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10/12/2008

O cardeal obediente

El País
Lola Galán
Luzes natalinas enfeitam a Calle del Arco de Palacio, quase na altura do portão de entrada do palácio arquiepiscopal em Toledo. No primeiro andar do edifício, onde se situam os escritórios administrativos da cúria local, trabalha-se febrilmente. Secretárias, auxiliares e telefonistas cuidam, sob as ordens do vigário geral Juan Miguel Ferrer, dos últimos detalhes da inauguração do arquivo arquiepiscopal, prevista para depois de amanhã. Tornar o arquivo acessível foi um dos compromissos contraídos há seis anos pelo titular da sede, o arcebispo Antonio Cañizares Llovera, valenciano de 63 anos.

O cardeal primaz da Espanha não está em Toledo nestes dias. E mesmo que estivesse é improvável que pudesse atender à jornalista. Sua agenda está lotada. Há uma lista de espera de meses para os que querem uma entrevista com Sua Eminência, que não pára, apesar da saúde frágil. Visitas pastorais às paróquias da diocese nos fins de semana, atos religiosos e sociais dia sim, dia não, homilias e conferências para redigir todas as noites; sem falar na viagem obrigatória a Roma uma vez por mês para assistir às reuniões da Congregação da Doutrina da Fé, à qual pertence há 13 anos.

Nem seus colaboradores acertam ao explicar como ele é capaz de manter semelhante ritmo. O cardeal é disciplinado, isso sim. Faz passeios pelo pátio interno do palácio arquiepiscopal e inclusive mandou instalar uma bicicleta ergométrica. E cumpre os conselhos médicos ao pé da letra: segue sem reclamar uma dieta que o privou de chocolate e cerveja, dois de seus prazeres gastronômicos.

Nesta semana visitou a prelatura de Perú, mantida com fundos da gigantesca e despovoada diocese de Toledo (que engloba parte da Extremadura: ao todo, cerca de 600 mil fiéis). Mas chegará em tempo de presidir à inauguração e, é claro, aos atos solenes do calendário litúrgico de Natal. Com certeza quase total, será seu último Natal como arcebispo desta cidade. O cardeal vai para Roma. No edifício das Congregações (ministérios do Vaticano), que dá para a Praça de Pio XII, a ante-sala da de São Pedro no Vaticano, o espera um escritório sóbrio, um pouco triste, apesar da última reforma.

O vigário Ferrer não diz nada, mas é um segredo sabido que Antonio Cañizares, o mais jovem dos dez cardeais espanhóis e um dos que mais batalharam contra as leis socialistas na última legislatura (casamento gay, divórcio rápido, ensino de religião opcional, ensino de Educação para a Cidadania), é o homem escolhido pelo papa para representar a Espanha no mais alto nível em uma cúria romana desprovida ultimamente de purpurados espanhóis.

De estatura pequena - seus inimigos o chamam de Sua Miudeza -, magro, com o cabelo branco e um ar de avô bondoso, Cañizares se transformou em um dos principais baluartes do catolicismo mais conservador na Espanha. Nas palavras de seu amigo Enrique Luján, ex-prefeito popular de Utiel, onde o cardeal nasceu em 15 de outubro de 1945, "é um homem que fala claro, não é ambíguo".

O arcebispo de Toledo não tem rodeios quando se trata de condenar os desvios de uma sociedade "doente", como qualificou recentemente a sociedade espanhola, imersa no relativismo moral, desprovida de valores. Até a crise econômica o primaz da Espanha interpreta como conseqüência dessa perda generalizada da fé em Cristo. "É exatamente a relegação da fé o que jaz por trás da situação de crise atual. O que há por trás de tudo isso são homens que só confiam em si mesmos, que não esperam", disse recentemente.

O cardeal nunca perde a oportunidade de intervir na tempestuosa atualidade espanhola. Foi o que fez, por exemplo, do púlpito da catedral de Toledo, para se pronunciar sobre a negação da mesa do Congresso dos Deputados a instalar uma placa em homenagem à freira sóror Maravillas, e sobre a sentença que obriga a retirar os símbolos religiosos do colégio público Macías Picabea, em Valladolid. Fatos que denotam em alguns de seus concidadãos "uma cristofobia que definitivamente é o ódio a si mesmos", disse há algumas semanas. Nada de estranho porque, na opinião dele, correm tempos "duros para a fé e para o homem".

São frases que devem ter aumentado seu crédito diante de Bento XVI. O papa o quer ao seu lado. O cardeal primaz da Espanha substituirá, se não houver imprevistos, o cardeal nigeriano Francis Arinze, em vias de aposentar-se, à frente da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. Um ministério aparentemente secundário, mas ao qual o papa, obcecado pela liturgia e as cerimônias antigas a ponto de incluir o latim entre os idiomas do site do Vaticano na web, dá uma importância indubitável.

