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28/12/2008

A faísca grega ou um novo Maio de 68

El País
Abel Grau
Em Atenas
Há quem compare dezembro de 2008 com maio de 1968. A morte do jovem grego Alexandros Grigoropulos, de 15 anos, em 6 de dezembro passado em Atenas, depois de receber um tiro de um policial, acendeu o estopim da indignação na Grécia. Surgiram manifestações e distúrbios desde Salônica, no norte, até Heráclion, em Creta. Centenas de universitários e estudantes colegiais saíram às ruas para protestar contra a violência policial e sobretudo contra o governo e um futuro negro, no qual se vêem ganhando 700 euros por mês, com empregos precários e incapazes de deixar a casa dos pais. E eles não estão sozinhos. Quatro dias depois, justamente quando a Grécia era paralisada por uma greve geral, pequenas réplicas do terremoto social helênico se estenderam até a Itália, Alemanha, França, Dinamarca e Espanha (onde crescia outro protesto estudantil, contrário à Declaração de Bolonha). Sociólogos e antropólogos coincidem em uma advertência: não se deve menosprezar o alcance da revolta.

Existe o perigo de contágio para outros países da UE? "Assim como o contágio biológico, o contágio social só se expande se existirem condições ambientais que o favoreçam", indica Carles Feixa, professor de antropologia social na Universidade de Lleida e co-autor de "Movimientos juveniles: de la globalización a la antiglobalización". Na Grécia, onde a revolta continua viva duas semanas depois, a causa foi uma combinação de fatores: "Brutalidade policial e corrupção política de um lado e, de outro, perspectivas pessimistas para os jovens (na educação, no mercado de trabalho e na formação do próprio lar); a tudo isso somou-se a falta de integração dos imigrantes e o medo da crise econômica mundial", indica da capital grega Manos Matsaganis, professor do departamento de estudos econômicos europeus e internacionais da Universidade de Economia e Negócios de Atenas.

Um desses fatores, o que se refere à falta de um futuro digno para os jovens, é comum no sul da Europa, indicam os especialistas. E na Espanha ocorre uma situação singular no continente. É o único país da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em que o poder aquisitivo do salário médio diminuiu (4% entre 1995 e 2005; paradoxalmente, um período de vacas gordas). E também conta com uma alta precariedade: tem o índice de temporalidade trabalhista mais alto da Europa: 31% dos trabalhadores são temporários (quase um em cada três), o dobro da média da União Européia (14,5%), segundo dados da Eurostat de 2007. "Os salários para os jovens que começam são baixos em todo lugar, mas em nenhum outro seu futuro profissional está tão bloqueado quanto no sul da Europa e, talvez, na França", acrescenta Matsaganis.

Os jovens espanhóis têm motivos suficientes para estar descontentes, segundo Josep Espluga Trenc, doutor em sociologia pela Universidade Autônoma de Barcelona. "A maioria dos estudos sobre as perspectivas de futuro das atuais gerações jovens mostra cenários piores do que os das anteriores." Ele enumera e conclui: "Têm maiores dificuldades de acesso à moradia e para formar novas famílias. Diante dessas pressões, não é estranho que haja gente jovem - e não tão jovem - disposta a protestar". Poderia acontecer, inclusive, que pessoas que se sentem agravadas por outros processos de exclusão social decidam se unir. "O contexto de crise propicia que a revolta se reproduza em qualquer país."

A concentração de toda essa insatisfação, somada à crítica ao governo do primeiro-ministro liberal Kostas Karamanlis, conferiu um grande ímpeto à agitação na Grécia, batizada como o levante da geração dos "setecenteuristas" (os que ganham salário mínimo de 700 euros, em comparação com os "mileuristas" da Espanha e outros países). Desconfiam do sistema político (e sua corrupção), do judiciário, da mídia e da Igreja. "Em toda parte há minorias marginalizadas e insatisfeitas", opina o professor Matsaganis. "O singular da Grécia é que essas minorias encontraram uma base comum com extratos sociais mais amplos, sobretudo devido à extrema rejeição generalizada ao governo." Uniram-se grupúsculos anti-sistema, antiglobalização e anarquistas, mas o grosso dos protestos é integrado por estudantes universitários e colegiais. "Todos eles são jovens, embora obviamente nem todos compartilhem as mesmas razões", explica o professor grego.

Os especialistas concordam em que, atendo-se a certas semelhanças dos contextos socioeconômicos, "qualquer tipo de protesto é facilmente exportável", segundo Celso Arango, chefe da Unidade de Adolescentes do Hospital Gregório Marañón de Madri. "Ainda é cedo para avaliar se o que acontece com a revolta grega e o protesto anti-Bolonha (de certa maneira, uma revolta ibérica) são acontecimentos pontuais ou mais profundos", adverte o antropólogo Feixa. "Mas sim, existem certas condições socioambientais comuns na Europa (sobretudo na mediterrânea), que também explicam em parte a rebelião das periferias francesas de alguns anos atrás e a que está começando a surgir na Itália."

Outros se confessam tranqüilos, embora com certas reservas: "Não temos a sensação de que vá se estender", indicou na semana passada à agência Associated Press o presidente do Conselho da Juventude Espanhola, Daniel Lostao. "Esperemos que eu não esteja equivocado", acrescentou.

O caso grego, contudo, é singular, conforme explica o professor Matsaganis, que assiste desde o início da revolta à ocupação de sua universidade. O motivo: o problema da violência inerente à sociedade grega. "As atividades do grupo terrorista local 17 de Novembro nunca receberam uma condenação pública firme, semelhante às dirigidas contra a ETA ou as Brigadas Vermelhas. O número de pessoas indiferentes quando os terroristas mataram um agente da CIA, um político de centro-direita ou um industrial foi considerável. A explicação disso é o nosso individualismo generalizado e nosso costume do confronto político." Matsaganis, crítico do governo e ex-militante da Coalizão da Esquerda Radical, da qual se afastou por considerá-la extremista, rejeita a violência dos distúrbios.

