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01/01/2009

A promessa do pâncreas artificial

El País
Por Hugo Cerdà
O grande problema que os diabéticos dependentes de insulina têm é a dificuldade de administrar a dose adequada do hormônio no momento certo, assim como fazem as células beta de um pâncreas sadio. Com a demora da aposta no uso de células-tronco como solução para o problema, a melhor opção a curto prazo é juntar, por meio de um pequeno computador, as tecnologias já disponíveis: um medidor contínuo de glicose e uma bomba de infusão de insulina. Esse sistema integrado poderá ser, em breve, o primeiro pâncreas artificial.

Apaziguada a euforia inicial depositada no poder das células-tronco para curar o diabetes, as esperanças e esforços dos doentes e pesquisadores se dirigem agora para a realização de um objetivo paralelo que se imagina mais exeqüível a curto prazo: a construção de um pâncreas artificial.

As peças para confeccioná-lo já existem. Por um lado, as bombas de insulina, utilizadas por centenas de diabéticos; por outro, os sistemas de monitoramento contínuo de glicose, dos quais existem vários modelos no mercado, e que permitem medir os níveis de açúcar no sangue de forma constante. Agora, a meta é conectar a eles um pequeno computador que traduza as leituras do medidor de glicose em ordens para a bomba de insulina, determinando a quantidade de hormônio que o organismo necessita em cada momento.

Existem vários modelos de pâncreas artificial em fase experimental, projetados para simular a secreção fisiológica da célula beta pancreática. Os dados publicados, ainda que restritos às pesquisas com um pequeno número de pacientes e durante períodos curtos de tempo, fornecem provas de que o controle da glicose pode ser alcançado por meio de sistemas que chegam a imitar o comportamento dessas células do pâncreas.

A coordenadora do grupo de trabalho sobre novas tecnologias da Sociedade Espanhola de Diabetes, Maria Soledad Ruiz de Adana, está convencida das possibilidades do pâncreas artificial. "Esses sistemas integrados de monitoramento contínuo de glicose e infusão subcutânea de insulina representam um avanço no tratamento atual das pessoas com diabetes, e à medida seu desenvolvimento tecnológico melhora, podem chegar a ser o tratamento padrão para algumas pessoas com diabetes tipo 1", explica Ruiz de Adana, do serviço de Endocrinologia e Nutrição do Hospital Universitário Carlos Haya, de Málaga.

Pacientes com mais autonomia

Se assim for, os diabéticos poderão se beneficiar com um relativo relaxamento em seu compromisso de manejar a doença, transferindo para um computador a extenuante tarefa de tomar decisões constantes sobre a quantidade de insulina que devem injetar-se. Um pâncreas artificial devolveria ao paciente parte da autonomia roubada e deveria aperfeiçoar o controle da concentração de glicose e, portanto, evitar as complicações associadas.

A Fundação Para a Pesquisa de Diabetes Juvenil (JDRF) dos Estados Unidos está convencida da urgência de disponibilizar essa tecnologia, e, por isso, em 2006, lançou o Projeto Pâncreas Artificial, que se propõe a acelerar seu desenvolvimento. "Há muitos diabéticos que não estão fazendo [o controle] bem o suficiente. O padrão atual de cuidados para pessoas com diabetes e seus resultados não são aceitáveis. Precisamos proporcionar à pessoa com diabetes algum tipo de ajuda para tomar decisões seguras e efetivas, e acreditamos que essa ajuda virá de um pâncreas artificial", explicou Larry Soler, vice-presidente da JDRF, durante o workshop intitulado "Por um Pâncreas Artificial", que reuniu pesquisadores e representantes do FDA (agência de medicamentos norte-americana) e dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) em julho passado.

A JDRF financia com US$ 10 milhões um consórcio de sete centros de investigação que testam diferentes protótipos. Um deles, dirigido por Roman Hovorka, na Universidade de Cambridge (Reino Unido), começa a obter resultados esperançosos. Durante os últimos dois anos, provou a capacidade de seu pâncreas artificial para controlar as concentrações noturnas de glicose em 12 crianças com diabetes tipo 1.

O sistema concebido por Hovorka e seu grupo de pesquisadores conseguiu manter a concentração de açúcar no sangue das crianças em níveis considerados normais durante 61% do tempo, contra os 23% dos que seguiram o tratamento habitual.

Controle noturno

"Com o sistema fechado de controle [que lê o nível de glicose e administra a quantidade de insulina adequada], somos capazes de evitar os extremos, tanto de glicemias muito elevadas quanto muito baixas", explica Hovorka. Tudo isso à noite, momento em que o paciente não pode fazer muita coisa para regular sua concentração de glicose e, além disso, o processamento dos algoritmos é mais fácil, uma vez que não entram em jogo variáveis como a ingestão de alimentos ou a prática de exercício físico. "Queremos chegar a um modelo que possa ser comercializado, e o mais simples nesse sentido é o sistema fechado durante as horas de sono", assinala Hovorka.

A determinação dos cientistas chega a esse grau de pragmatismo. As inovações que estão se desenvolvendo, por limitadas que sejam, não podem esperar até a confecção de um dispositivo definitivo. O perfeito não deve ser inimigo do bom. Por isso, se existe um sistema que pode manter a concentração de glicose estável de maneira automática, ainda que somente durante a noite, ele deve chegar o mais cedo possível aos pacientes.

Os sistemas integrados de sensor de glicose e bombas de insulina poderiam ser úteis principalmente para crianças mais novas com diabetes tipo 1, dadas as suas limitações para gerir o próprio tratamento.

Mas, antes, os algoritmos matemáticos precisam ser melhorados, para que o pequeno computador seja capaz de interpretar as tendências na concentração de glicose e responder com rapidez e precisão às necessidades insulínicas. Além disso, será necessário avançar no desenvolvimento de sensores de glicose mais sensíveis e com maior duração (os atuais devem ser trocados entre cada três e oito dias).
Ainda assim, os especialistas duvidam que, a curto prazo, os primeiros sistemas permitam ao paciente se esquecer por completo de sua doença.
Eloise De Vylder

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