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01/01/2009

A cara do novo comunismo

El País
Lola Galán
O sol do meio dia iluminava com uma luz dura as ruas de Argamasilla de Alba, 7.500 habitantes, no coração de La Mancha. Uma perua oferecia, através de um potente megafone, sacolas de tangerinas a três euros. O veículo circulava devagar pelo labirinto de ruas do lugar: Rocinante, Cervantes, Alonso Quijano, Jornaleros, Libertad, León Felipe, Rafael Alberto. As ruas de Argamasilla são uma homenagem a Dom Quixote, como não podia deixar de ser no lugar em que Miguel de Cervantes estabeleceu a residência de seu personagem universal. Mas as ruas conservam também as pegadas de seus governos municipais desde os primeiros anos da transição: primeiro o PCE, depois a Esquerda Unida (EU), e por fim a chegada do PSOE em 1999. Anos dourados para o comunismo, que encontrou uma base de apoio nesse povoado da região espanhola da Mancha, composto por pequenos proprietários agrícolas, como explica Cayo Lara, novo líder estadual da Esquerda Unida.

Lara, que nasceu no vilarejo há 56 anos, foi membro dos sucessivos governos municipais, que ele mesmo liderou como prefeito entre 1987 e 1999. As novas ruas e praças, frutos da expansão das últimas décadas, cruzam com as mais antigas, como a de La Solana, ou a rua Ancha, que foram consagradas a figuras da ditadura de Franco. "Nós devolvemos a elas os nomes que tinham durante a República enquanto tínhamos maioria absoluta, porque os socialistas eram contra", comenta o ex-prefeito que representa o novo rosto da coalizão.

Com nomes novos ou velhos, o discurso estético do traçado urbano de Argamasilla não varia muito. A praça da Constituição, atravessada pela antiga estrada nacional, é um pequeno caos, de onde se vê a Imobiliária Lara, cujo proprietário, Antonio Lara, se diz um grande amigo do líder. "Crescemos juntos na rua Doutor Ángel. Éramos um grupo grande, de dez amigos, e continuamos nos vendo todos os anos no Natal há mais de 40 anos", conta Lara, que, apesar do sobrenome, não tem nenhum parentesco com o líder da EU. Tampouco seguiu carreira política, ainda que haja afinidade entre ambos. "Naquele grupo há gente de esquerda, de centro e de direita, e continuamos sendo muito amigos. Mas sempre terminamos as refeições discutindo política", admite. Fotos de chalés em promoção e da represa vizinha de Peñarroya decoram as paredes da imobiliária. Um negócio atingido em cheio pela crise. "Achávamos que Argamasilla seria a cidade-dormitório de Tomelloso [cidade mais abastada da região, a apenas oito quilômetros de distância]. Mas os moradores de lá são muito fechados. Ainda que um apartamento aqui custe € 30 mil a menos, eles não compram nada fora da cidade", queixa-se o agente imobiliário.

Antonio Lara admira Cayo sem reservas. E ele não é o único. Em toda a região, Cayo é conhecido por ter lutado de frente contra o desenvolvimento urbanístico de Seseña, impulsionado por Francisco Hernando, El Pocero. Seseña é, além disso, um dos poucos municípios com um prefeito da EU, Manuel Fuentes, que chegou ao Conselho Municipal em 2003. Seu amigo Antonio valoriza mais outras atividades
suas: "Cortou estradas, organizou manifestações quando estava na Coag [Coordenadoria de Organizações de Agricultores e Pecuaristas], sempre lutou pelos trabalhadores e por sua cidade. O partido vinha primeiro; sua família, em segundo".

Cayo Lara, filho único de Cayo Lara e Carmen Moya, foi um rapaz promissor desde que saiu da escola, aos 13 anos, para ajudar seu pai, que transportava alfafa e grão-de-bico de uma ponta a outra da região.
Do caminhão, passou a ajudar numa serralheria, depois foi contador num banco e, finalmente, ao voltar do serviço militar, aos 23 anos, tornou-se agricultor. "Cultivava beterraba e melões numa terra arrendada, mas, convenhamos, isso já faz muito tempo, ainda que ele continue se apresentando como agricultor". Disse um morador da cidade que parece ter pouca estima pelo novo líder da esquerda.

