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13/01/2009

A Bulgária, país mais pobre da Europa, é a principal vítima da guerra do gás

El País
Ricardo M. de Rituerto
Em Sofia (Bulgária)
Voltar para casa na noite de terça-feira passada foi traumático para Vladislav Velev, um jovem profissional em torno dos 30 anos que mora em um bairro popular de Sofia, a capital da Bulgária, país europeu mais afetado pela crise do gás. "Não havia calefação; a rádio fazia apelos para poupar energia; a grande loja de brinquedos que se vê do balcão, sempre cheia de cores, estava escura; o posto de gasolina ao lado estava apagado, não havia luz em lugar nenhum. É desesperador. Toda essa escuridão e esse frio!", lembra hoje, ainda cheio de frustração e apesar de um pequeno aquecedor elétrico temperar agradavelmente a modesta sala de seu apartamento minúsculo no complexo Goce Delchev da capital. "A Bulgária faz parte da UE, e eu não esperava viver como em um país do Terceiro Mundo." Ele pensa melhor e explica: "Apesar de a Bulgária..."

A Bulgária não é invejável, e as estatísticas deixam isso muito claro. Com um Produto Interno Bruto per capita de 8.600 euros, apenas um terço da média dos 27 países da UE, é o mais pobre da união, abaixo da Romênia. E em cachorro magro tudo são pulgas: apesar de 100% do gás que consome procederem da Rússia, assim como outros parceiros comunitários, a Bulgária é o único que não tem vias alternativas ao abastecimento, que vem da Ucrânia.

Velev maldiz a situação e ironiza sobre o governo. "Encheu a boca dizendo que a Bulgária seria o grande centro distribuidor de energia dos Bálcãs, que exportaríamos eletricidade para a região, que teríamos mais gasodutos alternativos... e acontece que estamos sem gás", despeja. "Já vivemos a crise de 2006, que não se notou, mas o governo deveria ter feito algo. Não fez nada. Inclusive a única reserva que bombeia gás funciona pela metade porque a máquina não tem potência para mais."

Além das grandes ambições energéticas do Executivo, a realidade é que em sua casa nestes dias não há água quente. É uma das consequências do peculiar sistema de calefação da Bulgária, onde centrais térmicas alimentadas a gás servem diretamente água quente às residências. Quatro abastecem as necessidades da capital, o que representa longos quilômetros de percurso - e ineficiência energética - até os prédios de apartamentos. E como o de Velev tem mais de 40 anos e padece de todos os defeitos estruturais que se possa imaginar, não recebe água quente. E não só ele. "Esse é o tipo de moradia majoritário no país", diz Velev, referindo-se a esses edifícios tipo caixa de fósforos, próprios do socialismo real. "Tenho amigos que nesses dias vão tomar banho na casa dos seus pais e seus sogros."

No sábado soube-se que a Ucrânia está disposta a abastecer com suas próprias reservas as necessidades da Bulgária, mas Velev estava cético. Nesse caso, segundo seus cálculos, a normalidade só retornaria em meados da semana.

A crise do gás fechou algumas indústrias, reduziu a atividade de outras e mandou os estudantes para casa. Embora em pequeno número, já que só 84 dos quase 2.800 colégios do país cancelaram as aulas. Um deles, o Czar Ivan Assen II, que leva o nome de um grande rei medieval, abriga 800 alunos, desde o primário até os 18 anos. Os colegiais passam todos os dias diante do mural de uma dezena de metros grafitado na fachada; em um dos extremos há um retrato de Osama bin Laden. No outro, dois meninos brincam com bonecos e trens. Entre um e outro ponto, imagens de caos e destruição.

"Não houve aula na quinta e na sexta-feira porque a lei estabelece que nas classes a temperatura não deve ser inferior a 18 graus centígrados. Na quinta tivemos 11 graus", explica a subdiretora, Evelina Stancheva, que amanhã receberá de novo os inspetores com seus termômetros, transformados, por causa do frio no interior das residências, em objeto que não se encontra em Sofia.

"É a primeira vez que acontece algo semelhante, até nos piores momentos de 1996-97, quando houve a grave crise financeira e não se podia pagar, houve normalidade no abastecimento", lembra Stancheva. Naquela época, o sistema bancário búlgaro quebrou; a moeda nacional, o lev, foi a pique; os alimentos desapareceram das lojas e um professor chegou a ganhar o equivalente a 13 euros. "Agora com a UE os salários estão subindo pouco a pouco, embora o salário médio de um professor beire os 300 euros, que só serve como complemento de outro salário", reconhece. Aquecer um apartamento pequeno custa 50 euros por mês.

Esses salários tão baixos que a Bulgária oferece a seus profissionais preocupam mais que a crise do gás ao doutor Nikolay Doganov, diretor da Maichim Dom (Casa para as Mães), hospital universitário e principal maternidade do país, onde todo ano nascem 3.200 búlgaros. "A rotina destes dias é a mesma. Normalidade absoluta. Não foi preciso cancelar operações. Nos andares superiores, onde estão as mães e os recém-nascidos, a temperatura está entre 21 e 24 graus." Como os radiadores estão apenas mornos, a calefação foi reforçada com aquecedores elétricos. "Realmente teremos problemas se houver algo com a eletricidade", previne. Já em meados da semana houve uma apagão de cinco minutos no centro da cidade porque a rede não suportou a demanda.

O problema do gás é passageiro para Doganov, angustiado pela fuga de seus profissionais atraídos por melhores salários e o conforto da outra Europa. Ele diz que no hospital os salários aumentaram 20%, para quase 600 euros no caso das parteiras, mas a fuga é incontível. "Deveria haver três enfermeiras para cada médico e só temos a metade", lamenta.

Com esses salários escassos que sobem lentamente, os habitantes de Sofia enchiam no sábado os centros comerciais. Em um deles, a cadeia de eletrodomésticos e eletrônica de consumo Techno Markt tinha dezenas de aquecedores elétricos à venda. "Na quarta-feira levaram todos", explicou um atendente. "Nós repusemos, mas hoje as pessoas voltaram a prestar mais atenção nos televisores e lavadoras."

E também na lenha. Junto ao centro comercial, um homem descarregava um carro cheio até o topo, maleiros e assentos traseiros, de troncos e galhos cortados. Era uma imagem urbana, mas habitual fora da cidade e entre os que ocupam residências individuais.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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