UOL Notícias Internacional
 

14/01/2009

Esportistas vetados para a política

El País
J. J. Mateo e J. Morenilla
Os governos usam o esporte, mas os esportistas não podem opinar e muitos se revoltaram

Sergio Manzanera recebeu ameaças de morte. Também teve que depor na delegacia, foi multado em 100 mil pesetas por perturbação da ordem pública e acabou agradecendo não ter telefone em casa. Era normal: na Espanha mandava Franco, vigorava a ditadura, e tanto Manzanera como Aitor Aguirre, seu companheiro no Racing, tinham decidido jogar em 28 de setembro de 1975 com uma braçadeira preta em protesto contra os últimos cinco fuzilamentos do franquismo. Quase 35 anos depois, Frederic Kanouté, atacante do Sevilla, decidiu na quarta-feira que seu gol contra o Deportivo devia ser acompanhado de uma declaração política. Mostrou uma camiseta com a palavra "Palestina". E assim, em plena invasão israelense à Faixa de Gaza, ganhou uma multa de 3 mil euros que o une a Manzanera, Muhammad Ali e Tommie Smith.

Os esportistas, segundo a regulamentação olímpica e da Fifa, são como os militares: indivíduos despojados do direito de expressar sua opinião em público, cidadãos sem direito a falar de política mas utilizados pelos políticos desde a Alemanha de Hitler à China comunista, passando pelos EUA ou a União Soviética na Guerra Fria e, mais recentemente, na batalha pelas seleções autonômicas espanholas como expressão nacional.

"O que Kanouté fez é um gesto que não ofende ninguém", diz Manzanera. "Não deveria ser sancionado. São ordens da Fifa, que não quer que a política se imiscua no esporte. Talvez seja algo estético, para que em cada gol não apareça uma camiseta diferente, uma com 'Viva o PSOE', outra com 'Viva o PP'."

O atacante do Sevilla, como Manzanera, pertence ao grupo dos esportistas comprometidos. Gente que reage diante da realidade de seu tempo, que opina e tenta influir, provocar a mudança. "Naqueles momentos difíceis optamos por lutar pela chegada da democracia", lembra o ex-jogador do Racing. "O público praticamente não percebeu porque usávamos duas faixas muito finas. Depois, quando saiu na imprensa... ganhou importância. Houve ameaças de morte contra o presidente do Racing e contra mim. Chegaram através de cartas enviadas a vários jornais por alguma facção da extrema-direita. No dia seguinte nos levaram para depor na delegacia. Naquela época eu não tinha telefone em casa. Senão... Foi um detalhe a mais em um momento de grande ebulição social, de manifestações e pressões por parte da Europa para que fosse restaurada a democracia na Espanha. Havia a possibilidade de mudança e decidimos apoiá-la."

Por que as instituições esportivas, organismos cheios de políticos, se opunham a isso? "Porque o esporte sempre pretendeu ser apolítico", responde Manuel García, catedrático e co-autor de "A Sociologia do Esporte". "Desde os momentos iniciais do movimento olímpico e das primeiras federações desportivas, no século 19, o esporte demonstra uma vontade de autonomia, de independência, um desejo de viver de costas para a política para ser um lugar neutro", continua. "O esporte é universalista. Um lugar de encontro: mistura-se entre o público gente de convicções díspares unida por uma equipe."

Se um esportista se expressa politicamente no exercício de sua profissão, corre o perigo de causar um tumulto entre os espectadores, insinuam os dirigentes. Abusa de sua capacidade de influência sobre os torcedores. Além disso, perde-se o efeito unificador de eventos como os Jogos Olímpicos, que sofreram os efeitos da Guerra Fria com o boicote americano aos jogos de Moscou em 1980 e o correspondente boicote soviético aos de Los Angeles em 1984. Os esportistas novamente tinham sido utilizados para a luta política, embora não tivessem o direito a falar. Talvez nisso estivesse pensando Alejandro Blanco, presidente do Comitê Olímpico Espanhol, quando certa manhã de agosto se dirigiu aos espanhóis que foram a Pequim para disputar os jogos:

"Não se podem fazer declarações de conteúdo político na área olímpica: nem na vila nem nas instalações. Não se pode escrever em meios de comunicação. A consequência é a retirada das credenciais e para casa. Já somos maiores. É o momento do esporte e dos esportistas. O da política será outro. Precisava lhes dizer isso", terminou.