Cayo é um personagem extremamente conhecido em Argamasilla de Alba, onde nasceu em 29 de janeiro de 1952, e em cuja administração já foi de tudo: desde vereador em duas legislaturas até prefeito entre 1987 e 1999. "Claro, ele conhece os assuntos municipais como a palma da mão e por isso, às vezes, dá lições aos socialistas que governam agora", disse Cristina Seco, moradora do povoado e vereadora do PP, atualmente o principal partido da oposição. Como ele era como prefeito? "As ruas foram pavimentadas, colocou iluminação pública".

Foram anos relativamente tranqüilos para Lara, pai de dois filhos. Ao mais velho, nascido há 25 anos, formado em Administração de Empresas, deu o nome de Olmo. "É o nome de uma árvore e de um personagem de Novecento, um filme do qual eu gosto muito". Para a filha mais nova, de 21 anos, estudante de História em Madri, alguém lhe sugeriu o nome de Cintia, em homenagem a uma africana que lutava pela igualdade. Dito e feito. Cayo Lara admite que a decisão de aceitar o cargo para o qual foi eleito no domingo 14 de dezembro foi debatida em família. "Era algo que eu devia a eles. Minha mulher, Juani, foi quem mais cuidou de meu filho mais velho. Eu estava na Coag, em Madri, a maior parte do tempo. Mas quando minha filha mais nova nasceu e eu já era prefeito e ficava muito mais tempo em Argamasilla, e pude me reintegrar à unidade familiar".

Ele sabia que sua vida ia mudar da noite para o dia. Ele, que há décadas tem um velho Citroën, terá à sua disposição um carro com motorista da organização. Além de uma secretária e um assessor de imprensa. Os jornalistas querem falar com ele. E os olhos dos 50 mil militantes e do escasso milhão de eleitores da Esquerda Unida estão atentos a ele. Conseguirá interromper a sangria de votos que ameaça apagar a EU do mapa? Acabará com as ferozes guerras ideológicas internas que a coalizão enfrenta? Por enquanto, Lara pediu austeridade, e está disposto a dar o exemplo. "Ficarei parte da semana em Madri, num apartamento que um velho amigo me ofereceu, sabendo que a EU tem problemas econômicos", conta, sentado no sofá de napa de seu novo escritório na sede nacional na rua do Olimpo, em Madri.

Lara, um homem de estatura média, boa aparência, apesar da barriga proeminente que o paletó de veludo bege não consegue esconder, usa sapatos da mesma cor, uma camisa pólo azul e calças de veludo azul-marinho. Tem o olhar aguçado do caçador que é - "cada vez caço menos, por falta de tempo e por minha própria evolução pessoal", explica -, tem o cabelo branco, cortado de forma juvenil, e certo ar de proximidade, resultante de quase três décadas de atividade política em contato com as pessoas. Fala numa linguagem de sindicalista, mas o timbre de sua voz é agradável, e seu discurso está repleto de palavras que induzem à tranqüilidade. "Processo pacífico", "mudança serena", "luta moderada", são os termos habituais de sua conversa.

"O que está claro é que o capitalismo não pode resolver os problemas da humanidade", disse. Por isso, esta crise, que é "uma desgraça", talvez ofereça uma saída para as pessoas. "Pode ser que nos mostre o caminho para o socialismo do século 21, um modelo inspirado no consenso e nas liberdades". Porque a ausência de liberdades, reconhece, pode ter sido um dos maiores erros do comunismo histórico.

Ele se assombra com o que está acontecendo. "Há dois dias foi divulgado que os bancos espanhóis haviam tido um lucro de € 19 bilhões, e agora, com a crise, o governo terá de dar a eles € 50 bilhões, do seu dinheiro e do meu".

