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26/12/2008

Suspeito de matar Litvinenko tem medo de deixar país, mas tem três passaportes

El País
Pilar Bonet
A conversa com o homem que a Scotland Yard considera o suspeito número um do assassinato de Alexander Litvinenko com polônio radioativo aconteceu no Aristokrat, um restaurante moscovita que Andrei Logovoi disse ter comprado há alguns meses com Dmitri Kotvun, seu amigo desde os tempos que estudaram na escola militar do Soviet Supremo, e que o acompanhou no encontro com Litvinenko no dia em que se acredita que ele foi envenenado. Tomamos café debaixo de um lustre antigo, junto a uma lareira artificial e uma parede imitando um lenheiro. Lugovoi é deputado, vice-presidente do Comitê de Segurança da Câmara, membro do Partido Liberal Democrático de Vladimir Zhirinovski, de tendência populista, e tutela a região do Oriente Distante, a península de Kamchatka e a Sibéria Oriental. Não se atreve a ir ao estrangeiro, ainda que não lhe faltem passaportes.

Lugovoi afirmou na entrevista ao El País que o ex-agente dos serviços secretos russos quis que ele se encontrasse em Madri com um agente espanhol a quem ajudava a investigar as atividades de Zajar Kalashov, conhecido como Shakro, um dos chefes do crime organizado russo. Chegou inclusive a telefoná-lo, desde o hospital londrino onde morreu, para insistir no encontro. Lugovoi assegura que não chegou a ir a Madri e descreve uma figura misteriosa, alto funcionário dos serviços de segurança espanhóis, que mantinha contato com Litvinenko.

El País - Como explica que a Scotland Yard o considere o principal suspeito da morte de Litvinenko por envenenamento com polônio radioativo?
Lugovoi -
Porque é cômodo para eles. Estou firmemente convencido de que os serviços secretos britânicos estão envolvidos nessa história, e não me refiro à Scotland Yard, nem à promotoria, mas aos serviços de espionagem e contra-espionagem, que durante meus oito meses de estadia descontínua no Reino Unido, tentaram me recrutar de forma direta e por meio de Litvinenko. Trataram de me incumbir da tarefa de reunir informações sobre a Rússia, incluindo material comprometedor sobre funcionários, ministros e também do círculo próximo a Putin e sua família.

EP - Que informações, exatamente?
Lugovoi -
Isso é parte confidencial do sumário de acusação da promotoria e do Serviço Federal de Segurança (SFS). Por isso, como os serviços de segurança estavam envolvidos nessa história, o melhor era acusar a mim. Por ter sido funcionário da KGB e do Serviço Federal de Escolta (SFE), encaixo-me perfeitamente numa novela de espionagem. O argumento é que me encarregaram de exterminar Litvinenko uma vez que durante os últimos dez meses antes de sua morte eu fui com certeza a pessoa procedente da Rússia com quem ele se encontrou com mais freqüência.

EP - Como explica o polônio que foi encontrado em você e no trajeto que fez em Londres?
Lugovoi -
O polônio deixa pegadas. Mas, diferentemente das impressões digitais, não é possível identificar a quem pertencem. Kovtun e eu estávamos convencidos de que os serviços secretos britânicos ou pessoas vinculadas a Litvinenko nos submeteram aos efeitos do polônio.

Muitos inspecionaram os lugares onde eu estive e onde o polônio foi encontrado, mas se esquecem de que há lugares no Reino Unido onde eu não estive e onde também foi encontrado polônio antes de 1º de novembro [dia em que se considera que Litvinenko foi envenenado]. Há outros lugares em Londres que Litvinenko visitou onde foram encontrados rastros desse elemento radioativo, e todos disseram que, como havia pegadas nos lugares onde eu estive, as outras também estão relacionadas comigo. Por que essa injustiça? Pode ser que tudo seja ao contrário. Além disso, existe a opinião firme de que foi encontrado polônio nos aviões da British Airways nos quais voamos, a partir de 25 de outubro, e todos se esquecem do fato, provado pela promotoria russa, de que voamos para Londres em 16 de outubro pela Transaero, e não foram encontradas pegadas de polônio no nosso avião. Mas quando voltamos havia sim umas marcas insignificantes em nossas poltronas no avião da Transaero. A promotoria requisitou essas poltronas, que agora são provas do julgamento. Não me perguntem de onde saiu esse polônio.
Deveriam perguntar a Litvinenko, que por desgraça está morto, e também a Berezovski e a Zakaviev, e aos serviços secretos britânicos.

EP - O senhor disse que estaria de acordo com a ida de seu amigo Kovtun para o Reino Unido para testemunhar. Como os britânicos reagiram a essa proposta?
Lugovoi -
Não reagiram à oferta de Kovtun, e não nos apresentaram nenhuma acusação. A única prova que têm são as marcas de polônio.

