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17/12/2008

Escândalo do governador corrupto de Illinois agita o feudo político de Obama

El País
Francisco Peregil
Em Chicago
O governador de Illinois está fazendo agora o que quase nunca fez em seus seis anos no comando do quinto Estado mais populoso dos EUA, com quase 13 milhões de habitantes: vai todas as manhãs ao seu escritório no centro de Chicago. Rod Blagojevich - conhecido como Blago -, de 52 anos e filho de um operário metalúrgico sérvio com uma vendedora de passagens de transporte público, até uma semana atrás costumava correr nas primeiras horas do dia antes de voltar para trabalhar em casa, uma residência comum em um bairro de classe média de Chicago. Ali, às vezes se reunia com os membros de seu gabinete. Por isso, dias antes do 4 de novembro em que Barack Obama ganhou as eleições presidenciais, um juiz autorizou o FBI a grampear os telefones de sua casa. E o que saiu daquelas escutas surpreendeu até os agentes mais cínicos, segundo Robert D. Grant, o responsável pelo FBI que chefiou a operação.

AP/Nam Y. Huh 
Governador de Illinois, Rod Blagojevich, deixa sua casa na última terça-feira (16)

O governador se expressava como o mafioso Al Capone na Chicago dos anos 1920. "Tenho isto [o poder de designar o sucessor de Obama no Senado estadual], e isso é ouro, p... E não estou disposto a dá-lo por uma m..." "A menos que consiga algo realmente bom, eu mesmo ficarei". Blago dava por certo que Obama queria uma pessoa determinada para esse cargo, mas não estava disposto a nomear essa pessoa se não lhe concedesse alguma embaixada ou o cargo de responsável máximo pela Saúde. "Vou dar a esse filho da p... seu senador em troca de nada? Que se f...! Em troca de nada? Que se f...!"

"O FBI estava atrás dele havia meses por supostas concessões de contratos em troca de dinheiro", relata um ex-colaborador do governador que trabalhou durante anos em um cargo de confiança e fala sob a condição do anonimato. "Não esperávamos que o governador fosse se expressar assim por telefone. Desde que Blago chegou ao cargo de governador, em 2002, todos os membros de sua equipe recebemos ordens de ser extremamente cuidadosos com o que escrevíamos nos e-mails ou falávamos pelos telefones do Estado. Diziam que essas conversas e mensagens poderiam ser apresentadas como provas contra nós em um julgamento".

Agora Blagojevich pretende infundir a sensação de normalidade. Vai ao seu escritório como se não tivessem retido seu passaporte e não estivesse em liberdade condicional sob uma fiança de US$ 4.500, como se ainda tivesse uma carreira política pela frente. "Ele queria ser presidente ou no mínimo vice-presidente dos EUA", indica seu antigo colaborador. "As pessoas de seu gabinete tínhamos ordens de promover suas iniciativas no resto do país. E ele cuidava de cada detalhe. Nos telefonava a qualquer hora do dia ou da noite. Conseguiu criar em 2005 um seguro médico para cobrir todas as crianças de Illinois, algo que no resto do país continua sendo uma questão pendente. Reformou o sistema educacional estadual, que era burocrático e deficiente. Não que funcione muito bem, mas está melhor que antes. E promoveu uma lei para que os farmacêuticos do Estado não possam se opor, como faziam alguns, a vender métodos anticoncepcionais para as mulheres alegando razões morais. Tornou-se popular no coletivo de mulheres e gays, entre os negros e os latinos".

"Ele era claramente o democrata melhor situado em Illinois para aspirar à presidência", continua a fonte anônima. "E logo surgiu o fenômeno Obama, que era um membro do Senado local de Illinois em Springfield, capital do Estado. Os congressistas de Springfield são menosprezados em Chicago; são conhecidos como cogumelos, porque dizem que vivem na escuridão e se alimentam de lixo. Desse mundo obscuro saiu Obama. Pegava bem, notava-se que era inteligente. Mas ninguém esperava que um sujeito que começava em Springfield fosse chegar muito longe. Mas as pessoas começaram a doar mais dinheiro para ele e menos para Blagojevich. Em apenas dois anos, quando Blagojevich estava na plenitude de sua carreira, Obama acabou com seu sonho".

Ao fim de um ano no governo, membros da equipe de Blagojevich viram-se envolvidos em julgamentos por corrupção. E sua popularidade começou a cair. Apesar disso, Obama o apoiou em sua reeleição em 2006. "Todas as companhias que tinham contratos com o governo haviam doado dinheiro para a campanha de Blagojevich", afirma Colin McMahon, direto da edição de fim de semana do jornal "Chicago Tribune". "E 80% dos clientes de sua mulher, que é agente imobiliária, conseguiram contratos com o governo".

Blagojevich não parece um caso isolado em Illinois. "Aqui se assume que para fazer negócios é preciso ter amigos", indica McMahon. Três dos últimos oito governadores de Illinois passaram pela prisão por delitos cometidos durante seus mandatos. O último deles é o republicano George Ryan, antecessor de Blagojevich, que ainda está na prisão por conceder carteiras de motorista em troca de dinheiro. E não é quem em Chicago, principal cidade do Estado, com 65% da população, alguém ponha as mãos na cabeça dizendo que a cidade tem uma fama injusta. Mike Royko (1932-1997), considerado por muitos o melhor cronista da cidade, propôs que o lema oficial de Chicago fosse "Onde está o meu?".

Obama tentou cortar essa tradição promovendo uma lei, cuja aprovação está prevista para janeiro, que pretende limitar e controlar as doações aos políticos de Illinois. Mas Obama também saiu dessas ruas de Chicago, onde todos perguntam: "E você, de quem é?", "Quem é seu padrinho?". O presidente eleito prometeu na quarta-feira que divulgará em breve os contatos de qualquer membro de sua equipe com o governador em relação ao cargo de senador, e a imprensa não o assediou excessivamente. No sábado o "Chicago Tribune" publicou que o chefe de gabinete de Obama, Rahm Emanuel, manteve conversações com Blagojevich sobre possíveis candidatos ao lugar.

Obama e a imprensa vivem uma lua-de-mel, mas já se ouvem vozes autocríticas como a de Lou Dobbs, famoso jornalista da CNN, que se queixou na sexta-feira da excessiva e inusitada complacência diante do presidente eleito. Um analista convidado ao seu programa afirmou que os jornalistas que lhe perguntaram sobre o caso Blagojevich pareciam cachorros adestrados. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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