Números que parecem escandalosos para um homem como ele, acostumado ao aperto dos € 1.500 que cobrava como coordenador da Esquerda Unida de Castilla-La Mancha. Nesse cargo, que ocupou desde 2000, Cayo Lara viveu um enfrentamento áspero e direto com os socialistas da região.
Ele culpa José Bono, o factotum de Castilla-La Mancha há décadas, pelo fato de a EU vir cedendo terreno institucional na comunidade. "Tivemos a crise da Nova Esquerda em 1996. Bono levou um monte de líderes nossos e muitos militantes se foram". O resultado foi percebido nas urnas e nas leis. "A lei eleitoral da comunidade nos penaliza muito.
Precisaríamos ter 10% dos votos para conseguir uma cadeira". Com cerca de menos de 40 mil votos, numa Castilla-La Mancha com dois milhões de habitantes, a EU não tem nenhum deputado regional e pouquíssimos prefeitos. Lara acredita que os socialistas mantêm o número de cadeiras regionais deliberadamente baixo. "Com dois milhões de habitantes e cinco províncias, nossas Cortes só tem 47 cadeiras. Os socialistas não querem mais partidos no Parlamento".

A situação não é muito melhor em escala estadual. A Esquerda Unida foi minguando a cada eleição. Até ficar reduzida a dois deputados nacionais. Um deles é Gaspar Llamazares, anterior líder e ainda dono de um poder considerável dentro da coalizão. Como será a relação entre ambos? "Cordial, normal. Cayo não é homem de confronto nem de debate violento", disse Llamazares em uma conversa telefônica. "Conheço ele desde seus anos na Coag. Temos tendências políticas diferentes, mas não vejo dificuldades. Minha disposição para colaborar é total". Não só são distintas suas tendências, mas também suas paixões. Llamazares ama as caminhadas nas montanhas; Cayo, a caça no campo aberto. "É claro que eu não gostaria de estar na mira de sua escopeta", brinca o ex-coordenador da IU.

Cayo Lara representa a volta do PCE à cabine de poder da coalizão que o próprio partido criou em 1986. Ainda que o novo líder tenha fama de não ser dogmático, mas sim um comunista moderado. "Isso eu não entendo. Ele é comunista, sem mas. Ponto final", argumenta Francisco Frutos, secretário-geral da PCE. "É um homem profundamente democrático, que tem um bom relacionamento com Gaspar Llamazares. E tem minha total confiança".

"Cayo não tem inimigos no partido", confirma Esther Trujillo, vereadora da EU em Argamasilla, amiga e filha de amigos do líder da EU. "Não é possível fazer inimizade com ele. Não é inflamado nas discussões. É sensato. Casou-se no civil em 1980 e tem uma família muito normal". Esther o acompanhou na volta a Argamasilla no domingo de sua eleição, esgotado, mas contente. Foi uma festa no círculo familiar.

"Para nós é um orgulho", reconhece Paco, que dirige o bar El Gallo, no centro do vilarejo, por onde o novo líder da EU passa com freqüência.
Um lugar modesto, com porta de alumínio e vidro, teto baixo e aspecto pouco confortável. "Aqui, ele gosta da dobradinha e de tomar sua cachaça", diz. O único freguês presente concorda com o dono, dizendo que o colega é "uma figura excepcional". "Ainda que quando rapaz tenha estado na OJE [Organização Juvenil Espanhola]. E mesmo não tendo cercado o monumento aos mortos que temos na cidade", conta o mesmo cliente.

Correto ou não, o relato da conversa atravessou Argamasilla de ponta a ponta. Horas depois, Esther Trujillo, a vereadora da EU, telefonou à reportagem. "Cayo não teve nada a ver nunca com a Falange. Outros, sim, tiveram". Que isso conste da matéria. Cayo Lara, líder da Esquerda Unida, acredita que a crise dará outra oportunidade aos valores marxistas Eloise De Vylder

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