UOL Notícias Internacional
 

23/01/2009

"Não" em referendo pode colocar unidade da Bolívia em risco

El País
Soledad Gallego-Díaz Enviada especial a Santa Cruz
A grande dúvida na Bolívia, 48 horas antes do referendo constitucional, não é se vencerá o "sim", o que é dado como certo, mas qual será o resultado nos departamentos "rebeldes" cujos governadores defendem o "não". Uma vitória muito ampla da oposição nesses quatro departamentos da região oriental do país animaria os que já anunciam que não aceitarão a aplicação do texto fundamental em seus territórios. O vice-presidente Álvaro García Linera reagiu na quinta-feira (dia 22) às declarações de alguns dirigentes regionais do opositor Comitê Cívico para lhes lembrar que se a nova Constituição for aprovada em nível nacional será aplicada, como é lógico, a todo o país, sem exceções nem desculpas.

A campanha foi encerrada na quinta-feira com dois grandes comícios que retrataram bem o confronto entre os dois setores opostos. Os do "não" se reuniram em Santa Cruz, a segunda cidade do país e a mais rica, centro da região produtora de gás e petróleo. Os do "sim" se congregaram em La Paz, a capital, cidade mais populosa e firme defensora do projeto indigenista de Evo Morales.

O presidente boliviano compareceu na quinta-feira à Câmara dos Deputados, no que equivaleria a um debate sobre o estado da nação, para fazer uma vigorosa defesa de sua gestão nos últimos três anos. Morales ressaltou os avanços sociais experimentados na Bolívia, onde ocorreu uma sensível redução dos níveis de pobreza extrema, graças especialmente ao chamado bônus Juancito Pinto (um mecanismo pelo qual são dados 200 bolivianos aos pais que enviam seus filhos à escola e que foi sendo ampliado curso a curso até a 8ª série) e a renda de solidariedade, que garante a todos os bolivianos de mais de 60 anos uma renda mensal de 200 bolivianos, o que melhorou substancialmente o nível de vida dos idosos em comunidades pobres.

Evo Morales arriscou-se na quarta-feira e se colocou no coração do "não", em Santa Cruz, com o vice-presidente García Linera e vários ministros, para assistir ao comício de encerramento dos partidários do "sim" nesse departamento. Morales reuniu alguns milhares de pessoas diante das quais se queixou das mentiras que cercam a campanha do "não". Pareceu especialmente incomodado com a campanha das diferentes igrejas, muito avessas ao projeto de Constituição.

"O novo texto reconhece a liberdade religiosa, garante a liberdade de crença e de prática privada e pública, como me havia pedido a Conferência Episcopal católica, e além disso constitucionaliza os colégios de convênio. Por que apoiam uma propaganda mentirosa?" O presidente assegurou que a nova Constituição reconhece o direito à propriedade e à herança ("somos diversos também economicamente") e lamentou que a campanha do "não" esteja tentando "causar medo e intimidar os cidadãos".

Morales lembrou que esta é a primeira vez na história da Bolívia em que um texto constitucional é submetido a um referendo popular e se estendeu em seus ataques aos que reclamam mais autonomia departamental. "Querem autonomia para dividir o país e se queixam da autonomia que é reconhecida aos indígenas e aos povos originários. Por quê? As duas coisas são incompatíveis. O que acontece é que querem debilitar este índio para tirá-lo do palácio. Digam o que disserem, a Constituição será aprovada e aplicada."

Morales previu uma vitória próxima de 70%. "Sim, sim, sim", cantavam seus seguidores ao ritmo de uma canção de Cheyenne. Pequenas brigadas de limpeza percorreram a área do comício, garantindo que não houvesse poças de água estagnada: o departamento de Santa Cruz está em emergência sanitária devido a uma epidemia de dengue, e segundo algumas fontes já há mais de mil infectados por essa grave doença transmitida por mosquitos.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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