Se tudo se confirmar e as portas da Santa Sé se abrirem finalmente para ele, será um salto espetacular na carreira de Cañizares, o terceiro filho de um funcionário dos telégrafos e uma dona-de-casa do povoado valenciano de Benagéber, um município inundado pelas águas do pântano de mesmo nome, o que obrigou a família a se instalar em Utiel, onde nasceu Antonio, no número 4 da Calle de la Trinidad, hoje rebatizada com seu nome.

O vigário geral de Toledo, Ferrer, reconhece que a sintonia de seu superior com o papa é total e vem de longe. "Quando ele conheceu dom Antonio, quis que fizesse parte da Congregação para a Doutrina da Fé, apesar de quase todos os seus membros serem cardeais ou pelo menos arcebispos." Foi em 1995 que o então cardeal Joseph Ratzinger, o mais poderoso dos colaboradores de João Paulo II, viu em Cañizares qualidades que o convenceram. A estima foi mútua. O espanhol já era conhecido entre seus companheiros do Instituto de Pastoral e do de Ciências Religiosas, onde dava aulas de teologia e catequese, como "pequeno Ratzinger", sobretudo ao incorporar-se à Comissão para a Doutrina da Fé do episcopado espanhol em 1985.

Nos dez anos entre uma nomeação e outra, Cañizares realizou sua própria transição espiritual no sentido inverso ao da sociedade espanhola. O jovem professor valenciano, formado na Universidade Pontifícia de Salamanca em uma etapa de abertura pós-conciliar, seguidor da linha progressista defendida pelo cardeal Vicente Enrique y Tarancón, começou a virar para posições conservadoras. Embora nem todo mundo esteja de acordo com essa mudança. "Cañizares colaborou conosco na revista 'Iglesia Viva', de orientação mais progressista, em uma etapa em que era muito bem vista pela maioria da Conferência Episcopal presidida por Tarancón. E a deixou pouco depois de ser nomeado secretário da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé. Nesses anos Tarancón havia caído. Depois da visita do papa em 1982 sopravam outros ares. Muitos pensamos que para ele essa presença em nosso grupo era em função de sua promoção na Igreja (dois de seus fundadores tinham sido nomeados bispos: Fernando Sebastián e Juan María Setién) e nos abandonou quando já começávamos no caminho da marginalização", escreve em uma mensagem eletrônica Antonio Duato, que fez parte da "Iglesia Viva" e hoje é um dos animadores de "Atrio", uma publicação na mesma linha.

"É verdade que não se caracterizou por posições muito críticas, mas minha impressão é que estava bem entre nós. Era um homem estudioso, trabalhador, sempre discreto. Era difícil saber o que pensava e o que deixava de pensar", lembra Julio Lois, teólogo e colega do jovem Cañizares mais ou menos na mesma época, quando dava aulas no Instituto de Pastoral de Madri. De fato, foi o teólogo progressista Casiano Floristán, já falecido, quem o orientou na tese de doutorado sobre "Santo Tomás de Villanueva. Testemunha da pregação espanhola no século XVI", publicada em 1976, um dos raros livros de Cañizares.

Na década de 1970 e na primeira metade da de 80, o cardeal também deu aulas de catequese no Instituto de Ciências Religiosas, do qual também seria diretor. No centro, que passou a se chamar San Dámaso, coincidiu com outro sacerdote hoje aposentado: Juan de Dios Martín Velasco. "Sempre foi uma pessoa dócil à hierarquia da Igreja, mas com total sinceridade e coerência com o que ele pensa. Não creio que atue por oportunismo." Velasco lembra dele como um sacerdote comprometido, vestido à paisana, que vivia frugalmente na paróquia de San Gerardo, no bairro de Aluche em Madri, com sua mãe e sua irmã Pilar. Órfão de pai desde os 9 anos, perdeu a mãe e o irmão mais velho depois. "Era um bom professor. Com uma grande memória, sempre lembrava os dados."

Qualidades que serviram ao arcebispo de Toledo para construir uma carreira eclesiástica senão meteórica, bastante notável. Bispo de Ávila aos 47 anos e de Granada quatro anos depois, alcança a sede de Toledo em 2002. Um ano mais tarde é arcebispo. São decisões de João Paulo II nas quais muitos vêem a mão do todo-poderoso Ratzinger. Não é por acaso que Cañizares obteve a púrpura cardinalícia no primeiro consistório de Bento XVI, realizado em 25 de março de 2006.

