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14/01/2009

"Seria lógico um acordo contra o narcotráfico entre Cuba e os EUA", diz secretário

El País
José Manuel Calvo
Em Madri
Desde sua nomeação em outubro de 2005, o americano Thomas Shannon, secretário de Estado adjunto para a América Latina, aplicou uma política pragmática apreciada no continente latino-americano e na Espanha. Shannon, que acaba de passar por Madri depois de viajar a Moscou, disse à secretária de Estado para a Ibero-América, Trinidad Jiménez, que o governo Bush transmitirá para a equipe do presidente Barack Obama que "o diálogo iberoamericano com a Espanha é um aspecto essencial" na política dos EUA na América Latina.

El País - O senhor verificou o que a Rússia quer fazer na América Latina?

Thomas Shannon -
Fui à Rússia para reativar o diálogo sobre a América Latina e o Caribe e deixar claro que nem os EUA nem a Rússia têm interesse em ressuscitar a Guerra Fria no cenário latino-americano.

EP - Caracas comprou de Moscou armas no valor de quase 3,3 bilhões de euros: aviões, helicópteros, 100 mil fuzis Kalashnikov...

Shannon -
Dizem que faz parte de um programa de modernização de seu armamento, e em parte é verdade. Mas nos preocupa que possam provocar outras compras na região. E o que será feito dos velhos fuzis? Nosso temor, que países vizinhos compartilham, é que acabem no mercado negro e possam chegar aos cartéis da droga e a redes criminosas.

EP - Que futuro tem o presidente Chávez sem um George Bush com o qual se meter e com um barril de petróleo a US$ 40?

Shannon -
Isso depende dos eleitores da Venezuela. A queda do preço do petróleo e seus problemas internos indicam que ele terá de se preocupar mais com o que está acontecendo na Venezuela e menos com a América Latina.

EP - Na imagem latino-americana de Chávez, há um antes e um depois do "Por que não te calas?"

Shannon -
Em alguns países a mensagem de Chávez ainda tem ressonância, mas depois de dez anos no poder já não é suficiente: é preciso vinculá-la com conquistas, e há muito poucas conquistas.

EP - A crise econômica está causando tensões na região.

Shannon -
A crise vai acelerar o diálogo. É preciso diminuir a tensão. Os conflitos se devem em parte às novas relações: até agora foram manipuladas em estruturas antigas; superá-las demonstra uma maturidade muito positiva.

EP - A união da América Latina e Caribe que surgiu da cúpula no Brasil passa a andar sem a presença dos EUA ou da UE.

Shannon -
Há muitas iniciativas de diálogo. A do Brasil é uma; a secretária de Estado americana, Condoleezza Rice, esteve no Panamá com os ministros dos 11 países membros da Caminhos para a Prosperidade, com os quais há acordos de livre comércio. Os centro-americanos acabam de se reunir em San Pedro Sula... E em abril está marcada a quinta Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago. Há muitos fóruns, seria um erro caracterizar um deles como excludente e os outros não.

EP - Quantas vezes o senhor ouviu dizer que os EUA não têm uma política latino-americana?

Shannon -
Não tenho dedos nas mãos para contá-las...

EP - Washington costuma responder dizendo que há 20 situações diferentes. Mas a atenção não parece suficiente.

Shannon -
Primeiro a América Latina é muito diversa, é mais um conceito que uma região. Não queremos cair na armadilha de acreditar que podemos ter uma única política. Precisamos de várias que nos permitam construir relações sobre realidades diversas. Por isso nossa política para o México e a América Central é diferente da do Brasil e da dos países Andinos ou do Caribe. Mas há aspectos comuns: um compromisso com a democracia e a consolidação das instituições, promover a prosperidade e o livre comércio; investir em saúde e educação pública e proteger a segurança do Estado democrático, entendendo que as ameaças são transnacionais, que têm a ver com defender os Estados do crime organizado e dos cartéis. E segundo, Bush foi o presidente mais ativo na região desde John Kennedy e a Aliança para o Progresso. Ele duplicou a ajuda financeira, visitou a região em nove ocasiões, participou de três Cúpulas das Américas, negociou dez tratados de livre comércio, construiu uma nova relação com Canadá e México...