EP - Mas os britânicos pediram sua extradição.
Lugovoi -
Eu vi a petição, ainda que não tenham me deixado levá-la da promotoria. O investigador escreveu-a a mão, sem anexar documentos nem resultados das investigações. Escreveram que consideram que Lugovoi matou Litvinenko porque este criticava Putin e o SFS.

EP - Mas, do ponto de vista do SFS, Litvinenko foi um traidor.
Lugovoi -
E do meu ponto de vista também. Mas e daí? Por acaso é preciso matar um traidor imediatamente?

EP - O senhor acredita que alguém pode ter matado Litvinenko por causa dos interesses do Estado russo?
Lugovoi -
Se fosse parte dos interesses do Estado russo, no sentido mais alto do termo, eu mesmo teria dado essa ordem. Não falo de Litvinenko, mas me refiro a qualquer pessoa que cause um prejuízo sério. Por exemplo, se eu fosse presidente, teria mandado exterminar Saakashvili.

EP - Saakashvili não é cidadão russo, é presidente da República da Geórgia...
Lugovoi -
Bem, pois há outro personagem, (o coronel da KGB) Oleg Gordievski, amigo de Litvinenko, que fugiu para o Reino Unido (em 1985) e foi condenado à morte pelo Tribunal Supremo da URSS. Acredito que essa pena deve ser cumprida. Se o pegarem, devem trazê-lo para cá e prendê-lo para o resto da vida. E se há conhecimento de outros personagens que causaram um dano sério ao Estado russo, deve-se exterminá-los. É minha posição firme e a de qualquer russo normal.

EP - Como conheceu Litvinenko?
Lugovoi -
Conheci-o em 1996-1997. Eu não estava mais no SFE, mas já era chefe de segurança do principal canal da televisão russa, do qual Berezovski e Badri Patarkatsishvili eram acionistas. Com freqüência, ia ao escritório deles, pelo qual passava muita gente. Um dia, alguém nos apresentou. Litvinenko estava no SFS. Depois nos cruzamos por ali algumas vezes e conversamos sobre temas irrelevantes. Quando voei para Londres pela primeira vez, encontrei Litvinenko no escritório de Berezovski.

EP - O senhor disse que Litvinenko lhe propôs fazer dossiês sobre personagens russos para entregá-los a seus sócios no Reino Unido.
Lugovoi -
Não tivemos nenhum negócio. Ele me propôs, mas eu não quis. Em 2005, telefonou para mim e me perguntou quando eu planejava ir para Londres e a que eu me dedicava. Eu disse que à segurança e escolta, e ele comentou que tinha clientes no Reino Unido interessados nesses serviços. Era normal. Naquele momento tínhamos clientes em muitos países. Já em Londres, ele me disse que havia duas companhias que estavam procurando sócios na Rússia para ajudar os investidores ocidentais a entrar no mercado e receber informações que nem sempre se podem obter de forma aberta. Pareceu-me interessante e normal.
Fizeram-nos algumas propostas, mas depois do primeiro encontro disseram que bastava vender informação comprometedora sobre funcionários. Qualquer um entenderia que ali havia algo raro.

EP - Mas vocês aceitaram a proposta de colaborar.
Lugovoi -
Sim, recebemos algum dinheiro e pagamos Litvinenko, que pediu 20% de comissão.

EP - Colaborou com os serviços de segurança russos naquele trabalho?
Lugovoi -
Não colaborei com o SFS de forma alguma. Eu era um pequeno empresário.

EP - Não é incompatível.
Lugovoi -
Escute. Eu concluí meus estudos numa academia militar de elite. Comigo estudaram 400 pessoas, das quais 150 continuam no serviço.
Entre eles há comandantes de divisão, vice-chefes de distritos militares, altos cargos do SFS, do SFE, e dos guarda-fronteiras. Todos os meus amigos são militares ou estão nessas instituições. Uma das pessoas mais próximas é o vice-diretor do SFE, um general com enormes possibilidades e recursos. Mas não tenho nenhuma relação oficial com funcionários do FSB, só de amizade desde que nos graduamos na academia. Quando os agentes britânicos começaram a se aproximar de mim, uma das primeiras coisas que fiz foi informar o FSB para que não me acusassem de traição ou espionagem. Mas cometi um erro. Eu acreditava - pelo menos foi isso que me ensinaram - que se a pessoa que quer recrutar não está preparada, é preciso distanciar-se dela porque ela pode colocá-lo em apuros. Mas os ingleses continuaram me pressionando porque, ou eles haviam esquecido como se trabalha, ou estavam me provocando ou esperavam que eu começasse um jogo duplo.

Então decidi não fazer negócios com as pessoas que Litvinenko me apresentou; eu já tinha meu negócio e meus sócios no Reino Unido.
Pensei que era melhor agir como se nada tivesse acontecido, mas eles continuaram, e o resultado foi essa história com o polônio. Claro que eu deveria ter cortado todas as relações com eles na primavera, meio ano antes da morte de Litvinenko. Queria fazer isso, pensava que me deixariam tranqüilo, mas começaram a me ameaçar e a me chantagear com o visto, que estava acabando.

