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07/01/2009

Crescem as dúvidas sobre a capacidade política de Caroline Kennedy para ser senadora por Nova York

El País
David Alandete
Do El País
Em Washington
Por um momento, pareceu uma opção sólida e quase inevitável para substituir Hillary Clinton no Senado, já que a ex-primeira-dama foi escolhida pelo presidente eleito, Barack Obama, para dirigir o Departamento de Estado. Mas no último fim de semana, quando Caroline Kennedy, 51 anos, decidiu aparecer e dar uma série de entrevistas, o inevitável se transformou na sombra de uma dúvida. Agora Kennedy enfrenta a concorrência de candidatos com um currículo impecável no serviço público, entre eles o promotor geral de Nova York, Andrew Cuomo, e um problema talvez maior: sua própria inexperiência política.

O ano passado foi incomum para Caroline Kennedy. A mais jovem de um dos clãs políticos mais conhecidos dos EUA se manteve distante da vida pública ao longo dos anos. Formou-se advogada na prestigiosa Universidade Columbia, escreveu livros sobre direitos civis e formou uma família com seu marido, o desenhista Edwin Schlossberg, e três filhos.

A caçula do clã Kennedy teve um breve flerte com a vida pública entre 2002 e 2004, quando aceitou o cargo de diretora de alianças estratégicas do Departamento de Educação da prefeitura de Nova York. Seu trabalho consistia em arrecadar dinheiro para melhorar as escolas públicas da cidade.

Até 2008, ela havia tido um papel de administradora discreta e elegante portadora do legado de sua estirpe. Afinal, é a última dos Kennedy, depois do assassinato de seu pai e de seu tio Robert; da morte na costa atlântica de seu irmão John e do tumor cerebral que foi diagnosticado no ano passado em seu tio, o leão do Senado, Ted Kennedy.

Além de sua família, Caroline nunca pediu votos para nenhum candidato. Não se imiscuiu na política nacional na era Bill Clinton. Não fez campanha para Al Gore. Tampouco para John Kerry. Ocupou um discreto segundo plano até que chegou Barack Obama.

Parecia inevitável que os Kennedy apoiariam, pelo menos veladamente, o clã Clinton nas primárias presidenciais. De uma estirpe em seu ocaso a uma em plena reemergência. Mas Caroline decidiu que na corrida eleitoral só havia um presidente como seu pai, e era Obama.

Com essas mesmas palavras, "um presidente como meu pai", Kennedy intitulou um artigo de opinião que publicou no "The New York Times" em 27 de janeiro passado. "Nunca vi um presidente que inspirasse as pessoas como me dizem que meu pai era capaz de inspirar", escreveu. "Mas pela primeira vez creio que encontrei um homem que poderia ser esse presidente, não só para mim mas para toda uma geração de americanos."

Naquele momento, Caroline Kennedy lançou sua família em uma defesa apaixonada da candidatura do novo Kennedy, o que seria o primeiro presidente afro-americano dos EUA. A filha do mítico JFK via em Obama o defensor do velho legado de Camelot, o nome mágico com que sua mãe, Jacqueline Kennedy, batizou os breves anos de seu pai na presidência, de 1961 até seu assassinato em Dallas, em novembro de 1963.

Em junho, Obama nomeou Caroline uma das três pessoas para dirigir o comitê de busca do vice-presidente, cargo que finalmente recairia sobre o senador de Delaware Joe Biden. Depois da vitória em 4 de novembro passado, muitos foram os cargos que a imprensa americana previu para Caroline Kennedy, desde embaixadora em Paris até secretária da Educação. O destino e Obama quiseram que finalmente seu nome entrasse com mais força nas cabalas para substituir Hillary Clinton, que a família Kennedy abandonou nas primárias ao apoiar Obama.

Para ajudar Kennedy veio o que foi seu chefe no governo local de Nova York, o prefeito republicano convertido em independente Michael Bloomberg. Este pôs o vice-prefeito, Kevin Sheekey, para trabalhar em um único objetivo, descrito pelo "New York Times" deste modo: "Caroline Kennedy vai ser a nova senadora por Nova York, por isso todos devem pôr mãos à obra".

Quando um lugar no Senado fica vago fora de temporada de eleições é o governador do estado correspondente que decide quem o ocupará. A estratégia da equipe de Bloomberg era que o governador de Nova York, David Paterson, não tivesse outra opção senão indicar Kennedy.

O "Times", porém, detectou já então certas hesitações entre as bases democratas: "Existe uma preocupação de que o apoio do governo de Bloomberg à senhora Kennedy só reforce sua imagem de rica do Upper East Side cuja base de apoio está no exclusivo mundo social de Manhattan".

Kennedy quis se livrar dessa imagem com uma série de visitas ao interior do estado de Nova York e com uma simbólica refeição no conflituoso bairro do Harlem com o reverendo Al Sharpton em 18 de dezembro passado. "Venho aqui como mãe, como advogada, como escritora e defensora da educação, representando uma família que passou muitos anos no serviço público", disse aos veículos de mídia ali reunidos. "Gostaria de levar toda a minha experiência e capacidade a Washington."

Com esse fim, Kennedy compareceu diante da mídia no último fim de semana. O que deveria ter sido seu grande lançamento no cenário político nacional acabou sendo um desastre. Alguns jornais a batizaram de a Sarah Palin do Partido Democrata, devido à confusão e falta de substância de suas respostas. Um jornalista do "New York Daily News" lhe perguntou sobre as reduções de impostos para grandes fortunas que o presidente George Bush queria tornar permanentes. Sua resposta, sem adulterar, foi publicada pelo próprio jornal: "Bem, sabe?, é algo, obviamente, que, sabe?, em princípio na campanha, sabe? creio que, os cortes de impostos, sabe? iam expirar e precisavam ser revogados".

O tique de repetir a palavra "sabe?" a cada 10 segundos - a média foi calculada pelo tablóide "The New York Post" - não passou despercebida a nenhum jornalista. O "Times" a contou até 144 vezes em sua transcrição. Esse jornal reconheceu que, depois das respostas de Caroline, sua candidatura parecia tudo menos inevitável: "Ainda parece menos uma candidata do que a idéia de uma candidatura. Forte mas vaga, amplamente indefinida e ao que parece decidida a permanecer desse modo".

As dúvidas semeadas pela mídia são tão grandes que inclusive a equipe de Bloomberg recuou e decidiu não pressionar o governador Paterson para que a escolha. Segundo revelou o "Post" na última terça-feira, o vice-prefeito Sheekey "abandonou a campanha para promover Caroline Kennedy ao Senado porque 'não estava funcionando', segundo fontes anônimas". "O tiro saiu pela culatra", disse outra fonte sobre os esforços do vice-prefeito Sheekey.

Um dos grandes concorrentes com os quais Kennedy se encontrou é o promotor geral de Nova York, Andrew Cuomo, que foi casado com uma prima de Caroline, Kerry Kennedy. Cuomo foi secretário da Habitação de Bill Clinton entre 1997 e 2001 e mantém boas relações com a família do ex-presidente.

Nas pesquisas, os dois candidatos mantêm um empate técnico. Segundo a publicada pelo Instituto Sierra em 18 de dezembro, Cuomo seria o escolhido por 26% dos nova-iorquinos, contra 23% que prefeririam Kennedy. A caçula do clã terá de se envolver em uma dura campanha se quiser chegar a Washington.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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