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28/12/2008

A reinvenção da agonia e morte de Bolívar

El País
Maite Rico
Em Madri
"Às 12 horas começou o ronco e à uma expirou o excelentíssimo senhor Libertador." Em 17 de dezembro de 1830, o doutor Próspero Révérend encerrou o diário em que anotava a agonia de Simón Bolívar em uma fazenda em Santa Marta, no Caribe colombiano. O herói da independência americana havia chegado ali 11 dias antes. Despojado do poder, escoltado por um punhado de fiéis, queria se refugiar na Europa. Mas quando o desembarcaram em Santa Marta era "uma criatura de pavor, com apenas um sopro de vida", nas palavras de Joaquín de Mier, seu anfitrião. Tossia e cuspia sangue. Delirava. Morreu de tuberculose, anotou o médico.

É o que reza a história. Ou rezava, até que Hugo Chávez expressou há um ano suas suspeitas de que Bolívar tinha sido assassinado por inimigos que, segundo alguns suspeitosos, coincidem com os dele próprio: uma trama na qual se enredam as oligarquias, os EUA, a Colômbia e até a Espanha. Uma comissão criada pelo presidente da Venezuela investiga a morte do Libertador, a qual na quinta-feira completa 178 anos. Entre os planos não se descarta exumar o cadáver, depositado desde 1876 no Panteão Nacional de Caracas.

"Não há possibilidade, do ponto de vista científico, de sustentar a hipótese de crime", afirma o historiador venezuelano Elías Pino, autoridade em estudos bolivarianos. O desafortunado histórico clínico do Libertador ficou registrado em diversos documentos, começando pela autópsia praticada por Próspero Révérend. O médico francês descreve um "endurecimento" dos pulmões, com "um manancial aberto de cor das fezes de vinho, jaspeado por alguns tubérculos". No esquerdo encontra uma "concreção calcária angulosa do tamanho de uma avelã".

Segundo estudos atuais, esse nódulo calcificado, conservado no Museu Bolivariano de Caracas, indicaria que Bolívar contraiu na infância a tuberculose que matou seus pais, que se reativou depois em vários episódios documentados. Dois anos antes da morte, sua decadência física era evidente. Tinha então 45 anos, acabara com o domínio espanhol nas atuais Venezuela, Colômbia, Panamá, Equador, Bolívia e Peru, impusera uma ditadura e enfrentava rebeliões internas que o colocariam no rumo do exílio.

"A causa da morte de Bolívar é uma tuberculose pulmonar com comprometimento do sistema nervoso central", indicam os neurologistas colombianos Ignacio Vergara e Gabriel Toro, autores de um estudo da história médica de Bolívar. À mesma conclusão chegou em 1963 uma comissão de especialistas da Sociedade Venezuelana de História da Medicina e da Academia de História.

"Falácias", afirma Jorge Mier. E alega "mais de dois mil documentos" que lhe entregou um parente seu, tataraneto de dom Joaquín, o anfitrião de Bolívar em sua última morada. O Libertador, diz Mier, foi traído por seus colaboradores e ele mesmo deixou as pistas de seu assassinato. Onde? Em uma carta (apócrifa) a uma amante de sua juventude na França, na qual usou "chaves maçônicas ocultas" para indicar seus assassinos. Mier pôde decifrá-las graças a "um código de sinais secretos" que dom Joaquín de Mier possuía. Na conspiração estão envolvidos o presidente dos EUA Andrew Jackson, o rei da Espanha Fernando VII e a corte da Inglaterra.

Os EUA também são o eixo da conjuração criminosa descrita por Luis Salazar, outro partidário da teoria da conspiração. Bolívar, segundo ele, foi envenenado com arsênico "por suas aspirações de um governo continental socialista de projeções gigantescas". O caudilho seria o protomártir da luta contra o capitalismo.

Em seu programa "Alô, Presidente", Chávez falou várias vezes na "Carta que Mudará a História", o livro de Jorge Mier, ao qual nomeou assessor da comissão de investigação, integrada por vários ministros e o promotor geral. "Acabamos de entregar sete amostras de cabelos de Simón Bolívar, guardadas por parentes e colecionadores, para descobrir seu DNA", explica Mier. Isso permitirá cotejá-lo com o do cadáver que jaz no Panteão Nacional e que, segundo o escritor, não é o de Bolívar. E onde está o corpo? "Não posso dizer porque é o tema de meu próximo livro."

Escandalizados, os historiadores se negam a polemizar "com aventureiros extravagantes". Em todo caso, por que não aproveitar os avanços científicos para exumar o cadáver e estudá-lo? "Porque não há uma só dúvida razoável que justifique essa operação", diz Inés Quintero, secretária da Academia Nacional de História. "Chávez pretende usar a figura de Bolívar para semear a discórdia com os vizinhos", acrescenta, referindo-se às complexas relações com o governo colombiano. "Se você tem a intenção de abrir um debate sério, cria uma comissão histórico-científica binacional, e não monta uma pesquisa jurídica em busca de um culpado. O que vão investigar? Se não resolvem nem os crimes atuais!"

Chávez, segundo seus detratores, pretende reescrever a história venezuelana para adequá-la a seu projeto político. "Nosso objetivo é democratizar a memória coletiva nacional", responde Pedro Calzadilla, diretor do recém-criado Centro Nacional de História. "Queremos privilegiar a perspectiva dos excluídos, negros, índios, mulheres, pobres", contra a historiografia tradicional, feita à imagem e semelhança dos setores poderosos."

Calzadilla nega que o governo pretenda impor uma leitura concreta. Mas a maioria dos membros da centenária Academia de História vêem com preocupação o processo de reinvenção de Bolívar, que dilui suas origens européias e caricaturiza sua complexidade. Elías Pino descreve o Libertador como "um aristocrata em trânsito para o Estado moderno, um paradigma do despotismo ilustrado, temeroso da pardocracia [o poder dos mulatos, índios e negros] e admirador do mundo anglo-saxão". Pino combate o culto a Bolívar promovido pelos governantes venezuelanos, e que o atual presidente levou a alturas inusitadas. "Chávez quer transformar um homem do século 19 em ideólogo do socialismo do século 21", lamenta Inés Quintero. "Por isso precisa reescrever sua origem e fechar o círculo com a reescritura de sua morte." O empenho de Chávez para investigar o "assassinato" do Libertador causa polêmica entre historiadores Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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