Uma violência que é comum em muitas reivindicações juvenis, segundo Guillermo Ballenato, psicólogo da Universidade Carlos III. "As reações violentas de grupos de jovens são em grande medida um reflexo da violência social que se respira na rua", explica. "A juventude sofre um grande desencanto. Não gosta da sociedade que vê e superdimensiona o mais negativo: o individualismo, a competitividade, as injustiças", ao mesmo tempo que "se sente impotente para mudar a sociedade".

A réplica do abalo social grego chegou à Espanha em 10 de dezembro passado. Em Madri, uma concentração de 300 jovens anti-sistema na Puerta del Sol, em solidariedade com a morte do jovem grego, descambou para um ataque a uma delegacia da polícia municipal, que terminou com nove detidos e muitos destroços. Em Barcelona, 400 pessoas marcharam de maneira pacífica desde a Praça de Urquinaona, mas cerca de 40 encapuzados atacaram o mobiliário urbano e enfrentaram a polícia regional.

Ao mesmo tempo, ocorriam confrontos na Itália (seis policiais e um soldado levemente feridos em Bolonha e Roma, respectivamente); na Dinamarca (um grupo de manifestantes atacou com garrafas e latas de tinta a polícia da capital, Copenhague); na Alemanha, dois dias antes, 15 pessoas ocuparam o consulado grego em Berlim e cerca de cem se concentraram diante do de Frankfurt. Os amotinados voltaram a Barcelona no último sábado. Cerca de 200 jovens se manifestaram em um ato que deixou cinco agentes contundidos e três manifestantes detidos.

"O que está acontecendo na Grécia parece provar que a extrema-esquerda existe, ao contrário do que pensavam alguns durante as últimas semanas", afirmou recentemente Gérard Gachet, porta-voz do Ministério do Interior da França, em declarações à agência Associated Press. "Por enquanto não podemos tirar mais conclusões e dizer que existe um perigo de contágio da situação grega na França. Tudo está sendo observado com atenção."

Os especialistas também concordam ao destacar a relevância da revolta como um indício de problemas estruturais profundos. "Não é por acaso que essas revoltas coincidam e inclusive se antecipem à crise (em um sentido não só econômico, mas também cultural)", considera o antropólogo Feixa. "Os jovens costumam ser o termômetro das mudanças sociais. Enquanto há 40 anos (1968) anunciavam os limites do progresso, hoje antecipam suas conseqüências perversas." E complementa: "Na Europa mediterrânea, a juventude se transformou em uma fase da vida extremamente longa, cujo início se antecipa e cujo final se retarda 'ad infinitum', em conseqüência das precárias políticas estatais de bem-estar social, moradia e trabalho. O que cria um modelo de 'adultescência' (jovens adultos parcialmente emancipados) viável em situações de bem-estar mas menos suportável quando há crise. O relevante é que isso afeta não somente os setores marginais, mas também a juventude universitária, que vê seu futuro ameaçado."

A onda de protestos encontrou na Espanha terreno propício. Já havia um caldo de cultivo de insatisfação entre os estudantes, que intensificaram seus protestos nos últimos meses contra a Declaração de Bolonha, cujo objetivo é unificar o sistema universitário europeu. Milhares de estudantes se manifestaram em Madri e centenas em outras cidades espanholas em 14 de novembro passado, contra uma reforma que, segundo sua opinião e entre outras críticas, representa um aumento das taxas e uma mercantilização dos estudos: isto é, a adequação dos programas educacionais às necessidades das empresas.

O último episódio das manifestações anti-Bolonha ocorreu na quinta-feira passada em Barcelona. Centenas de estudantes interromperam o tráfego no horário de pico em vários acessos à cidade e também ocuparam o Comissariado de Universidades. Protestavam contra a expulsão de seis estudantes acusados de cometer atos violentos durante a primavera passada em outra manifestação contra Bolonha. A reitoria da Universidade de Barcelona continua ocupada há várias semanas por grupos de estudantes.

A agitação urbana é um recurso extremo, segundo observam os especialistas, ao qual se opta quando se esgotam as vias habituais. "Quando certas demandas civis não encontram respostas no esquema institucional e político, tendem a se manifestar em forma de conflitos na esfera pública; quer dizer, principalmente na rua e através dos meios de comunicação de massas", explica o sociólogo Espluga. E trata-se de um recurso atraente para os jovens. "Sua situação vital, que compreende o desenvolvimento de sua maturidade, impulsividade, diferente conceito de responsabilidade, falta de responsabilidades familiares e gregarismo fazem que nesta idade apareçam mais protestos desse tipo", indica Arango.

O simbolismo da revolta também é importante, segundo afirma em Atenas o advogado Nikos Kairis. "Esta revolta é um grito de atenção, e cada governo europeu deveria buscar as causas em sua própria comunidade", afirma. "Tudo isso constitui um coquetel explosivo que poderia levar a um novo Maio de 68 em toda a Europa. Por isso todos os governos europeus deveriam escutar as sociedades que representam, tentando enfrentar mais os problemas humanos que os monetários." Um diagnóstico com o qual concorda o antropólogo Feixa. "Dezembro de 2008 tem certos ecos de Maio de 68: mais que uma revolta econômica ou política, talvez estejamos assistindo a uma revolta cultural, não menos significativa por ser minoritária." Especialistas advertem que não se deve subestimar o alcance da rebelião Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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