EP - Em 2001 você ajudou a organizar a fuga de Nikolai Glushkov, vice-diretor da Aeroflot [preso por um escândalo econômico relacionado com Berezovski], mas passou pouco tempo na prisão. Isso se deveu ao fato de ter aceitado trabalhar para os serviços de segurança russos?
Lugovoi -
Além de mim, dois ajudantes de Glushkov participaram e nós três fomos presos. Libertaram-me ao final de um ano e três meses e, se tivessem me recrutado, eu teria saído em um mês.

EP - O senhor disse que tinha a intenção de ir para a Espanha, para quê?
Lugovoi -
Queria ir descansar quatro dias como minha mulher em Madri. E em setembro havíamos planejado uma viagem para novembro. Agora, a verdade é que já me esqueci, mas... vou olhar o passaporte (tem três sobre a mesa). Logo encontro (vai folheando o passaporte em busca de um visto). Não sei se era um visto Schengen ou se fiz um visto especialmente na Espanha.

EP - Vai com freqüência ao estrangeiro?
Lugovoi -
Não vou nunca.

EP - Talvez haja algum país para onde possa viajar...
Lugovoi -
Para lugar nenhum. Não me arrisco...

EP - Nem para a Índia para esquiar?
Lugovoi -
Esquio no norte do Cáucaso. No Elbrus.

EP - Mas quantos passaportes o senhor tem? Três?
Lugovoi -
São de anos diferentes.

EP - Toda uma coleção.
Lugovoi -
Não, não. Estavam na caixa forte e decidi... Tinha dois passaportes que acabaram e depois outros dois. E vejo que não tenho comigo o mais importante. Bom, porque minha mulher e eu planejávamos ir em novembro, e quando me encontrei com Litvinenko em outubro comentei com ele minhas intenções de ir a Madri e ele me disse que com freqüência ia à Espanha e colaborava com os serviços secretos locais para desmascarar a máfia russa no território do país. Começou a falar de uma companhia imobiliária interessada em comprovar se seus clientes russos tinham conexões com o crime e me contou que havia ajudado os serviços secretos russos a investigarem o assunto do bandido Shakro, e na minha frente ligou para uma pessoa em Madri cujo nome não posso revelar porque o forneci à promotoria russa.

EP - Um espanhol?
Lugovoi -
Sim, um espanhol que trabalhava nos órgãos de segurança. Litvinenko disse a ele que chegaria um russo que poderia ajudar a encontrar os criminosos que tentavam lavar dinheiro em imobiliárias na Espanha.

EP - E esse funcionário espanhol falava russo?
Lugovoi -
Sim. Em meados de novembro, Litvinenko me ligou já da clínica e me perguntou quando eu ia a Madri e me disse que, quando se curasse, ele também iria. Respondi que em final de novembro. Eu queria passear por Madri e evitar aquele encontro (com o funcionário espanhol). Não cheguei a ir porque começou a confusão e me acusaram de envenenar Litvinenko.

EP - Em que assunto concreto Litvinenko ajudou os serviços secretos espanhóis?
Lugovoi -
Não sei em que poderia ajudar porque fazia tempo que não sabia o que acontecia no país. Em meados dos anos 90, trabalhava numa unidade especial do FSB contra o crime organizado, mas desde então muitas coisas mudaram.

EP - Foi ele quem contatou os serviços espanhóis ou o contrário?
Lugovoi -
Acredito que foram os britânicos que o puseram em contato com os espanhóis. Litvinenko era um exilado político e devia observar as leis britânicas se não quisesse perder esse status, assim não acredito que ele tivesse se atrevido a colaborar por conta própria.

EP - O ex-chefe do governo russo Yegor Gaidar disse que tentaram envenená-lo na Irlanda enquanto tomava café da manhã. Acredita que isso é possível?
Lugovoi -
Não se pode excluir nada. Parece-me que desde que Putin começou seu segundo mandato, várias forças do Ocidente planejaram desacreditar a Rússia e, concretamente, a Putin com o apoio de nossos oligarcas no exílio. Fizeram o possível para desacreditá-lo, as revoluções na Ucrânia e Geórgia, o conflito na Ossétia do Sul e Abkhazia. Poderiam ter empreendido algo contra Gaidar, que foi o autor da reforma de 1992 e é um símbolo da liberdade econômica. No que se refere à Geórgia, este país compreendeu que não pode brincar conosco. Conheço a Geórgia porque morei lá nos anos 70, e no começo dessa década eu ia para lá uma vez por mês para ver Badri. Deviam ter levado os tanques até Tbilisi, nomear nosso representante e acabar com Saakashvili como os norte-americanos acabaram com Sadam Hussein [na verdade, executado por iraquianos]. Entrevista com Andrei Lugovoi, principal suspeito do assassinato do ex-espião russo Alexander Litvinenko Eloise De Vylder

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