UOL Notícias Internacional
 

27/12/2008

Opinião: dias perigosos

El País
Lluís Bassets
A última semana não admite brincadeiras. Adiantar os resumos e a seleção das notícias mais destacadas é um exercício cheio de riscos. A experiência demonstra que os fados podem esperar até o último dia para desferir seus golpes. As vítimas colaterais e benignas são os comentaristas que decidiram o signo do ano prematuramente, antes que termine a partida, e depois ficaram em evidência. Acontece com eles, acontece conosco, como esses torcedores que saem do estádio cinco minutos antes de terminar o jogo para evitar os engarrafamentos e quando ligam o rádio ao chegar ao carro percebem que o resultado deu uma virada vertiginosa.

Foi o que aconteceu em três dos últimos quatro anos. Em 27 de dezembro de 2007, um carro-bomba tirou a vida de Benazir Bhutto em Rawalpindi, 70 dias depois de sua volta do exílio e duas semanas antes de eleições gerais que foram então adiadas. Em 30 de dezembro de 2006 o mundo inteiro pôde ver as imagens de Saddam Hussein pendurado da forca em uma masmorra de Bagdá. Em 26 de dezembro de 2004, um movimento sísmico marinho, o maior dos últimos cem anos, assolou as costas da Indonésia e de todo o Sudeste Asiático. Cada uma dessas notícias tem uma consistência e uma profundidade que as transformam em balizas da época. Marcam um antes e um depois. Definem o signo dos tempos e iluminam o transcorrer do ano com uma luz diferente. Isso fica claro no caso do assassinato de Bhutto, um momento de mudança dramática para o Paquistão, país onde se aninha e cria a serpente da Al Qaeda. Também o foi o tsunami, por sua extensão, o número de vítimas e a mobilização da ajuda humanitária. O mesmo cabe dizer do ditador iraquiano, enforcado por policiais xiitas, que o insultaram e vexaram antes de acabar com sua vida, para que ficasse claro que tipo de justiça estava se instalando no novo Iraque e quão difícil seria a convivência entre as diversas comunidades étnicas e religiosas.
Esse 2008 que agora termina já deu uma boa ração de notícias trepidantes. Há inclusive uma dura concorrência entre elas para ver qual fica no topo como o acontecimento do ano e inclusive da época. A guerra entre Rússia e Geórgia, em agosto, foi recebida por muitos comentaristas como um autêntico divisor de águas, um momento crucial em que o urso russo militarista e autoritário rompia com uma patada o equilíbrio da época e se declarava disposto a existir como grande potência no continente europeu. O conflito eclodiu no dia seguinte à abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim, a estréia esportiva e organizacional da República Popular da China como superpotência emergente, que superou os EUA em medalhas de ouro, saciando com isso o orgulho nacional e os anseios de reconhecimento. Os dois acontecimentos competirão nas cronologias do futuro, sobretudo porque expressam uma mesma corrente fundamental: são as orelhinhas do novo mundo multipolar pós-americano que surgem justamente na metade da corrida à sucessão presidencial nos EUA.

Se há anos em que tudo acontece nos últimos dias, neste 2008 foi a segunda metade que mais concentrou notícias. Daí ser difícil prever mais uma, de maior alcance, que se interponha entre nós e o ano novo. Mas não se pode descartar: aprendemos que todas as transições são perigosas, especialmente as presidenciais, momento em que fervem as conspirações para mudar os mapas e o ritmo do presidente que entra. Restam 26 dias para a posse de Obama e seis de transição. Entre o Natal e o fim do ano as guardas estão baixas, as agendas vazias e a asa de qualquer mariposa pode levantar um furacão no outro ponto do planeta.

Será difícil superar a quebra de Wall Street, com a data 15 de setembro como emblema, quando desapareceu o Lehman Brothers, até então grande demais para cair; ou este 11 de dezembro, com a pequena e dolorosa réplica da pirâmide de Madoff. Ou o impacto do 4 de novembro, dia de uma eleição presidencial única na história dos EUA, que compete com as de Lincoln e Roosevelt. Ou esse 29 de novembro da infâmia terrorista em Bombaim. Poderiam acontecer, em troca, fatos pequenos e cada vez mais insignificantes como foi a Irlanda rejeitar o Tratado de Lisboa: a presidência checa da UE é um deles. E, sobretudo, o que não encontrará paralelo em sete dias, e nem sequer em sete anos, será a imagem do ano: nem divisor de águas nem acontecimento definitivo, mas sim o emblema que concentra a tragédia e o potencial conflituoso de todos os outros acontecimentos. São aqueles sapatos árabes lançados contra Bush, símbolo de um rechaço e de uma derrota sem remédio, resumo de 2008 e de toda a presidência.

Mas é preciso ir com cuidado na última semana. Ela não admite brincadeiras. E menos ainda as admitirá esse ano de 2009 que assoma sua negra cabeça. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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