UOL Notícias Internacional
 

09/01/2009

Discriminados por motivo de doença

El País
Emilio de Benito
Em Madri
Creches inacessíveis, aluguéis impossíveis, dentistas que se negam a tratá-los ou esperas médicas ainda são comuns para os portadores da Aids na Espanha

Não importa se Dolo Alegría tem o HIV ou não. O que pesou no ânimo de um arquiteto de Murcia foi o fato de ela ser presidente da Associação Murciana HIV (AMUVIH na sigla em espanhol), uma organização jovem que queria alugar um local de sua propriedade. Depois de combinar o preço (350 euros por mês, "uma bagatela"), Alegría percebeu que o proprietário recuava. A causa: o apartamento ia ser usado por pessoas com o vírus da imunodeficiência humana, e o dono não queria ter "problemas com os vizinhos".

Não é uma história de 15 anos atrás. Ocorreu há alguns meses. "O escritório tinha sido usado antes por advogados, mas para os moradores não parecia importante que dele entrassem e saíssem supostos criminosos. O que importava ao dono era que seria usado por pessoas com HIV", relata Alegría.

Presidente da associação desde 2005, ela sempre havia acreditado que as histórias que ouvia de discriminação entre os que se aproximavam para receber tratamento eram "um pouquinho exageradas". "Eu nunca tinha visto", lembra. Por isso, a atitude de seu possível senhorio lhe causou "um choque", segundo ela admite. "Me desanimou muito, e pensei: esse sujeito é um imbecil!" Mas se recompôs e hoje, depois de três anos usando a casa de Alegría como sede, a associação tem um local "ainda melhor", ela conta.

O caso de Alegría e sua associação não é uma exceção. No período entre 1º de janeiro e 31 de outubro do ano passado, a assessoria jurídica do Observatório de Direitos Humanos e HIV/Aids recebeu 113 consultas sobre possíveis casos de discriminação. O maior número de consultas se referiu ao âmbito do trabalho (36), seguido pelo dos tratamentos de saúde (21) e assistência social (21).

São uma norma ou uma exceção? As ONGs de doentes acreditam que é mais frequente do que se supõe. Entre as consultas recebidas pelo observatório está a de uma jovem de 19 anos à qual foi negada uma limpeza bucal pelo dentista; um homem de 45 anos demitido sem qualquer motivo depois de trabalhar dez anos na mesma empresa ou um menino rejeitado na creche depois de apresentar a carteirinha médica. Em todos os casos, salienta Paco Miralles, representante do Observatório, só havia um ponto em comum: os três tinham o HIV.

Exatamente pela delicadeza do assunto, é difícil encontrar pessoas que contem seus casos. A própria Alegría remete a outra mulher da associação, à qual em princípio foi negada uma hipoteca para reformar o apartamento que acabava de herdar de seus pais. "Só conseguiu porque a diretora do escritório era amiga sua e as duas ocultaram sua situação", conta.

"Esse é o dia-a-dia das pessoas com HIV, inclusive as que têm rendas saudáveis." Emilio sabe disso por experiência própria. Embora seja um profissional que ganha "mais de 3 mil euros líquidos por mês", há menos de um mês recebeu a última negativa de seu banco. "Chegou uma gerente de contas nova e tentou me vender um seguro de vida. Eu disse que podia tentar, mas que não seria aprovado. Ela não acreditou. Dois dias depois recebi um e-mail em que ela me dizia que eu tinha razão, e em troca me ofereceu uma conta de poupança", conta. "Logicamente recusei. Porque me cansa estar sempre com a mesma história. Pelo menos que se informem", acrescenta.

Nem sequer o setor de saúde - teoricamente o mais preparado - se livra de comportamentos discriminatórios. Há menos de um mês soube-se que ainda havia hospitais em Madri que tinham um protocolo não-escrito segundo o qual as pessoas com HIV eram operadas por último em cada turno. "É absurdo. Ele querem dizer que não têm certeza da limpeza dos equipamentos entre um paciente e outro? Porque nesse caso eu, que tenho o sistema imunitário pior, quero ser o primeiro, e não me arriscar a que me passem algo. E se não for assim não faz sentido", diz Julián (nome fictício), um homem que viveu essa discussão com sua anestesista em setembro, quando foi fazer o pré-operatório de uma intervenção no estômago.

Problemas no trabalho, com o banco, com os médicos, o senhorio... e com a família. Gloria (nome fictício) ainda não acredita em seu caso. "Quando meu sobrinho nasceu, em maio, ficamos todos loucos. É o primeiro filho de minha irmã, com a qual sempre fui muito unida. Inclusive tinham falado que eu seria a madrinha. Em minha casa sabem que tenho o HIV há seis anos, quando o meu ex morreu. Mas de repente, quando fui ao hospital, vi que meu cunhado não me deixava pegar o menino. Pensei que fosse porque estava um pouco esfriada e achei normal, mas passaram sete meses e ele continua igual. Cada vez que me ofereço para ficar com o menino me dão uma desculpa", conta. "Quase não me convidaram para o batizado. Minha mãe teve de intervir."

Gloria está bem de saúde agora, mas tem lipodistrofia (um efeito secundário da medicação), o que deixou seu rosto chupado, o ventre inchado e as pernas "como dois palitos". Está à espera de que em seu hospital - um centro público de Madri cujo nome não quer dar - lancem um protocolo para operar seu rosto.

O ministro da Saúde, Bernat Soria, anunciou em agosto passado que essas intervenções de preenchimento serão cobertas pela saúde pública, mas o médico de Gloria ainda não considera que ela preenche os requisitos para pedir a operação.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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