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23/01/2009

Durante ataques de Israel, Hamas mata uma centena de supostos colaboradores do Fatah

El País
Juan Miguel Muñoz Em Gaza
É uma mistura de revanche, divisão política abissal entre os palestinos, ódio, interesses pessoais e instintos dos mais primários. Durante os 23 dias de ataque sem descanso que Israel desatou contra Gaza, o Hamas e o Fatah ajustaram contas em meio ao caos. Uma guerra extremamente suja. Enquanto os combatentes disparavam foguetes, dezenas de colaboradores de Israel informavam o exército desse país sobre alvos concretos. Certamente muitas pessoas morreram por causa dessa ajuda ao inimigo. Mas a reação da milícia islâmica foi contundente e brutal. Mais de uma centena desses membros da quinta-coluna foram justiçados.

Em 1º de janeiro, aniversário da fundação do Fatah, saíram às ruas centenas de seus partidários. Alguns distribuíam caramelos - tradicional forma de celebrar uma boa notícia - para dar as boas-vindas aos bombardeios da aviação israelense. Masleh Reqab, um professor de economia de Khan Yunis, afirma que "membros do Fatah exilados no Egito ligavam para seus parentes e anunciavam que dali a três ou quatro dias voltariam para Gaza". Mal haviam passado cinco dias de luta e muitos deles pensavam que o Hamas não resistiria a bombardeios tão violentos. Mas aguentaram.

Em alguns bairros da cidade de Gaza, seguidores do Fatah tentaram tomar as ruas com as armas. Os policiais sempre patrulhavam, mas sem os uniformes que os transformavam em alvo fácil para os helicópteros e aviões israelenses. Pretendiam evitar que os homens armados do partido do presidente Mahmud Abbas se fortalecessem. E também impedir os saques, porque as portas de centenas de lojas ficaram arrebentadas pelas bombas e as mercadorias, ao alcance de qualquer ladrão. No entanto, as roupas civis dos agentes alimentaram a confusão.

O Hamas não costuma ter piedade com os que prestam ajuda ao inimigo sionista. Os disparos nas pernas contra os colaboracionistas, considerados traidores a toda regra pelos fundamentalistas, foram frequentes nesses dias de anarquia. "Havia homens que de repente colocavam um carrinho para vender frutas secas e vigiar a casa de algum dirigente do Hamas. Outros voltavam de zonas onde os soldados israelenses já estavam mobilizados sem sofrer qualquer dano. É quase impossível que não tenham prestado ajuda aos inimigos", afirma uma fonte muito próxima ao movimento islâmico. Boa parte deles está presa, mas muitos outros mais temerários tiveram pior destino.

"Surpreenderam com a mão na massa colaboracionistas disparando contra combatentes do Hamas durante a guerra. Esses foram mortos imediatamente. Os milicianos executaram mais de cem. Alguns que já são bem conhecidos eram trancados em casa com a advertência de que atirariam contra eles se deixassem suas residências", acrescenta a mesma fonte.

Ehab el Ghosein, porta-voz do Ministério do Interior, não confirma nem desmente. "Detivemos muita gente por colaborar com Israel", afirmou na quinta-feira. "São dezenas de pessoas que estão sendo interrogadas. Matá-las é ilegal, mesmo que sejam colaboracionistas. Mas ocorreram casos, aproveitando esses dias de confusão." El Ghosein indica que o ministro do Interior e um dos líderes da cúpula do Hamas, Said Siam, podem ter sido vítimas de um desses colaboradores. "Está sendo investigado", indicou.

Os dirigentes do Hamas não desapareceram nesses dias na clandestinidade mais absoluta. Muitos deles podiam ser vistos inclusive na televisão, participando de funerais. Um fato que pode ter facilitado o trabalho dos que marcaram a residência em que Siam, partidário da linha-dura do Hamas, se reunia com outros chefes de seu partido. Às vezes os colaboracionistas contavam com aparelhos dotados com sinais de laser para identificar o edifício que depois os aviões israelenses derrubavam.

É uma velha história que remonta aos anos 1990. Na luta cruel pelo poder entre o Hamas e o Fatah durante um ano, até junho de 2007, quando os islâmicos tomaram o poder em Gaza, também foram numerosas as tentativas de assassinato de militantes do Hamas, incluindo o primeiro-ministro, Ismail Haniya, que sofreu pelo menos duas tentativas de assassinato. A refrega concluiu com violência inédita naqueles dias de junho. E com um aumento de vinganças entre uns e outros nas quais o sangue correu abundante.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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