EP - O México está em guerra contra o narcotráfico.
Shannon -
E precisa ganhá-la.

EP - Como? É suficiente a Iniciativa Mérida?
Shannon -
Não, a Iniciativa Mérida é um gancho para uma relação mais estreita. Mas o México não está enfrentando só esses problemas. A iniciativa é um programa de assistência e cooperação no qual os dois países assumem seus desafios. Nós reconhecemos que temos um problema de demanda de drogas que provoca confrontos dentro do México e que há tráfico de armas e lavagem de dinheiro a partir dos EUA. Temos interesse em participar e o dever de ajudar o México nessa guerra.

EP - Há dinheiro e vontade para adotar um novo Plano Colômbia?
Shannon -
A Iniciativa Mérida é equivalente ao primeiro Plano Colômbia, mas a situação é diferente. Não há guerrilha, é uma luta contra o crime organizado. A guerrilha vive na selva: os cartéis se movem nas cidades, usam telecomunicações, bancos... são mais vulneráveis; essa é uma grande vantagem para o México. Há outras: têm liderança, com o presidente Calderón; há vontade política e há a coragem do povo mexicano. E a equipe de Obama entende muito bem esse grande desafio.

EP - Acaba de ocorrer o 50º aniversário da revolução cubana e o perfil foi muito baixo. Quase não se comemorou em Havana...

Shannon -
Talvez haja pouco a celebrar. A revolução não é o futuro de Cuba.

EP - Fidel Castro sai mas fica, as reformas de Raúl não se concretizam, as condições de vida dos cubanos pioram... o que vai acontecer?

Shannon -
Há um grande desejo de mudança. Os cubanos querem um nível de vida melhor, conectar-se com o resto da América Latina e do mundo, viver em um país moderno. Raúl tomou algumas medidas que indicam seu interesse em abrir espaços no campo econômico e social, mas ainda não articulou seus propósitos. É um governo conservador, obcecado por controlar a velocidade da mudança: isso não vai funcionar. Tem de mostrar confiança em seus cidadãos e desenvolver um diálogo nacional em que os cubanos possam determinar qual é seu futuro.

EP - Obama falou em flexibilizar medidas, manter o embargo e em "uma nova estratégia". O que quer dizer isso?

Shannon -
Saberemos depois de 20 de janeiro. O importante é que haja mudanças fundamentais em Cuba, como a libertação dos presos políticos, para iniciar a normalização.

EP - Caberia a possibilidade de chegar a um acordo com o governo cubano em termos de luta contra o narcotráfico?

Shannon -
Não temos conversas formais com os cubanos sobre essa luta, mas às vezes compartilhamos informação sobre a mesma. E sendo Cuba uma ilha importante no Caribe, onde há não só o tráfico de drogas, mas de pessoas e outras atividades ilícitas, poderíamos imaginar esse tipo de diálogo. Tentamos construir um diálogo com os países caribenhos que não deixe nenhum espaço para os narcotraficantes.

EP - Então seria lógico o acordo com Cuba e contra o narcotráfico...

Shannon -
Não posso antecipar o que fará o próximo governo, mas seria lógico.

EP - O senhor dizia que a revolução está no passado. Mas o embargo, mantido por nove presidentes, certamente também...

Shannon -
A relação entre Cuba e os EUA tem raízes históricas que não podem ser ignoradas nem ser obstáculos para o futuro. Nosso propósito é promover a transição pacífica para a democracia. E precisamos estar sempre avaliando as ferramentas para esse objetivo.

EP - Como o senhor vê o processo de transição hoje?

Shannon -
As reformas em Cuba serão provocadas pelos cubanos. São eles que vão determinar seu futuro. Não posso dizer se vão atuar mais rápida ou mais lentamente, mas desejam mudanças fundamentais: mais liberdade econômica, mais liberdade social, uma sociedade mais aberta, tudo o que leve a uma vida democrática.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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