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16/01/2009

Primeiras luzes da visão artificial

El País
Milagros Pérez Oliva
Será possível um dia recuperar a visão depois de ter ficado totalmente cego? Sete hospitais europeus trabalham em um projeto de estimulação elétrica da retina que já permitiu em testes experimentais devolver um pouco de visão a pacientes que a haviam perdido totalmente. A condição é que o paciente conserve a funcionalidade do nervo óptico.

Perder a visão é uma das deficiências mais devastadoras. Algumas enfermidades, como a retinite pigmentosa, podem levar à mais absoluta escuridão aqueles que sofrem dela, e de fato é uma das duas principais causas de cegueira em pessoas adultas. Mas surgiu uma esperança para esses pacientes: a visão artificial começa a ver suas primeiras luzes.

Devolver pelo menos um pouco de visão aos cegos é um sonho em que o médico Borja Corcóstegui, especialista em retina no Instituto de Microcirurgia Ocular de Barcelona, está empenhado há anos. Desde 1989 ele trabalha em um projeto internacional de visão artificial que começou a dar os primeiros resultados. Consiste na estimulação elétrica da retina através de um complexo sistema que inclui três componentes, dois externos e um interno: uma microcâmera, um microprocessador e um microchip - uma combinação de informática e de engenharia de precisão.

O primeiro elemento, chamado Visual Interface, consta de óculos em cujas hastes foi instalada uma minúscula câmera de alta resolução. Dessa posição, a câmera capta as imagens que a pessoa tem à frente e as envia a um microcomputador, o Pocket Processor, com o qual os óculos estão conectados e que contém um microcomputador e as baterias que alimentam todo o sistema. Através de raios infravermelhos, o processador transfere as imagens para um microchip que foi fixado na retina de um dos olhos do paciente mediante um parafuso de titânio. Em função das imagens recebidas, esse microchip emite descargas que estimulam a retina e chegam ao cérebro através do nervo óptico.

Resultado: o paciente começa a enxergar. Pouco, apenas algumas sombras, mas o extraordinário é que alguém que não via absolutamente nada consiga ver pelo menos sombras em movimento. "Ele vê as imagens como quando vemos a tela de uma televisão mal sintonizada ou codificada. Algumas figuras que se movem, mas não pode distinguir os detalhes." Por enquanto, porque os técnicos trabalham para aperfeiçoar tanto o microchip como o software para conseguir maior detalhe e precisão na percepção das formas.

Vida autônoma
Para alguém que não enxerga absolutamente nada, esse pequeno resquício de visão é muito, porque significa ser capaz, por exemplo, de distinguir os objetos em movimento e, portanto, também mover-se entre eles. O objetivo é que o paciente possa se movimentar inclusive em ambientes que não são conhecidos, de modo que possa levar uma vida autônoma.

O olho é uma estrutura muito complexa, e nem todas as patologias podem se beneficiar desse projeto. Por enquanto, só podem se beneficiar as pessoas que conservam o nervo óptico. Se este estiver prejudicado, não é possível tentar a visão, pois essa estrutura é fundamental para conectar a fonte artificial de imagens ao cérebro.

Na realidade, o procedimento que se segue é muito parecido com o da estimulação coclear que permite aos surdos escutar, mas neste caso o processo é muito mais complexo, porque não é o mesmo reproduzir no cérebro um som e uma imagem.

No projeto, dirigido por Gisbert Richard, chefe do serviço de oftalmologia do Centro Médico Universitário Hamburg-Eppendorf, participam sete hospitais da Alemanha, Suíça, Reino Unido e Áustria, além do Instituto de Microcirurgia Ocular de Barcelona. A técnica foi desenvolvida pela empresa Medical Implants. Ao todo já foi testada em sete pessoas, mas nos dois últimos casos surgiu um contratempo: o microchip não funcionou bem. Assim que se resolver esse problema, que é meramente técnico, serão retomados os testes.

Seis pacientes se ofereceram como voluntários e esperam que Corcóstegui possa operá-los em Barcelona. "O microchip tem 49 estimuladores minúsculos, e embora nesses primeiros casos a visão ainda seja muito pobre, estou certo de que vai funcionar. Vamos demorar dez ou 15 anos, mas vai funcionar, tenho certeza." Ele acredita que é o caminho mais seguro. Outros estão investigando a possibilidade de estimular diretamente o cérebro, mas Corcóstegui é cético. "Eu creio que isso não será possível, porque seria preciso estimular diretamente o córtex occipital, algo extremamente complexo."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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