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22/01/2009

A crise e o vencimento de patentes forçam as farmacêuticas a revisar estratégias de pesquisa

El País
Milagros Pérez Oliva
A maior companhia farmacêutica do mundo em volume de vendas, a americana Pfizer, anunciou que reduzirá o número de pesquisadores e concentrará sua atividade em apenas seis áreas terapêuticas - câncer, dor, inflamação, diabetes, Alzheimer e esquizofrenia -, o que significa deixar em marcha lenta outras nas quais até agora havia feito importantes investimentos, como obesidade e doença cardiovascular. No ano passado a empresa foi obrigada a dispensar 10 mil de seus 85 mil empregados, mas agora os cortes afetarão as equipes de pesquisa. Por enquanto vai dispensar 800 dos 8 mil que tem em diferentes centros.

Não é a única grande farmacêutica que se encontra nessa situação. Nos últimos 24 meses, o setor anunciou planos de reestruturação que só na Europa e nos EUA afetarão 42 mil postos de trabalho. Em apenas seis meses a capitalização do setor na Bolsa caiu 28% e a preocupação aumenta conforme a recessão se intensifica. "As 'biotech' sentem o pânico", foi o título na revista "Nature", no último dia 8, de um relatório sobre como a crise afeta a biotecnologia.

Em apenas algumas semanas a crise financeira arrastou 1,5 milhão de apólices de seguro nos EUA, um país que já tinha 45 milhões de cidadãos sem cobertura de saúde. E países como Espanha ou Reino Unido, que têm um sistema público de cobertura universal, se veem levados a reduzir ao máximo os gastos farmacêuticos. Acabaram-se os anos dourados de crescimento de dois dígitos.

Mas não é só a crise que dói na indústria farmacêutica. A recessão só fez agravar uma crise estrutural que permanecia incubada. "Até agora o setor farmacêutico havia tido um papel anticíclico: não só não acusava as crises como atuava como refúgio de investidores", explica Jesús Acebillo, presidente da Farmaindustria e do grupo Novartis na Espanha. "Hoje não é mais assim. Vivemos pela primeira vez uma crise global que também afeta o modelo de pesquisa". Nos últimos 18 meses foram fechados 18 centros de P&D na Europa e nos EUA, e foram criados outros 14 em países emergentes. Esse é um dado muito importante: significa que a deslocalização não é só produtiva, mas também tecnológica.

A indústria farmacêutica sente-se pela primeira vez vulnerável. "Desde 2005 o índice de vendas nos grandes mercados dos EUA e da Europa é decrescente, e isso coincide com o número de novos remédios que chegam ao mercado, também decrescente", explica Jaume Puig-Junoy, professor do departamento de economia da Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona. A isso se acrescenta que as autoridades de saúde estão exercendo uma forte pressão para ampliar o uso de genéricos nos medicamentos que não estão mais protegidos por patentes.

De modo que as companhias veem expirar as patentes de seus produtos mais vendidos sem ter substitutos que possam manter o nível de vendas e receitas. Neste momento, três dos produtos com maior volume de vendas estão perto de perder a patente: o antiagregante plaquetário Plavix, da Sanofi-Aventis; o anti-hipertensivo Diovan da Novartis; e o Lipitor, um remédio contra o colesterol cujas vendas, no valor de US$ 13 bilhões, representam nada menos que 25% das receitas da Pfizer. O fato de sua patente expirar em 2011 sem substitutos à vista contribuiu para que as ações da Pfizer na Bolsa valham hoje 28% menos que um ano atrás.

O problema é que obter um novo medicamento está cada vez mais caro e difícil. Estima-se que desenvolver um novo remédio e colocá-lo no mercado custe US$ 800 milhões e, se for biotecnológico, US$ 1,2 bilhão. Mas inclusive quando se tem um composto com valor terapêutico não é seguro que chegue a bom termo. Muitos sucumbem nos últimos testes clínicos por problemas de segurança.

Foi o que aconteceu com o Torcetrapib da Pfizer, um remédio contra o colesterol que em 2006, quando estava nas últimas fases de testes clínicos, teve de ser retirado porque apresentou defeitos cardiovasculares graves. Que um medicamento caia no último instante sempre aconteceu, mas uma ferida como essa no sistema hoje tem consequências piores, inclusive para uma companhia líder como a Pfizer, que, segundo seu responsável máximo na Espanha, Miguel Isla, é a empresa que mais investe em pesquisa no mundo, à frente da Microsoft. Neste momento tem 24 produtos em fase final de testes clínicos.

"Em 2007 investimos € 8,1 bilhões, em 2008 6% a mais e este ano continuaremos aumentando. Mas com uma mudança de estratégia. Não é só uma questão de redução de custos, mas de modelo de pesquisa. Até hoje trabalhamos em grandes macrocentros com 500 a mil pesquisadores. Agora vamos criar equipes menores, com menos de 200 pessoas, altamente enfocadas em determinados alvos terapêuticos".

Antoni Esteve, presidente do grupo Esteve, concorda com a necessidade de investir em inovação. "Se não encontrarmos novos produtos, nosso futuro será mais incerto. Se agora reduzíssemos os investimentos devido à crise, isso afetaria nossa competitividade e nossa capacidade de internacionalização", afirma.

