UOL Notícias Internacional
 

25/01/2009

Atividade ao ar livre previne miopia nas crianças

El País
Gonzalo Casino
Em Barcelona
Deixar que as crianças passem mais tempo na rua, que façam mais atividades ao ar livre, que sua vista perambule fora das quatro paredes de um recinto fechado. Essas são recomendações consistentes e consensuais para prevenir a miopia de crianças cujos pais são míopes e têm, portanto, um alto risco de desenvolver a doença. Os estudos realizados nos últimos anos apontam nessa direção e os pesquisadores encontraram um ponto de acordo num campo no qual a controvérsia era a norma.

Seis em cada dez crianças com ambos os pais míopes desenvolvem a miopia se não fazem mais de cinco horas de atividades semanais ao ar livre; por outro lado, se passam mais de duas horas por dia (mais de 14 horas por semana), o risco cai para 20% (só duas em cada dez crianças serão míopes), segundo revela o estudo Cleere, realizado durante dez anos com 633 crianças míopes e 617 não-míopes na Universidade Estadual de Ohio (EUA), pelo grupo da pesquisadora Lisa A. Jones.

Mas o importante é que este trabalho não é uma pesquisa isolada. Da mesma forma, o estudo Orinda realizado na Califórnia, mostrou que, se passarem tempo suficiente ao ar livre, as crianças geneticamente predispostas à miopia têm uma probabilidade de desenvolver a doença apenas ligeiramente maior do que as crianças de pais sem esse defeito visual.

Da mesma forma, um estudo de miopia de Sidney, realizado com mais de quatro mil crianças em idade escolar de origem européia, mostra que passar mais tempo ao ar livre pode compensar o risco associado às tarefas escolares e ao trabalho visual próximo. Este efeito protetor das atividades ao ar livre foi também comprovado em crianças da China, Índia e Malásia, segundo indica o estudo Scorm, de Cingapura.

Estes e outros trabalhos foram apresentados em julho de 2008 no último congresso internacional de miopia, e agora são publicados na edição de janeiro de 2009 da revista Optometry and Vision Science. "A maioria dos estudos, incluindo o nosso, sugere que ficar algumas de horas ao ar livre pode ser benéfico para reduzir o risco de desenvolver miopia", afirma ao El País Jane Gwiazda, diretora de pesquisa do The New England College of Optometry e co-autora de um dos trabalhos.

Seus estudos mostram que as crianças míopes dedicam, em média, 8,3 horas semanais a atividades ao ar livre, contra 12,6 horas das crianças não míopes.

Entretanto, acrescenta, "a quantidade de horas de leitura, estudo e uso do computador não diferem entre os dois grupos de crianças".

A que se deve o efeito protetor das atividades ao ar livre? "O mecanismo é desconhecido", responde Donald O. Mutti, da Faculdade de Optometria da Universidade Estadual de Ohio, um dos autores do primeiro estudo mencionado. Para Gwiazda, "uma possível explicação é que olhar objetos a longa distância durante horas, como acontece nas atividades ao ar livre, pode ser um sinal para o olho bloquear o desenvolvimento e a progressão da miopia. Também pode ser uma consequência do fato de que a luz solar contrai a pupila, aumentando a profundidade de campo e reduzindo as imagens borradas".

Em todo caso, o que os estudos epidemiológicos revelam é que o efeito protetor está relacionado ao simples fato de estar ao ar livre, e não está associado à realização de alguma atividade específica, quer seja um esporte ou outra coisa

É difícil saber se as atividades ao ar livre podem frear a atual epidemia de miopia (há 1,6 bilhões de míopes no mundo e a previsão é de que haja 2,5 bilhões em 2020), como sugerem os estudos populacionais. Para demonstrá-lo seria necessária a realização de testes clínicos aleatórios, e esses estudos ainda não foram feitos. "Não conheço nenhuma medida preventiva provada", resume Mutti.

Até hoje, as medidas preventivas avaliadas em testes clínicos não foram satisfatórias. Por um lado, os remédios estudados, como a atropina, apresentam efeitos adversos; por outro, o uso de lentes progressivas, bifocais ou lentes rígidas permeáveis a gases mostraram resultados muito limitados.

Monitores e livros sob suspeita
Ter pais míopes é, sem dúvida, o principal fator de risco para desenvolver miopia. Se, além disso, a pessoa tem antepassados asiáticos, o risco aumenta (em alguns países da Ásia mais da metade da população é míope). Entretanto, os genes relacionados com a suscetibilidade à miopia são desconhecidos por falta de estudos de genética molecular suficientes neste campo.

Por sua parte, os estudos epidemiológicos identificaram que ter um QI elevado e um maior grau de escolaridade também são fatores de risco.

Essa associação das tarefas intelectuais com a miopia pode ser interpretada como o resultado de um esforço visual maior para perto.

Entretanto os últimos trabalhos parecem descartar que a leitura e o trabalho próximo aos olhos sejam realmente um fator importante, como parece ser passar pouco tempo ao ar livre.

O uso prolongado e contínuo de computadores estava associado a um notável efeito prejudicial para desenvolvimento da miopia, mas os estudos não confirmaram isso. O efeito nocivo dos monitores (televisão, computador, consoles) sobre a visão não parece ir mais além da fadiga visual. Em alguns estudos epidemiológicos, as crianças míopes e as não míopes utilizam os computadores por tempo similar.

Ler com pouca luz tampouco parece piorar a visão, ainda que possa causar fadiga visual. Outra idéia mítica que os especialistas desautorizam é que os exercícios visuais sejam capazes de preservar a visão.

Tradução: Eloise De Vylder

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