Então já é um membro destacado do episcopado espanhol. Preside desde 1999 a Comissão de Educação e Catequese e é vice-presidente dos bispos. Um posto chave, que lhe permitirá ter um papel relevante na mesa de negociação com o governo socialista em termos de financiamento da Igreja. Cañizares, que mantém excelentes relações com a vice-presidente do governo, María Teresa Fernández de la Vega, conseguirá um acordo nada desprezível. A Igreja passa a receber 0,7% dos aportes dos contribuintes, em vez dos 0,52% que recebia até agora, em troca de renunciar às ajudas estatais. Além disso, concorda em pagar o Imposto de Valor Agregado, que a Europa reclama.

O cardeal não terá o mesmo êxito no que toca ao ensino de religião, que a Igreja considera relegado nos currículos escolares a um segundo plano diante da nova cadeira de Educação para a Cidadania. Mas no Vaticano, que vê a Espanha como um campo de batalha crucial na guerra contra o laicismo que se combate em toda a Europa, sua gestão deve ter sido muito apreciada.

Cañizares moveu-se com habilidade e, apesar da aspereza da polêmica com o Executivo, sua cerimônia de consagração como novo príncipe da Igreja no Vaticano se transformou em um acontecimento político. A vice-primeira-ministra, o ex-presidente de Castela-La Mancha, José Bono, além do atual, José María Barreda, e o da Generalitat valenciana, Francisco Camps, aplaudiram o purpurado. "Foi uma cerimônia incrível. Uma dessas ocasiões históricas de que alguém tem a sorte de participar", conta Enrique Luján, então prefeito de Utiel.

A partir desse momento chovem homenagens e nomeações para o cardeal. A Academia da História lhe abre as portas. Cañizares não fez grandes contribuições para a matéria. A breve biografia que se publica do novo acadêmico cita somente sua tese de doutorado, de 1976, e um par de livros escritos a um intervalo de mais de 20 anos, mas isso não é obstáculo para sua admissão.

A corporação de Utiel o nomeia filho predileto e lhe concede a medalha de ouro da cidade por decisão de todo o Consistório. "Sempre esteve muito unido a esta cidade", diz Luján. "Quando vem, sobe para rezar na ermida da Virgem dos Remédios e depois faz o que tem de fazer." O ex-prefeito manteve a amizade com o cardeal, que visita assiduamente.
Luján o descreve como um homem muito observador, que nunca interrompe seu interlocutor. "É muito cuidadoso com as competências de cada um. Não preside uma cerimônia se acreditar que corresponde a outra autoridade", diz. E tem suas paixões. Gosta de touradas quase tanto quanto de música sacra e das festas de mouros e cristãos.

Em Toledo não há dessas festas, mas, como explica o vigário geral Ferrer, "a diocese está cheia de instituições muito antigas, às quais o arcebispo tem de atender". Ainda se conserva o rito moçárabe, com nada menos que oito cônegos associados ao mesmo, e montes de tradições. Cañizares, pouco dado a refinamentos estéticos - veste terno clerical, reforçado com suéter de lã no inverno -, revelou-se um amante dessas tradições. Quase uma obrigação para quem, como ele, faz parte da comissão vaticana Ecclesia Dei, dedicada a estender pontes com os religiosos mais tradicionalistas.

Ainda circulam pela Internet fotografias do cardeal espanhol vestido com uma espetacular capa vermelha de cauda longa, em uma ordenação de sacerdotes do rito tridentino, que presidiu no verão passado. Em Toledo reinstaurou a tradição de celebrar na quinta-feira a festa de Corpus Christi, oficialmente transferida para o domingo. "O resultado é que agora temos duas procissões do Corpus, uma na quinta e outra no domingo", conta um morador da cidade, que lamenta o imobilismo da Igreja. "O mundo dá voltas, mas eles continuam iguais." Sabe que o arcebispo está prestes a ir embora? É claro. Em Toledo é um rumor antigo.

Um rumor que Cañizares não confirma. Ele negou que o papa o tenha nomeado alguma coisa. Mas é homem disciplinado, capaz de guardar um segredo. Quando em 1991 o então núncio apostólico Mario Tagliaferri lhe comunicou que o papa havia decidido nomeá-lo bispo de Ávila, Cañizares manteve o segredo por mais de cinco meses. "Todo mundo dizia isso, menos eu. Eu não podia dizer nada", contou o cardeal ao jornalista Isidro Catela em um livro de entrevistas com 12 bispos espanhóis publicado recentemente. Era seu primeiro cargo de importância na hierarquia eclesiástica e o jovem bispo adotou como lema "Fita voluntas tua" (Faça-se a tua vontade). Uma verdadeira premonição do que seria seu caminho dentro da Igreja: obediência à hierarquia e, sobretudo, ao papa. Antonio Cañizares, o "pequeno Ratzinger", que fez do acatamento da vontade do papa sua principal virtude, se dispõe a ocupar um ministério no Vaticano Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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