Mas a própria pesquisa mudou. A ciência hoje se faz em rede, e a permanente comunicação entre equipes aumentou de forma exponencial o conhecimento disponível e a rapidez da pesquisa. Os dinossauros se movem mal nesse mundo tão acelerado. Por isso as farmacêuticas compreenderam que para continuar inovando devem buscar a excelência fora de seus muros, ali onde se produz a melhor ciência, isto é, nas universidades e nos centros públicos de pesquisa. Nesse quadro se inscreve, por exemplo, o acordo da Pfizer com a Genio, um centro de genômica e oncologia da Universidade de Granada, com um investimento de € 9 milhões. É apenas um entre milhares de exemplos.

A revolução da biologia molecular mudou o paradigma da pesquisa. "Antes da genômica, todos os medicamentos eram desenvolvidos a partir de cerca de 500 modelos biológicos. Passamos, portanto, de 500 ou 600 possíveis alvos terapêuticos a 300 mil, 500 mil, isto é, tantos quanto os genes ou proteínas que vamos identificando", explica Jesús Acebillo. Os grandes laboratórios têm duas opções, segundo ele: fazer um "reset" ou se transformar. A Novartis decidiu se transformar. Sem deixar a tranquila Suíça, abriu há seis anos um centro de genômica funcional em Boston, no coração da inovação.

"A ciência está evoluindo em um ritmo e um nível de conhecimento que é impossível que uma companhia sozinha possa inovar como antes", corrobora Esteve, cujo grupo tem 350 pesquisadores e em 2009 investiu € 65 milhões em pesquisa. "Hoje a excelência está distribuída e nossa maneira de inovar consistirá em exteriorizar, em identificar as novas oportunidades e estabelecer mecanismos de colaboração onde são produzidos".

A crise reduz as margens de lucros, o que na opinião de Paul Hudson, presidente da Astra-Zeneca na Espanha, obriga as empresas a aumentar a eficiência e a produtividade. "Pesquisar é cada vez mais caro, por isso temos de tomar decisões que permitam fazer os resultados chegar ao mercado com maior rapidez". Inovação e velocidade são as duas palavras chaves para a situação atual, na opinião de Hudson. E uma responsabilidade a mais: "Temos de fazer esforços ainda maiores para demonstrar os benefícios que os medicamentos trazem, não só pela melhora da saúde das pessoas mas pela economia que um tratamento eficaz proporciona à sociedade".

A área de pesquisa da Astra-Zeneca, que em 2007 investiu US$ 5,2 bilhões, emprega mais de 13 mil profissionais distribuídos por oito países. Há alguns meses a empresa anunciou uma organização do sistema de produção de fármacos que representará a perda de 1.400 postos de trabalho e afetará a fábrica de Porriño (Espanha). "Nossa preocupação é tentar manter os empregos, por isso estamos buscando comprador", indica Hudson.

Está claro para todos que é preciso inovar para ter novos produtos em perspectiva de comercialização. Mas os resultados da inovação nem sempre são imediatos. Embora nos últimos anos tenham aparecido alguns remédios revolucionários no âmbito da oncologia, as novas linhas terapêuticas não são aplicáveis a todos os doentes.

O grande salto terapêutico que se esperava em conseqüência da revolução genômica ainda não ocorreu. "Na realidade, nos últimos anos a maioria dos medicamentos que chegaram ao mercado foram simples aperfeiçoamentos de outros já existentes. Novidades terapêuticas absolutas foram muito poucas", explica Puig-Junoy.

A dificuldade de identificar quais produtos podem ter aplicações terapêuticas está mudando a atitude dos investidores. Há menos disposição a correr riscos, sobretudo em países como a Espanha, onde inclusive se pode falar em aversão ao risco. "Não há dúvida de que é mais fácil alcançar a excelência em laboratórios e equipamentos de pesquisa pequenos. Hoje, quem suporta o maior esforço de pesquisa na Espanha é o setor público".

Apesar das declarações de intenções, a contribuição privada à P&D na Espanha está muito abaixo da de outros países. E alguns observadores veem inclusive o perigo de que o setor privado adote uma certa atitude parasitária: "Que o setor público pesquise, e se houver algo aproveitável o compraremos", seria a postura.

Obviamente, os centros públicos de pesquisa têm nessas vendas uma oportunidade de obter lucros para continuar pesquisando. Mas quanto vale o risco que correram até demonstrar que sua descoberta é viável?

Em todo caso, a crise também acendeu na Espanha as luzes de alarme. A Farmaindustria fez há alguns meses uma primeira avaliação de prejuízos. E o resultado é que, sem ruído, no último ano se volatilizaram cerca de 2.500 postos de trabalho, dos 36 mil que têm o setor. "Precisamos transformar a crise em uma oportunidade", diz Esteve. Na presidência da Farmaindustria, Acebillo enfrentou a situação: "Estamos abordando um plano setorial que não se limita a potencializar a inovação, mas em repensar as estratégias que vão nos permitir enfrentar os problemas estruturais". Políticas ativas para manter o emprego, aumentar a competitividade interna e aumentar os fundos destinados à P&D, esse é o tripé sobre o qual se assenta o novo plano.

A situação deve ser grave porque, diferentemente de outros tempos, não muito distantes, o discurso da indústria farmacêutica em relação aos poderes públicos hoje é de total colaboração. "Estamos dispostos a nos co-responsabilizar na sustentabilidade do sistema de saúde", diz Acebillo. Admitem, por exemplo, que o preço médio por receita aumente menos que a inflação.

"Apoiamos um pacto pela saúde. Somos sensíveis aos problemas de financiamento e queremos colaborar", diz Miguel Isla. "Enfrentamos a situação com preocupação responsável. Queremos ser proativos, aplicar uma estratégia global e reiterar nosso compromisso com o uso racional dos medicamentos", conclui Acebillo.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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