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13/01/2009

"O homem chinês acredita que a mulher é uma propriedade", diz apresentadora da televisão chinesa

El País
José Reinoso
Falar sobre a mulher na China é como querer descrever o universo e conhecer somente uma estrela. A China é um país imenso e a situação difere muito entre o campo e as cidades. E nestas depende de seu nível de educação. Mas se há alguém que conhece os sonhos e os temores, as esperanças e os desejos do sexo que, segundo Mao Tse-tung, "sustenta a metade do céu" é Zhang Yue, apresentadora do programa mais popular e antigo da televisão pública chinesa CCTV, dedicado à mulher.

Zhang, 43 anos, solteira, viveu em primeira pessoa as dificuldades para fazer um nome na telinha quando não se corresponde aos padrões de beleza. A ponto de um veículo da mídia local ter publicado sobre ela há alguns anos: "Morreram todas as belezas da China?"

"Quando eu era menina, tinha três sonhos: ser escritora, cozinheira e cantora de ópera. Por isso estudei literatura e depois de me formar comecei a dar aulas e a escrever comédias. Me encomendaram uma para a CCTV e gostaram. Depois fui roteirista de um programa no qual descobri que as meninas queriam ser modelos, atrizes ou aeromoças. Eu achava que eram tão tolas, porque meu sonho era ser cozinheira", diz.

Um sonho que pôde ver cumprido em parte graças à própria televisão, onde trabalhou em um programa de culinária. Talvez devido a essa paixão pela comida, não hesita enquanto vira as páginas do cardápio e pede uma série de pratos da província sulina de Yunnan, especialidade do restaurante.

O programa que ela dirige, "A Metade do Céu", aborda temas como a educação e a saúde femininas, a mulher na política ou a defesa de seus direitos. Zhang Yue viajou por todo o país para tentar retratar o universo feminino no qual, segundo ela, continuam pesando as tradições, apesar de a situação estar mudando. "Segundo a cultura tradicional chinesa, a mulher é mais uma propriedade do homem, como um enfeite ou uma cadeira; não tem opiniões próprias e deve dizer o que os demais lhe disserem. Hoje a mulher não aceita isso, mas o homem chinês ainda pensa assim."

Zhang Yue distingue entre zonas rurais e urbanas. "No campo, as mulheres tentam ganhar dinheiro para deixar para trás a pobreza; nas cidades buscam o sentido de segurança, felicidade e autoestima. Mas muitas mulheres emigraram e a vida está lhes ensinando a lutar por seus direitos. A mulher chinesa avançou muito mais depressa que o homem."

Mas como é o homem? "Também vive sob a pressão da cultura tradicional, que exige que seja um líder, que tenha sucesso muito rápido. Por isso esqueceu seus sentimentos."

Zhang Yue afirma que "a mulher ocidental percebeu as desigualdades, quis a independência e ocorreu um movimento de baixo para cima". "Mas a mulher chinesa não quer pedir algo por si mesma. A idéia de igualdade veio de cima, por lei. Não entende a independência de espírito, e por isso fazemos esse programa", diz.

E onde ficou o sonho operístico de Zhang? "Quando era jovem fui procurar um professor de canto. Depois da audição, ele disse: 'Pode ir embora'." Apesar dos anos que passaram, ela não renunciou a essa paixão. Falou com uma famosa atriz de ópera sua amiga e está esperando que lhe deem um papel. "Mas não falarei nem cantarei na obra", afirma, rindo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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