurgência, dividida entre um grande componente de comunidades rurais fundamentalmente motivadas pela pobreza e um grupo concentrado de militantes islâmicos radicalizados, está ganhando impulso, complicando ainda mais o processo de reconstrução e desenvolvimento e sabotando na prática a missão de estabilização da Otan-Isaf [sigla em inglês da Força Internacional de Assistência à Segurança] no país".

"Enquanto a comunidade internacional não expandir seu centro de atenção além das dimensões militares tradicionais, concentrando-se nas necessidades das comunidades rurais e restabelecendo assim seus níveis de apoio anteriores, existe o perigo de que os taleban acabem simplesmente infestando o Afeganistão sob o nariz da Otan", afirma o relatório do Icos.

Os taleban começaram a se reagrupar em 2004 e desde então foram estendendo sua presença. Esta continua especialmente relevante no sul do país, graças tanto ao seu domínio da propaganda e sua capacidade de se apresentar como uma alternativa ao poder local como pelos erros cometidos pelas forças americanas e da Otan. Entre os erros mais graves citados pelo relatório estão os bombardeios aéreos, que causam numerosas vítimas civis, e a erradicação dos campos de ópio, que prejudicam os agricultores locais.

E, sobretudo, o equívoco do presidente americano, George W. Bush, de acreditar que "quando os afegãos comuns perceberem a superioridade do modelo de democracia ocidental e os benefícios desse sistema fluírem por cada esquina do país, o domínio dos taleban será arrastado para as margens da história".

O aumento do poder taleban significa que atualmente têm uma presença permanente e tornam ingovernável 72% do território do Afeganistão, com uma presença substancial em outros 21%. Só nos 7% restantes se pode considerar que sua presença é baixa. O mapa dessa presença foi elaborado combinando os dados de ataques rebeldes e as percepções dos moradores locais.

Essa presença também está aumentando na capital, Cabul, com ataques a alvos de alto valor simbólico, como hotéis e embaixadas, e a introdução do sistema de seqüestro de ocidentais ou seu assassinato. Fora de Cabul, o ataque mais importante foi o que ocorreu em junho passado na prisão de Kandahar, que se transformou em um valioso fator de propaganda para o movimento.

O Icos salienta que "através de uma sofisticada série de ataques terroristas táticos e de uma complexa rede de inteligência", os taleban conseguiram desestabilizar diversas áreas do país e estão começando a ganhar também a guerra da propaganda, o que os anglo-saxões chamam de "a batalha das mentes e corações". "A comunidade internacional não conseguiu dar importância suficiente às necessidades e aos desejos da população afegã e isso se transformou em um fator chave da crescente popularidade dos insurgentes", afirma o Icos.

A lista dos erros aliados é longa. A política agressiva antinarcóticos levou os afegãos a associar a comunidade internacional com a perda de seu meio de vida, e nas regiões em que se mantêm as plantações estão ajudando os taleban a se financiar. A ajuda humanitária não chega a seus destinatários e os taleban aproveitaram para se apresentar como autoridade legítima diante dos que se sentem abandonados pelas forças estrangeiras.

A morte de civis nos bombardeios aliados beneficiou os taleban. Estes também estão aproveitando a dificuldade dos aliados para combater sua guerra de guerrilhas com um exército convencional. Os aliados não se atrevem a entrar nos santuários taleban e na fronteira com o Paquistão. Por último, as divisões entre os membros da Otan reforçam o moral dos taleban. Os radicais islâmicos já têm presença permanente em 72% do território Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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