UOL Notícias Internacional
 

24/01/2009

Oposição quer retratar a divisão da Bolívia

El País
Soledad Gallego-Díaz
Em Santa Cruz de la Sierra
Conseguir que o "não" à nova Constituição seja majoritário no referendo deste domingo (25) em cinco dos nove departamentos em que se divide a Bolívia é o grande objetivo do movimento de oposição a Evo Morales, embora isso não represente derrotar o "sim", apoiado pelos departamentos mais populosos do país. A ideia é retratar a divisão do país em dois grandes blocos territoriais e tentar forçar um pacto posterior que deixe sem efeito prático alguns dos conteúdos do texto constitucional.

Para os partidários do presidente boliviano, pelo contrário, trata-se de conseguir um resultado global superior a 65% de votos favoráveis e manter a maioria em pelo menos cinco departamentos. Qualquer resultado que fique substancialmente abaixo dos 67% que Morales obteve no referendo revogatório a que se submeteu quando estava havia dois anos na presidência será interpretado pela oposição como uma deterioração da posição presidencial.

Moraes aproveitou a jornada de reflexão de sexta-feira para anunciar a nacionalização da petroleira mista Chaco, devido ao fracasso das negociações para ficar com a maioria da empresa, controlada até agora pela Pan American Energy. A nacionalização foi transmitida ao vivo pela televisão estatal dos próprios campos de petróleo da Chaco. O presidente, cercado de ministros e altos oficiais do exército, anunciou que assim recupera o controle de todas as companhias mistas que operavam no país.

Segundo a agência Reuters, o governo boliviano ofereceu US$ 4,8 milhões à Pan American para comprar o 1% necessário para ter a maioria. A Pan American é 60% propriedade da British Petroleum e 40% da argentina Bridas.

A campanha do referendo terminou oficialmente na madrugada de sexta-feira com os últimos comícios. O mais concorrido foi o do "não", realizado em Santa Cruz, com a participação dos governadores dos quatro departamentos rebeldes, conhecidos como Meia-Lua. Embora o palco estivesse ocupado quase exclusivamente por "criollos" e brancos, a grande protagonista da noite foi Savina Cuellar, uma indígena quíchua que foi eleita em junho passado prefeita de Chuquisaca e se transformou na estrela da campanha do "não". Cuellar, 46 anos, viúva com sete filhos (uma filha vive em Madri), é uma opositora acirrada de Morales (da etnia aimara) e rodeada pelo presidente do Comitê Cívico, Banko Marinkovic, e pelo governador de Santa Cruz, Rubén Costas, pediu o voto contra a nova Constituição por considerar que ela divide o país. Cuellar, que usa sempre o traje tradicional de seu povo, incluindo o chapéu preto, provocou os maiores aplausos.

Em conversação posterior com El País, a prefeita de Chuquisaca criticou os direitos especiais que a nova Constituição reconhecerá aos chamados povos originais. "São povos indígenas muito minoritários, que agora terão o controle de amplas áreas de terreno", explicou. Também lhe incomoda que os funcionários públicos sejam obrigados a falar pelo menos duas línguas, o espanhol e uma língua indígena. "Eu falo quíchua, mas Evo Morales não fala aimara. O que ele vai fazer? Isso vai criar bolivianos de duas classes", protesta.

Savina Cuellar não se sente incômoda cercada de criollos. "Eu ganhei as eleições com maioria da população indígena, mas não quero que a Bolívia seja dividida em classes diferentes de cidadãos." Entre as dezenas ou centenas de milhares de pessoas reunidas sob a estátua do Cristo Redentor, no centro de Santa Cruz (o cálculo mais conservador fala em 300 mil), viam-se muito poucos indígenas. A grande maioria era de brancos e mestiços, com camisetas brancas e o rótulo "não". Apareceram alguns poucos cartazes ofensivos: "Tarzã, você que fala com os animais, expliquei o estatuto de autonomia para o MAS" (partido de Evo Morales).

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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