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16/01/2009

Opinião: a escultura do tempo

El País
Lluís Bassets
O tempo, o grande escultor, tem muita dificuldade com George W. Bush. O artista metafórico que Marguerite Yourcenar imaginou não vai tirar nada de bom do 43º presidente dos EUA, que termina de forma lamentável seu mandato na próxima terça-feira, 20 de janeiro. Por mais que tenha se esforçado em suas diversas aparições nos últimos meses, não há como vender a ideia de que foi uma presidência como todas, com sombras e luzes, e afinal das contas com um balanço salvável e frutífero; ninguém a compra. O legado que estes oito anos deixam não pode ser mais desastroso: só faltava a ruína do plano de paz de Annapolis, o projeto lançado por Bush para que Israel e Palestina assinassem a paz antes do fim de sua presidência.

Aí está a chacina de Gaza como arremate sangrento de sua presidência, com o humilhante detalhe final: essa incrível submissão do presidente americano e de sua secretária de Estado a um governo demissionário como o de Israel na hora de votar uma resolução do Conselho de Segurança da ONU. Uma coisa é certa: será difícil que em Israel alguém volte a tratar Hillary Clinton e Barack Obama como o fizeram com os atuais titulares da secretaria de Estado e da presidência Tzipi Livni e Ehud Olmert, este último deleitando-se inclusive com a sorte de tirar Bush de um ato público para exigir que seu país não votasse a resolução a favor do cessar-fogo.

A passagem do tempo promete piorar essa presidência. Bush confia no contrário: que o Iraque será logo uma verdadeira democracia e alguém se atreverá a pôr isso na sua conta; e que a nova política antiterrorista de Obama, respeitosa das convenções internacionais e do Estado de direito, não sirva para evitar novos atentados em território americano. Uma pobre perspectiva. Ao contrário do que sucedeu com outros presidentes, como Ronald Reagan, o próprio Richard Nixon ou Bush pai, tudo conspira para que a posteridade vá erodindo a imagem de Bush filho na medida em que se conheçam mais detalhes de seu duplo mandato.

Ele deixa um país em frangalhos. Com três dígitos a mais de desemprego (7,2%), um milhão a mais de pobres, 6 milhões a mais de cidadãos sem cobertura de saúde, um déficit orçamentário de US$ 1 bilhão, quando seu antecessor deixou um superávit de US$ 200 bilhões, e uma recessão de profundidade insondável. Não é quantificável a conta já conhecida dos prejuízos à imagem dos EUA, ao Estado de direito, ao respeito aos direitos humanos e ao moral de seus concidadãos.

Tudo vai cair sobre suas costas. Nenhum presidente acumulou tanto poder desde a Segunda Guerra Mundial. No entanto, não foi ele quem o utilizou, mas a camarilha neoconservadora que o rodeia, começando pelo autêntico poder na sombra, o "Darth Vader" desses oito anos, o vice-presidente Dick Cheney. Bush foi um presidente leve e ausente, quase frívolo. Trabalhou tão pouco quanto Reagan, que era um homem já idoso quando chegou à Casa Branca, mas não teve qualquer carisma nem talento organizacional para tirar partido de sua dedicação política dosada.

Não fez vida social em Washington. Jamais quis se relacionar com os grandes meios de comunicação, tachados por seus amigos "neocons" de liberais, isto é, progressivos e "esquerdosos". Deu muito poucos jantares de Estado, exatamente 12, segundo o jornal "Politico", contra os 30 de Clinton e 50 de Reagan no mesmo período de governo. Seus fins de semana transcorreram longe da capital, em Crawford, no Texas. "Politico" indica que Martha's Vineyard ou Kennenbunkport, no litoral da Nova Inglaterra, onde passaram os fins de semana Clinton e Bush pai, respectivamente, são a antítese da empoeirada e calorenta Crawford, quase sem vida social. Ali ele passou mais de 400 dias de seus oito anos de mandato, segundo as contas do jornal de Washington.

Se nos ativermos a seus próprios comentários, os símbolos e privilégios do poder presidencial, uma espécie de monarquia temporal eletiva, pesaram mais sobre Bush que os próprios conteúdos de sua presidência. O site presidencial, com profuso destaque para a família, as festas e os cachorros, dá uma ideia de como Bush vê a si mesmo, mais perto do espírito das cortes monárquicas e das páginas cor-de-rosa do que da grande política contemporânea.

Seu assessor Karl Rove acreditou em algum momento que poderia inaugurar uma era de hegemonia indiscutível dos EUA no mundo e de amplo domínio republicano na política interna e nos três poderes do Estado. Foi o contrário. Não foi um príncipe da aurora, mas o herdeiro crepuscular de uma decadência republicana.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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