UOL Notícias Internacional
 

02/01/2009

O véu obscuro da Tchetchênia

El País
Pilar Bonet
Em Grosni
Sete mulheres foram assassinadas com tiros na nuca ou no peito no final de novembro em Grosni, capital da Tchetchênia, e arredores. As autoridades da república russa castigada pela guerra reagiram com indiferença ou desprezo pelas vítimas e tolerância em relação aos possíveis motivos dos criminosos. Acredita-se que os assassinos atuaram de acordo com os costumes tchetchenos, segundo os quais as "mulheres de vida leviana" recebem a pena de morte de seus parentes. Mas os defensores locais dos direitos humanos dizem que as misteriosas mortes não têm nada a ver com suas tradições, porque a "defesa da honra maculada" nunca foi pública, mas sim executada no círculo familiar. A acusada desaparece (por morte ou ostracismo) e ninguém mais volta a mencioná-la.

Em Grosni, as mulheres temem sair sozinhas ao anoitecer, apesar da forte iluminação da cidade reconstruída. Os rumores proliferam. Para a maioria, os crimes são uma advertência contra o comportamento liberal das mulheres numa sociedade submetida ao capricho de seu presidente, Ramzan Kadirov. Uma das versões, divulgada pelo jornal Novaya Gazeta, considera os crimes como uma vingança por parte de um dos comandantes de Kadirov, que teria "contraído o vírus da Aids em uma orgia sexual".

"Segundo nossos costumes, se uma mulher leva uma vida libertina, se dorme com um homem, então matam os dois", disse Kadirov aos correspondentes estrangeiros que o abordaram na frente da mesquita de Grosni. Construída com mármore e detalhes em ouro, o local, inaugurado em outubro, tem 36 lustres de cristal Swarovski e capacidade para 12 mil fiéis.

Sem muita convicção, Kadirov explicou que, segundo suas informações, as mulheres assassinadas haviam obtido passaportes para ir trabalhar em bordéis no exterior. A Tchetchênia não é regida pela lei islâmica, que determina o apedrejamento ou o linchamento da transgressora, disse. "Somos contra a lei islâmica desde os tempos de Ishkeria [nome da Tchetchênia separatista dos anos 90]. Mas temos esses costumes. Pergunte a qualquer menino o que faria se sua irmã levasse uma vida libertina, e por mais novo que seja, ele vai dizer que a mataria", assinalou.

Kadirov, recém-chegado de sua peregrinação a Meca, disse não ser partidário de tais métodos. "Para mim, como muçulmano, é uma ofensa matar mulheres, mas a existência desse tipo de mulher também é uma ofensa", disse. A solução está em "educar a irmã e a filha desde a infância para que isso nem passe pela cabeça delas... A mulher deve ter filhos e educar de forma digna as novas gerações".

"Os crimes foram demonstrativos e não têm nada a ver com as tradições", explica Natalia Istimirova, da organização Memorial.
Segundo Istimirova, entre as mortas havia duas mães de família trabalhadoras. Em agosto, Natalia enviou sua filha de 14 anos para estudar fora da Tchetchênia. Istimirova foi expulsa do conselho de organizações sociais de Kadirov porque se negou a acatar a ordem de cobrir sua cabeça.

O Estado é separado da religião na Rússia, mas Kadirov, filho de um mufti [acadêmico muçulmano especialista em leis] assassinado, transformou de fato o islamismo na religião oficial de seu território.
"Na Tchetchênia, somos 100% muçulmanos e o Islã floresce", afirma.

"Temos a forma tradicional do Islã, que nossos antepassados nos deixaram", acrescenta. Na república são cultivadas várias correntes sufis e existem milhares de mesquitas, segundo Isa Bankurov, vice-mufti da mesquita de Grosni.

Por conta do programa para o "renascimento espiritual e moral" da Tchetchênia, Kadirov ordenou há dois anos que as mulheres deveriam cobrir os cabelos. Agora, todas usam lenço, quer seja na cabeça ou no bolso... Os serviços de segurança, compostos em parte por ex-guerrilheiros de baixa escolaridade, as impedem de entrar com cabeça descoberta em prédios oficiais, incluindo as companhias de gás e eletricidade. A princípio, os guardas chegavam a dar empurrões ou agarravam-nas pelos cabelos, afirmam várias mulheres cujos nomes não são revelados por questões de segurança. "Agora nos adaptamos", diz uma delas, enquanto almoça num restaurante japonês, um dos locais que mostram a impressionante mudança física de Grosni. Uma nova cidade surgiu a partir das ruínas, com praças e jardins, teatros, lojas e até mesmo uma avenida em homenagem a Vladimir Putin, o chefe do governo russo. A mesquita é a imagem da nova Grosni, em substituição ao palácio bombardeado de Dudaiev, ex-sede do governo separatista.

A guerra se transformou em episódios isolados, atentados e operações policiais nos quais, segundo dados do Ministério do Interior, foram exterminados 61 guerrilheiros e 326 pessoas foram detidas desde o começo do ano. A violência e os desaparecimentos diminuíram, mas não se pode falar ainda de normalidade. Os jovens continuam fugindo para a montanha para unir-se à guerrilha, e as autoridades federais continuam considerando a república como uma zona de operações antiterrorista. A Tchetchênia tem 1,2 milhão de habitantes, e o desemprego, o maior da Rússia, afeta 65,3% da população ativa.

Em Grosni, os velhos mercados que davam às mulheres a possibilidade de ganhar alguns rublos estão fechados, apesar do protesto organizado das vendedoras, que são proibidas de alugar pontos de venda num luxuoso mercado central. Kadirov teve dinheiro suficiente para iluminar Grosni ostensivamente, mas não para compensar os que perderam suas casas durante a guerra, situadas no terreno onde será construída a sede do governo e a residência do presidente. Várias pessoas afetadas foram aos tribunais, o que na Tchetchênia, é uma prova de heroísmo ou de ingenuidade. Sete mulheres foram assassinadas a tiros por não acatarem a rígida moral islâmica Eloise De Vylder

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