UOL Notícias Internacional
 

21/01/2009

Bolívia: minoria contra maioria

El País
M. Á. Bastenier
Opinião do El País
No domingo se realizará na Bolívia um referendo para aprovar a nova Constituição indigenista do presidente Evo Morales, que pretende inaugurar um novo milênio na história do país andino e amazônico. Em consultas semelhantes, o governo havia obtido cerca de dois terços dos votos e nesta ocasião o primeiro magistrado profetiza, promete ou jura para que o referendo não baixe de 80%; a forma de computar, no entanto, o que os cidadãos votarem não se limita a acumular "sins" e "nãos" para ver quem ganha; é preciso detalhar. A vitória de Morales será formalmente a mesma, mas todos os bolivianos estarão pendentes do que acontecerá em cinco províncias onde se supõe que o resultado será apertado, as da chamada Meia-Lua: Santa Cruz, Beni, Pando, Tarija e Chuquisaca, onde vive a oposição que ainda resta ao governo central.

A Bolívia, sob uma visão rápida, pode parecer um país fortemente homogêneo: cerca de 70% de indígenas, 20% de mestiços, a maioria deles indistinguíveis para o europeu de seus irmãos índios, e menos de 10% de brancos, na maioria descendentes de espanhóis, com algum floreio germânico. Mas há pelo menos duas Bolívias. Uma maioria que vive no altiplano ocidental, quíchua ou aimara - a esta última etnia pertence Morales, embora ele só fale o espanhol dos conquistadores - de antiga dominação incaica que na colônia foi o Alto Peru; e as terras do oriente, que olham mais para o Brasil do que para La Paz, e onde a maioria indígena e mestiça não cede em número ao planalto, mas se decompõe em um bom número de famílias de origem amazônica ou guarani, tão estranhas ao duopólio pós-incaico quanto um andaluz e um escandinavo. E sobre essa maioria regional a minoria dessa minoria, o "criollo", conseguiu criar ou desenvolver um impulso natural para a autonomia, que reveste de interesses materiais o fato de que nela se encontram as jazidas de hidrocarbonetos que fazem da Bolívia uma séria aspirante a ricaça.

Uma provável maioria nacional, que pertence totalmente a Morales, se opõe a outra possível maioria regional e provincial, que emprestaria legitimidade à reivindicação autonômica.

E diante disso Morales joga sua grande carta em nome do centralismo indígena quando afirma que uma espera de 500 anos chega ao fim. O índio chegou ao Palácio Quemado, diz, para não abandoná-lo jamais; e embora não pronuncie a palavra "revanche" esta viaja com a comitiva, tanto como em uma Constituição que consagra o autogoverno das coletividades autóctones conforme seus usos e costumes. Assim como "bolivianizou" as riquezas do subsolo que eram exploradas para maior benefício do capital estrangeiro, o presidente persegue hoje a des-hispanização do país, mas como a maioria da população já conhece uma língua universal, que além disso é de seus dois grandes amores, Cuba e Venezuela, é de supor que não pense em prescindir dela.

O único obstáculo a essa proposta de transusbtanciação nacional seria a queda da cotação dos hidrocarbonetos com os quais seria preciso financiar tantas jurisdições, antigas e modernas como a ser criadas. Até agora contribuiu para isso o maná que o presidente Chávez distribuiu em seus dez anos de mandato; segundo a oposição, US$ 53 bilhões, parte dos quais fizeram o caminho de La Paz; mas com o petróleo a menos de US$ 40 não há para todos.

O presidente jogou suas cartas com mão de mestre: dividiu a oposição na capital, que é dominada pelo partido Podemos, pactuando a aprovação parlamentar do texto legal com uma parte de seus membros, rompendo o partido, e em troca do que se conformou com uma só reeleição; e, paralelamente, a deserção do Podemos deixa em esquálida solidão a outra oposição, a autonomista, centralizada em Santa Cruz. Se os que às vezes se dizem "federalistas" ganharem em alguma ou todas as províncias orientais poderão, como já fizeram no verão passado, montar alguma confusão pública em seu feudo, mas as armas, políticas e de fogo, são monopolizadas por La Paz. E assim parece difícil que o grau de "devolução" do poder que se conceder ao "criollado" oriental chegue remotamente a satisfazer suas aspirações.

O índio voltou; que cada um tire suas conclusões diante dessa nova América Latina; hoje boliviana, amanhã veremos o quê.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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