UOL Notícias Internacional
 

13/01/2009

Palestinos sofrem um desastre humanitário descomunal na Faixa de Gaza

El País
Juan Miguel Muñoz
Em Jerusalém
"Para muitas pessoas é um tormento cuidar dos bebês e das crianças menores. Sabe? Elas evacuam... Mas não há água nem fraldas. Imagine como nos arranjamos", comenta Mohammed, pai de quatro. Sem água corrente, com um escasso suprimento de alimentos, sem calefação no inverno, sem poder escapar da Faixa, sem capacidade para curar feridos, seus 1,5 milhão de habitantes sofrem um desastre humanitário descomunal. Causado não só pelo ataque brutal de 16 dias das forças armadas israelenses. Há três anos o território sofre um bloqueio asfixiante que só faz piorar. Israel pretende acabar com o lançamento de foguetes. Sem dúvida está certo. Mas muitos apontam para uma estratégia calculada. "Gaza não é um caso de subdesenvolvimento econômico. É um caso único e cruel de subdesenvolvimento deliberado", escreveu o historiador israelense Avi Shlaim. Para que não levantem a cabeça. "Faremos Gaza voltar 20 anos atrás", disse um membro do gabinete israelense. Conseguiram.

Em agosto de 2005 o governo de Ariel Sharon executou a evacuação dos colonos judeus de Gaza e representantes de organismos financeiros internacionais previram um futuro promissor. Alguns falaram em transformar Gaza em um enclave no estilo de Cingapura. Mas os palestinos não comemoraram a evacuação. Nem uma pessoa saiu às ruas. Estão cansadas de escutar promessas. No domingo, amplas áreas do campo de refugiados de Yabalia, de Rafah, de Beit Lahia e da cidade de Gaza ofereciam imagens dantescas, que lembram a destruição de Grosni, a capital da Chechênia bombardeada.

A magnitude do desastre é especialmente crua para os mais de 3.000 feridos pelo fogo israelense e os doentes, que sofrem uma conjuntura traumática. Não é novidade. Já viveram isso quase 300 seres que morreram por falta de cuidados médicos em 2008. O governo israelense - e também o egípcio - os impediu de ser tratados fora de Gaza. Houve casos sangrentos. Uma família obteve afinal a permissão do serviço secreto israelense. Tarde demais. O doente tinha sido enterrado dias antes.

Também é dramático para os médicos, que lutam para avaliar uma situação desesperada. Os dados das agências da ONU são esclarecedores: 70% dos pacientes crônicos suspenderam seus tratamentos; entre 25% e 50% dos médicos e enfermeiras não podem ir aos hospitais, embora no sul superem os 90%. Alerta-se para o risco de epidemias. Os serviços de epidemiologia, pré-natais e laboratórios suspenderam suas atividades; as campanhas de vacinação foram interrompidas nos 58 hospitais e centros de saúde, dos quais só 34 funcionam e com geradores. Porque a eletricidade é um luxo.

Três em cada quatro moradores está sem luz elétrica. Faz frio e o risco de hipotermia para as crianças é grave. "Há muitas residências com as janelas destruídas. As pessoas têm de colocar plásticos, mas muitos que as conservam as abrem para evitar que a onda dos bombardeios as destrua e machuque alguém. É perigoso", explica Mohamed.

Há apenas três anos, Gaza era um lugar pobre, com uma economia à mercê dos avatares políticos e sempre em declínio. Seus habitantes se apressavam então a votar. Venceu o Hamas. E quase nenhum país do mundo aceitou o veredicto das urnas. Acabava-se de assinar um acordo entre a Autoridade Palestina, os EUA, a União Européia e Israel que definia em 450 contêineres o abastecimento diário à Faixa de Gaza. A média dos últimos dias é de 67. Bom registro comparado com a média de novembro, quando só 23 caminhões descarregaram por dia suas mercadorias. Durante os meses de trégua, entre junho e dezembro de 2008, Israel nunca permitiu um fluxo que se aproximasse remotamente do combinado.

Há três anos comprava-se de tudo nos supermercados. O dia-a-dia hoje é uma luta pela subsistência. Das 27 fábricas de pão, só nove funcionam. "As filas para comprar são quilométricas. Você espera quatro horas para muitas vezes sair de mãos vazias. Em casa fazemos pão sem levedo. Nas lojas não há de nada, comem-se favas secas, algum legume e grão-de-bico a preços muito altos. Verduras? O que é isso? Ninguém se atreve a colher nos campos. E os açougues fecharam. Os donos não compram carne porque não podem conservá-la. Mas se bombardeiam até as granjas de frangos!", explica Kayed, morador da capital.

Quase um milhão de pessoas dependem da ajuda alimentar da Agência da ONU para os Refugiados (UNRWA) e do Programa Mundial de Alimentos. Suspenderam várias vezes a distribuição de comida. E tudo agravado porque Israel não permite que as demais ONGs trabalhem em Gaza desde 4 de novembro.

Em 2005 via-se a miséria e se observavam depósitos de lixo imundos. Mas não acontecia o que acontece hoje na cidades do norte Beit Lahia e Beit Hanun. As águas negras brotam pelos ralos. Há 170 estações de bombeamento de água e tratamento de águas residuais. Não funcionam. Não há combustível. O abastecimento de água, que é salgada há anos, foi cortado para 80% da população. É um colapso geral. Milhares de palestinos não podem se comunicar devido ao péssimo funcionamento da rede de telefonia móvel e fixa. Às vezes não podem nem ir aos enterros. Não são informados da morte de familiares ou amigos.

Reservistas em ação
Os reservistas israelenses entraram em ação. Um sinal de que a invasão terrestre se estenderá pelas próximas horas ou dias e que no domingo já se podia antecipar porque os soldados combatiam pela primeira vez nos bairros do sul da cidade de Gaza. Oito dias atrás o exército chamou dezenas de milhares de reservistas para o caso de possível ampliação dos ataques por terra para o interior das cidades, o que pode provocar um aumento de vítimas fatais de causar calafrios depois de 16 dias de batalhas e bombardeios: 884 palestinos mortos - pelo menos 368 mulheres e crianças - e mais de 3.800 feridos, 413 deles em estado grave, segundo fontes médicas palestinas.

Os fatos se precipitam nesta guerra em que o exército israelense está empregando, segundo a organização Human Rights Watch, bombas de fósforo, proibidas pelas convenções internacionais. Mark Regev, porta-voz do gabinete do primeiro-ministro, não desmentiu. Apenas indicou que Israel usa armas que são utilizadas por outros países ocidentais. O Hamas também disparou pela primeira vez um míssil terra-ar.

Os bombardeios maciços causaram no domingo os primeiros quatro feridos por metralha em território egípcio. E também ocorreu um incidente no Golã sírio ocupado. Soldados israelenses foram atacados a tiros. Não houve feridos. O governo de Israel acredita que não foi obra de militares sírios, mas de palestinos armados.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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