Foi o que escutou Aleksander Sasha Djordjevic antes da final da copa Korac de basquete de 1999. Não se importou. Sua equipe, o Barça, venceu o Estudiantes e Djordjevic passou à ação: com a Sérvia de Milosevic sob as bombas da Otan, tirou um cartaz sem aditivos, explícito: "Parem a guerra".

"Estava preparado. No final da partida um jornalista catalão, que também sentia a necessidade de enviar uma mensagem, me deu o cartaz", explica por telefone o ex-campeão da Europa. "Pedimos que parassem a guerra, o mal deste mundo", continua. "O que Kanouté fez é dar sua opinião. Cada um é livre para se expressar. Não deveria haver polêmica. Respeitar a liberdade de expressão é crucial, importantíssimo para ser livre", acrescenta. "Eu fiz uma declaração compartilhada por todos aqueles que entendiam qual era o problema. Os EUA influem sobre os países pequenos, sobre os povos secundários como o meu, de uma maneira enorme. Expressar-se, embora seja forte, é liberdade, seja de esportista, engenheiro hidráulico ou jornalista. Pode-se estar de acordo ou não, mas opinar é um direito."

Muitos outros esportistas pensam como Djordjevic. Sérvios como os futebolistas Mihailovic, Stojkovic e Mirkovic saíram em campo com camisetas que pediam a paz em italiano e inglês; brasileiros como Romário fizeram o mesmo, como logo faria o australiano Cadel Evans, que abriu sua dourada e majestosa malha de líder do Tour de France para pedir com uma camiseta a liberdade no Tibete; o canadense Steve Nash, que protestou na mesma partida das estrelas da NBA contra a guerra do Iraque. Depois de mostrar sua camiseta ("No war. Shoot for peace" - Não à guerra. Disparem pela paz), acabaria entregando um prêmio a John Carlos e Tommie Smith, as faces, os punhos e o protesto mais representativo dos esportistas.

"Havia vivido muitas injustiças e minha família também, e esse foi o momento para fazer ouvir minha voz", lembrou Smith para este jornal sobre o dia em que levantou seu punho junto de Carlos no pódio dos 200 metros dos Jogos de 1968, o que lhes custou a expulsão da vila. "Os membros do Comitê Olímpico Internacional são uns idiotas, nunca entenderam isso. Agora, quando encontro algum, me diz que se cometeu uma injustiça, mas são uns hipócritas e mentirosos. Pelas costas dizem o contrário", conta sobre seu protesto contra a segregação racial.

Coisa parecida aconteceu com o grande Mohammad Ali, do qual tiraram o título de campeão mundial dos pesos-pesados porque se negou a ir à Guerra do Vietnã. Ali, o homem que boxeava movendo-se como uma mariposa, enfrentou cinco anos de prisão e uma multa de US$ 10 mil depois que se declarou objetor.

Houve outros casos. Robbie Fowler apoiando os demitidos do porto de Liverpool. Jogadores de futebol pedindo a libertação de sequestrados, como no campeonato colombiano. Olímpicos como a russa Paderina e a georgiana Salukvadze, que se abraçaram neste verão no pódio de tiro com pistola de ar a 10 metros enquanto seus países estavam em guerra. Houve também fascistas orgulhosos como Di Canio, futebolista do Lazio multado em 10 mil euros por fazer a saudação com o braço erguido; americanos como os jogadores de basquete Chris Paul ou Greg Oden, que apoiaram Barack Obama. E espanhóis como os 165 futebolistas e ex-futebolistas bascos que se negam a jogar com sua seleção regional se esta não utilizar o nome de Euskal Herria, promovido pelo Herri Batasuna [união da esquerda basca]. Mais uma vez, esportistas usados na luta partidária.

Há quem diga que o futebol é um substituto civilizado da guerra. Levado ao extremo, os jogadores se deixam ser soldados, e como tais testemunhas mudas do mundo e seus pecados. Ocorreu antes do caso Kanouté. O egípcio Abou-Treika, estrela africana, marcou um gol e não parou para pensar que devia ficar calado. "Solidariedade com Gaza", colocou em sua camisa. O tiraram de campo e foi repreendido "severamente". Havia tentado opinar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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