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20/12/2008

Refém que cuidou de Ingrid Betancourt fica surpreso com a Internet

El País
Maruxa Ruiz del Árbol
O cabo William Pérez passou os últimos dez anos de sua vida - ele tem 33 - seqüestrado pelas Farc. Há apenas cinco meses o exército colombiano o devolveu à liberdade. E na semana passada pôde cumprir o sonho de sua amiga e companheira de cativeiro Ingrid Betancourt: comer um leitão em Madri. Na selva, Betancourt e o político Luis Eladio Pérez, também seqüestrado, sonhavam com o assado de El Sobrino de Botín [restaurante considerado o mais antigo do mundo]. Luis Eladio descrevia com detalhes o odor do molho, a crosta dourada e crocante... até que Ingrid lhe pedia que se calasse.

É a primeira vez que Pérez sai da Colômbia, e o faz para receber em Madri o Prêmio Especial de Direitos Humanos do Conselho Geral da Defensoria espanhola, por ser um símbolo da liberdade. Mas ele não se sente tão livre: "Eu seria se ninguém me conhecesse, se Ingrid não tivesse dito as coisas tão bonitas que disse sobre mim". Pérez, enfermeiro do exército, se fez de médico na selva e curou as feridas de Ingrid. As externas e as internas. Betancourt não se cansa de agradecer sua ajuda médica e psicológica quando chegou ao fundo. Com seu relato o tornou famoso, por isso anda o dia todo com escolta. E só às vezes, quando consegue escapar de seus guarda-costas, monta em sua moto nova, se camufla com o capacete e, pilotando, sente-se livre.

Ao escolher o restaurante, Pérez só impôs uma condição: não queria comer massa, "o eterno menu do seqüestrado". Já que estamos aqui, pede carne. Qualquer uma, deixa-se aconselhar. A jornalista propõe, em honra a Betancourt, atirar-se ao leitão: patinhas empanadas de entrada e leitão assado como prato principal. William se atreve sem hesitar: "Na selva comi tigre, cobra e mojojoi (vermes que vivem nas árvores)". Ele fala enquanto o prato esfria. O relato faz sombra até ao leitão.

William já tem namorada e voltou à escola militar para recuperar o tempo perdido, para se pôr em dia e conseguir o diploma que poderia ter se não tivesse sido refém: aulas de biologia, matemática, Power Point... qualquer matéria é nova para um jovem afastado da vida há dez anos. "Muitos amigos me localizaram através do Facebook! O que mais me surpreendeu ao voltar ao mundo foi a Internet."

Para receber o prêmio, veste uniforme para honrar o exército colombiano. "É importante, porque tem fama de violar os direitos humanos". Para o futuro, duvida entre permanecer em Bogotá perto de sua família ou romper com tudo para estudar medicina na Sorbonne, com bolsa do governo francês. Por enquanto está tendo aulas de francês. Depois de dez anos na selva, já assumiu que tem de aprender a viver de novo. "Ontem no hotel tive de chamar para que me explicassem como acender a luz... era preciso colocar o cartão na ranhura". Ele conta entre risos, e ao rir mostra seu novo aparelho ortodôntico, seu lado infantil.

William não gosta de lembrar o sofrimento vivido e se nega a falar das torturas. Só fica de olhos embaçados ao falar dos que ficaram na selva. "O único cordão umbilical que me une ao seqüestro são meus companheiros. Sei que os guerrilheiros devem ter feito represálias e tirado até o rádio deles, devem estar sofrendo muito." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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